Início Educação Em 15% das escolas houve alunos a aprender apenas pela telescola

Em 15% das escolas houve alunos a aprender apenas pela telescola

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Quando a RTP Memória começou a emitir aulas todos os dias para os alunos do ensino básico, a 20 de abril, a ideia era que esta espécie de nova telescola funcionasse como um “recurso complementar de apoio ao ensino” e não como um substituto das atividades que as escolas teriam de oferecer, incluindo para todos aqueles que não tinham um computador para si ou um telemóvel com internet que lhes permitisse assistir a aulas à distância ou receber trabalhos no e-mail. Ao todo, e de acordo com o relatado pelas escolas públicas, em mais de 35% havia alunos com dificuldades de acesso a estes meios. Mas o questionário que o Ministério da Educação enviou aos agrupamentos escolares — em três momentos distintos, de forma a perceber como estava a decorrer a adaptação dos professores a uma nova forma de ensinar e de chegar aos estudantes — dizia que um número minoritário mas relevante de crianças e jovens recebeu conteúdos educativos “exclusivamente através da iniciativa #estudoemcasa”.

De acordo com os resultados publicados no relatório agora disponibilizado pelo Ministério da Educação, no início do 3º período, entre 21% e 24% das escolas (consoante o ciclo do ensino básico) disseram ter alunos a aprender apenas pelas aulas na televisão. Quando a mesma pergunta voltou a ser feita já nas últimas semanas do ano letivo, que acabou por ser prolongado, essa percentagem caiu para 15%. Em termos absolutos, a análise aos questionários permitiu concluir que mais de 10 mil estudantes do ensino básico (a maioria do 1º ciclo) iniciaram o 3º período a aprender a matéria exclusivamente a partir da telescola. Este número acabou por cair no final para 6 mil, o que é revelador de uma “progressiva construção de soluções educativas mais diversificadas e robustas para estes alunos”, assinala-se no documento, que pode ser consultado no site da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC).

A adaptação ao longo do tempo dos diretores e professores das escolas públicas (as privadas não responderam em número suficiente para que seja possível tirar conclusões) ao ensino à distância é, aliás, umas das conclusões mais visíveis da análise às respostas que foram dadas em três momentos: no final do 2º período e antes das férias da Páscoa, quando as escolas ainda estavam a pensar como podiam transformar-se para um cenário em que as aulas presenciais tinham deixado de ser possíveis; no início do 3º período, quando já eram visíveis as estratégias que estavam a ser postas em prática; e no final do ano letivo, já com os alunos do 11º e do 12º a regressarem às escolas para terem aulas às disciplinas em que iam fazer exames nacionais.

“Em termos globais, o que se destaca é que, sem prejuízo das dificuldades, o sistema educativo não entrou em rutura e conseguiu adaptar os seus procedimentos de forma a continuar a dar uma resposta aos seus alunos”, assinala-se no relatório “Estamos on com as escolas”, que destaca ainda a “evolução muito positiva da maioria dos indicadores entre as três fases de inquirição”, refletindo “os esforços e as aprendizagens das comunidades educativas, ao longo deste processo de emergência, para continuar a assegurar os processos de ensino, aprendizagem e avaliação a todas as crianças e jovens”.

Mas nem tudo correu bem nos mais de 800 agrupamentos que responderam ao questionário. Por exemplo, no primeiro momento de inquérito, questionados sobre se as escolas tinham estabelecido um cronograma das atividades de ensino à distância, com horários preestabelecidos, apenas um quinto das escolas no básico e um quarto no secundário o tinham feito para todas as suas turmas. Cerca de um mês depois, esse valor subia para quatro em cada cinco, o que revela uma “expressiva capacidade de adaptação”. Ainda assim, nas restantes 20%, essa informação não tinha sido preparada e transmitida a todos os alunos. E no início do 3º período ainda havia mais de 10% de escolas onde nem todas as turmas tinham atividades de ensino à distância. Essa percentagem acabou por fixar-se em 8% no final do ano letivo.

Outro dado que ficou evidente da pandemia e da suspensão das aulas presenciais a partir de 16 de março foi que os alunos em situação mais frágil, nomeadamente os 12 mil que eram acompanhados regularmente em centros de apoio à aprendizagem, acabaram ainda mais prejudicados. Numa 1ª fase, a resposta presencial abrangeu apenas 17 alunos em 7 escolas (1%). E o valor máximo ficou-se pelo acompanhamento presencial de 200 crianças e jovens em 40 escolas (6%). “Os dados mostram que a opção para a generalidade das escolas foi manter o apoio à distância, correspondendo à ausência de solicitação dos encarregados de educação.”

Quanto aos estudantes do ensino secundário que acabaram por ter a oportunidade de regressar às escolas a partir de 18 de maio, o inquérito permitiu ficar a saber que na maioria das escolas (65%) houve uma redução da carga letiva de todas ou algumas disciplinas sujeitas a exame nacional. Foi essa a forma encontrada para ser possível o desdobramento de turmas e a redução do número de estudantes que estavam nas salas de aulas ao mesmo tempo mantendo o mesmo número de professores.

Isabel Leiria

Expresso