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Escola Vs Armazém – Carlos Santos

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É inegável que, enquanto não viram restringido o direito à greve, obrigando a que as escolas estivessem de portas abertas, os encarregados de educação não descansaram, alegando que lhes causava um grande transtorno – argumentação que expôs a sua primeiríssima preocupação. Embora os professores tenham vindo a ser inexcedíveis no esforço de formação dos nossos alunos e estarem a empreender uma luta dignificante na defesa de uma Educação de qualidade, conseguem, uma vez mais, serem desconsiderados pelos pais.

Não querem lá ver que – só depois do incómodo que sentiram – agora é que os pais se lembraram das aprendizagens dos seus educandos?

Sendo atitudes que nos soam familiares, aí estão, como de costume, os pais a equivocarem-se na identificação dos responsáveis pelo estado em que está a Educação no país. Viram-se para o governo, não para o culpabilizar, mas para solicitarem que aumente a carga horária dos professores, o prolongamento do ano letivo, a redução da pausa letiva da Páscoa – entre outras distopias –, para verem compensadas as aprendizagens (supostamente) perdidas devido à luta dos professores. Sinceramente, gostava de saber onde têm andado esses pais tão diligentes, pois, muitos nunca aparecem nas escolas (nem quando convocados), não se responsabilizam pela falta de educação dos filhos e nem se preocupam em colaborar com a instituição que se dedica ao ensino.

Por acaso, não quererão, também, que os docentes fiquem com os vossos filhos na escola durante os fins de semana e as férias?

Mas, o maior cúmulo de hipocrisia, é termos associações de pais preocupadas pelo motivo de os alunos terem perdido uns dias de aulas devido à greve dos professores (que os mesmos assumem recuperar facilmente), exigindo a recuperação das aulas com trabalhos forçados para a classe docente, mas não termos assistido à mesma indignação e preocupação pelo facto de, desde setembro, 40 mil alunos estarem sem aulas a, pelo menos, uma disciplina, afetando gravemente a sua formação.

Aparentemente, não os vi preocuparem-se com a correlação desta falta de professores com a ausência de ajudas de custo para deslocações e alojamento, que leva a que a maioria manifeste preferência em não aceitar horários, a ter de trabalhar para empobrecer.

Também não vislumbrei qualquer indício de desassossego pela crescente falta de professores que, a curto prazo, irá deixar centenas de milhar de alunos sem aulas, porque ninguém quer enveredar por uma carreira tão pouco atrativa, mal paga, dispendiosa e com a garantia de deslocações durante décadas.

No meio de todo este delírio, as associações de pais saberem distinguir aquilo que é uma “escola” daquilo que é um “armazém”, seria mais apropriado do que se darem ao trabalho de se mobilizarem para proferirem verdadeiros disparates.

Carlos Santos

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