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ESTRANHA FORMA DE SER – Luís Costa

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ESTRANHA FORMA DE SER

Dizemos que o admirávamos (e admirávamos mesmo). Dizemos que foi, durante muitos anos, a nossa consciência, a nossa lucidez, a nossa visão mais holística e mais profunda, o nosso arquétipo de frontalidade e de denodo, a nossa mais viva centelha de inconformismo e de mobilização (e é verdade). Dizemos que lhe devemos muito e que lhe estamos infinitamente agradecidos (e é verdade, acredito). Porém, essa é a mais estranha forma de ser e de estar, lamento dizê-lo! Estranha forma de admirar e de estar agradecido!

O que fizemos com as suas palavras? O que fizemos com as candeias que ele, paulatinamente, persistentemente, foi acendendo no nosso caminho? O que fizemos com os exemplos que ele, pedagogicamente, nos foi dando? Em que é que transformámos tudo aquilo que nos deu? Soubemos estar à altura dos seus sonhos? Soubemos honrá-los? Soubemos merecê-los? Soubemos ser dignos de tanta entrega, de tanta generosidade, de tanta luz? Sinceramente, acho que não! Não, não soubemos!

Quase tudo o que soubemos fazer ― de tanto que ele nos deu e nos mostrou ― foi “gostar”, “amar”, comentar e partilhar nas redes sociais as suas crónicas, as suas palavras sábias, as suas ideias lúcidas, os seus sonhos, que nos superlativavam, que nos erguiam a patamares muito acima do nosso merecimento. E quase tudo foi fátuo, quase tudo se resumiu, exuberantemente, ao mundo cibernético. Muito pouco foi por nós reciclado e transformado em ação. Não soubemos honrá-lo nem tivemos coragem suficiente para o merecer.

Podíamos, ao menos, tê-lo honrado com a nossa presença no derradeiro cais. Onde estávamos nós na hora da sua partida? Várias dezenas de milhar ali tão perto e, afinal, tão longe, com tantos afazeres naquele dia. Imensa multidão no espaço virtual e quase solidão no mundo real. Tanta gratidão e tão pouca presença! O que valem, afinal, as nossas palavras inconsequentes? O que valem os nossos sentimentos, se não os trazemos à luz do dia? O que farão o vento e o tempo com as nossas palavras? Escuridão!

Não soubemos merecê-lo em nenhuma condição!