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Escola covid – Júlia Caré

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Tendo em conta a responsabilidade social e política da escola de hoje, a heterogeneidade cultural e social da população escolar, as naturais diferenças individuais e o combate aos efeitos das desigualdades em sala de aula – desafios diários da atividade pedagógica da escola – não foram só os conteúdos das diversas disciplinas a serem afetados com o ensino à distância. O confinamento de todos os alunos em casa condicionou fortemente a vertente ética da missão educativa da escola, o seu objetivo humanista de factor de integração, inclusão e promoção social e cultural, para além da excelência académica. O acompanhamento das circunstâncias individuais de cada aluno sofreu um profundo revés, com a interrupção dos ambientes de socialização na escola, comprovadamente vitais ao desenvolvimento de capacidades e competências pessoais, sociais, afetivas e intelectuais, a riqueza daquilo que, uns com os outros, aprendemos para a vida.

As aulas pela televisão, ou através de plataformas eletrónicas foram o remedeio e o improviso imediato, um desafio para professores, e a resposta letiva de emergência possível, num mundo impreparado. Mas aprofundaram desigualdades e constituíram também uma cortina de invisibilidade a tantos alunos a necessitar de atenção e intervenção multidisciplinar, para um desenvolvimento adequado em termos de conhecimentos académicos e literacia cidadã. Foi manifestamente insuficiente o contacto visual professor-aluno, porque as aulas online foram reduzidas para metade em quase todas as disciplinas, ou porque as câmaras dos alunos estavam quase sempre desligadas… A questão sensível da segurança e privacidade na internet …

Refira-se a diversidade e a reconhecida desigualdade das famílias quanto ao acesso a televisões, computadores, internet e a poderem proporcionar aos seus filhos, o necessário acompanhamento, orientação e supervisão de todo este processo, muitas em teletrabalho ou layoff, mas outras forçadas a continuar a sair de casa para trabalhar… Por outro lado, é discutível se todos os alunos adquiriram já, e a que nível, a necessária noção de responsabilidade do que se convencionou chamar de “trabalho autónomo”.

Os decisores políticos salvaguardaram a situação do Ensino Secundário e a adaptação – bem! – dos exames nacionais, quer em termos de valerem só para efeitos de acesso ao Ensino Superior, quer até na estruturação da prova, com questões de opção, mais justas para os alunos, dirimindo assim o efeito roleta russa do exame, tão injusto para o sistema educativo, um processo a aprofundar. Mas, agora que rodeados de incerteza se planifica o novo ano letivo, é vital referir os anos iniciais de escolaridade, o pré-escolar, os processos de aprendizagem da leitura, da escrita e da matemática, as dificuldades de aprendizagem, os alunos portadores de deficiência, e onde é eticamente imperativo, o acompanhamento constante, pese toda a incógnita que rodeia o porvir. E ainda o acautelar das desigualdades na ocupação dos tempos livres em períodos de férias, um outro desafio também em tempo de pandemia. As finalidades universais da educação e da responsabilidade política e obrigação moral da instituição escola continuam desafios, mesmo por detrás da máscara sanitária…

Fonte: DNMadeira