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Do «anedótico» ao «bizarro» atribuírem direções de turma a horários de 6/8horas – Ricardo Pinto e Chaves

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Do «anedótico» ao «bizarro» da pedagogia em Portugal – O MEC e os órgãos subalternos mostram-nos a sua total falência e desespero perante a falta de professores ao atribuírem direções de turma a horários de 6/8horas

Se maioria da classe docente já se encontra incrédula perante o decreto-lei que permite aos licenciados de Bolonha candidatarem-se a ofertas de escola sem nunca terem formação pedagógica para, agravada, ainda, pelo facto, desses candidatos auferirem ordenados pelo índice 167, índice dos profissionalizados ( o que em si, constitui profunda injustiça), e inclusive, quando colocados, independentemente das características dos horários (completos ou incompletos), serem-lhes atribuídas direções de turma (uma atrocidade, na minha opinião), ultimamente a mise-en-scène em alguns agrupamentos, tem contribuído para o agravar do mau estar e descontentamento da classe.

Dá-se o caso de começar a ser prática corrente, em horários incompletos e de poucas horas – sobretudo entre 6 e 8 horas letivas – os docentes que se candidatam a OE serem presenteados com direções de turma que, por norma, escondem presentes envenenados, i.e., direções de turma com especificidades próprias em que parte dos discentes nem sequer frequenta as aulas do diretor/a de turma por terem medidas adicionais e, por isso, se encontrarem nas chamadas Unidades com professores da Educação Especial.

O DT que pouco/ nenhum tempo está na escola redundantemente tem pouco ou nenhum contacto com esses alunos, ao que as direções dos agrupamentos simpaticamente sugerem que se façam articulações com os docentes das Unidades…Mas que articulações, se horários curtos não o permitem? Fazemos articulações por email? Por vídeo chamada? Quem nos paga essa horas que não estão incluídas nos horários nem mesmo nas horas individuais para horários de poucas horas para articular/promover aprendizagens dos alunos com maiores dificuldades?

O que está em questão é que um Diretor de Turma tem funções fulcrais enquanto mediador entre a turma e os professores do Conselho de turma e, para quem tem bom senso – a autocracia das direções escolares tolda-o e na égide da autonomia e flexibilidade – nunca deveria ser atribuída uma direção de turma a quem está, por exemplo, dois dias na escola.

Alguém com essas funções, tem necessariamente de ter tempo suficiente na escola – já nem refiro com a turma – para tomar as diligências necessárias e ter conhecimento pessoal das situações, algo que um DT, por exemplo, com 8 horas letivas, não conseguirá. Não conseguirá dar vazão a todas as questões que diariamente chegam quer de alunos, quer de Encarregados, quer de funcionários e quer de colegas. Esse professor só trabalha 8 horas letivas mais as individuais para preparação de aulas, friso. Alunos com medidas seletivas e adicionais exigem uma burocracia excessiva em que o DT tem parte ativa, como é do conhecimento da classe.

O ordenado auferido por 8 horas é totalmente desajustado a estas funções e de longe ser proporcional ao que é exigido de um DT. Parece natural que quem se candidata a horários de poucas horas tem outras atividades durante a semana e as ofertas de escolas têm, necessariamente, de ser mais transparentes. Acredito que ninguém se candidataria a um horário com estas características ao saber que, mesmo tendo uma DT, a turma tem especificidades que requerem um trabalho não suportado para 8 horas letivas e mais duas não letivas. Não é só a falta de bom senso que ressalta nestas situações mas também a falta de sentido pedagógico de quem dirige. Os alunos são os mais afetados.

Assim existem várias razões para a falta de professores em determinados grupos de recrutamento: para além das reformas massivas em curso, a pouca atratividade da profissão pelo excesso burocrático, acresce ainda que, neste momento, se bem que ainda de forma ténue, uma nova geração de docentes (que infelizmente ainda é residual) não está disposta a suportar as arbitrariedades das direções, preferindo abandonar a profissão e seguir outros rumos, quando possíveis.

Parece que ao ME e restantes organismos que tutelam a Educação, a denúncia de contratos ad nauseam em vários agrupamentos e que ocorrem diariamente lhe devem ser alheios, digo. Quando se vir aflito, o Ministro João Costa decide levantar, como o fez, as penalidades…Boa resolução! Tenho dito.

 

Ricardo Pinto e Chaves