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Escolas registaram 47 surtos em duas semanas e só com metade dos alunos em aulas

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Desde o início do desconfinamento foram registados 47 surtos activos de covid-19 em creches e estabelecimento de educação pré-escolar e do 1.º ciclo. O número representa mais de metade dos surtos contabilizados na semana anterior à suspensão das aulas, em Janeiro. No entanto, nas últimas semanas apenas 45% da população escolar esteve em ensino presencial. Em Janeiro todos os alunos estavam em aulas.

 

Os dados foram avançados ao PÚBLICO pela Direcção-Geral de Saúde (DGS) e foram actualizados na passada segunda-feira, 5 de Abril. Atendendo a que, na semana anterior, as escolas estiveram encerradas para as férias de Páscoa, reflectem o que se passou nas duas semanas de retoma das actividades presenciais nas creches, pré-escolar e escolas do 1.º ciclo (15 a 26 de Março).

O infecciologista António Silva Graça considera que a situação “não é alarmante”. Os estabelecimentos de educação até ao 1.º ciclo foram “praticamente o único sector em que houve mudanças” nas medidas restritivas de controlo da pandemia durante a segunda quinzena de Março, pelo que seria “expectável” que houvesse um aumento de casos superior nos grupos etários correspondentes.

 

O especialista lembra ainda que este aumento acontece no momento em que foram feitos testes em massa nos estabelecimentos de ensino — com uma taxa de positividade inferior a 0,1% — que são um factor para “reduzir o risco em contexto escolar”.

 

O matemático e investigador Carlos Antunes considera que os dados de surtos activos agora divulgados pela DGS “parecem corroborar que há uma proliferação significativa das infecções”

Os 47 surtos activos representam um decréscimo de 40% face ao registado no dia 18 de Janeiro, a última vez que este balanço tinha sido feito pelas autoridades de saúde, antes da interrupção das aulas presenciais – eram então 78 os surtos activos.

No entanto, nas duas semanas de 15 a 26 de Março apenas 45% da população escolar esteve em ensino presencial – 703 mil crianças que frequentam as creches, pré-escolar e 1.º ciclo. Só esta segunda-feira retomaram as aulas os mais de 520 mil alunos do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico. E há mais 320 mil estudantes do ensino secundário que apenas voltam às escolas no dia 19 de Abril.

Serão estes dados nos quais que se baseou o primeiro-ministro quando, nesta terça-feira, se mostrou “preocupado” com transmissão do vírus nas escolas.

 

Os 47 surtos em ambiente escolar são, ainda assim, um número relativamente baixo, atendendo a que há quase 5800 estabelecimentos de educação pré-escolar e mais de 4100 escolas do 1.º ciclo em funcionamento desde 15 de Março. Desde o início do ano lectivo, a DGS tem divulgado, nem sempre de forma regular, este dado – que inclui creches, pré-escolar e o ensino superior, além dos diferentes ciclos da escolaridade obrigatória. Até ao momento, o valor mais elevado foi registado em finais de Novembro, quando estavam activos 94 surtos do novo coronavírus em escolas.

 

O matemático e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Carlos Antunes considera que os dados de surtos activos agora divulgados pela DGS “parecem corroborar que há uma proliferação significativa das infecções” entre as faixas etárias que voltaram ao ensino presencial. Como o PÚBLICO noticiou no início da semana, este especialista detectou que os casos nas faixas etárias dos zero aos cinco anos e dos seis aos 12 anos tiveram um aumento “significativo” da incidência a partir de dia 29 de Março. Este comportamento é contrário à tendência dos restantes grupos etários.

 

Antunes lembra que em Janeiro, antes do segundo confinamento, o grupo etário dos 6 aos 12 anos era já um dos que mais novos casos de covid-19 registava, sendo apenas superado pelo escalão etário imediatamente a seguir (13 a 17 anos). Com o regresso à escola, no início desta semana, dos alunos do 2.º ciclo (10 aos 12 anos, parte da primeira destas faixas etárias) e do 3.º ciclo (dos 13 aos 16 anos, grosso modo) é “expectável” que na próxima semana se continua a verificar não só um aumento de novas infecções para as crianças dos 6 aos 12 anos, mas também um avanço nos novos casos no escalão seguinte.

 

António Silva Graça considera que a situação “não é alarmante”. Os estabelecimentos de educação até ao 1.º ciclo foram “praticamente o único sector em que houve mudanças” nas medidas restritivas na segunda quinzena de Março, pelo que seria “expectável” o aumento

As declarações do primeiro-ministro na terça-feira apontavam também para a existência de surtos de maior dimensão nas escolas, depois da retoma das aulas presenciais. Segundo António Costa, durante o 1.º período, os testes aos contactos de risco realizados “quando era detectada uma criança contaminada”, não sinalizavam “praticamente mais nenhum caso”. “Hoje, havendo um caso suspeito, quando se vai a testar, já há vários casos de transmissão.”

 

Os números disponibilizados pela DGS não permitem confirmar esta percepção, uma vez que contabiliza apenas o número de surtos activos e de casos nos mesmos estabelecimentos onde existe o surto. Os 47 surtos contabilizados a 5 de Abril correspondem a um total de 422 casos de covid-19 – uma média de nove pessoas associadas a cada surto. Não é um valor muito diferente do registado em meados de Janeiro. Eram então oito pessoas ligadas, em média, a cada surto (610 casos confirmados nos estabelecimentos onde havia 78 surtos). “Se a média são nove infectados, significa que há surtos com duas ou três pessoas, o que não é significativo do ponto de vista de saúde pública”, contextualiza o infecciologista António Silva Graça.

 

Costa associou este fenómeno à prevalência da estirpe britânica. Todavia, nem a DGS nem o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa) dispõem de dados sobre o impacto de cada variante nos diferentes escalões etários. O último relatório sobre a diversidade genética do novo coronavírus, publicado na sexta-feira pelo Insa, confirma que esta variante corresponde a cerca de 83% dos actuais casos de doença.

Público

 

 

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