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Diário De Uma TEIP – Quando O Direito À Educação Não É Para Todos

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Muito se tem debatido nestes últimos dias sobre a dificuldade em contactar com todos os alunos, impedindo que se mantenha a relação Escola/Famílias, numa situação que é nova para todos. Os professores lutam por mostrar que não estão de férias e continuam a cumprir as suas funções, os pais desesperam por estarem em casa em teletrabalho e terem de gerir o tempo com as tarefas que os filhos têm de cumprir e as restantes obrigações familiares, a Câmara Municipal envia inquéritos e pedidos de sugestão de como evitar a exclusão destes alunos, o Ministério da Educação faz levantamentos do número de alunos sem acesso a computador ou tablet e sem internet, pois o direito à Educação continua e é para todos…

Mas ninguém pergunta o que fazer quando são os próprios pais/ encarregados de educação a boicotar todo este processo… Na minha escola muitos alunos não têm computador, muito menos impressora, mas têm telemóvel e internet. No início do ano poucos facultam um email por onde possam ser contactados (o facto da escola se encontrar no meio do bairro facilita o contacto diário, nem que seja através do gradeamento), mas até o número de telemóvel fornecido em setembro deixa de funcionar passado pouco tempo. No entanto temos telefonado, enviado mensagens, pedimos ao colega que mora no mesmo prédio ou até é familiar, pedimos às assistentes operacionais que falem com eles, ao mediador sociocultural, sempre na tentativa de que os alunos não fiquem todo este tempo sem contacto com os seus professores, que sintam que ainda existe alguma normalidade e que a proximidade com a Escola não é apenas física. Mesmo assim, quantos pais com quem conseguimos contactar por telefone, a primeira coisa que nos dizem é “Não pode fazer trabalhos, não temos computador” e depois nós explicamos que não é necessário, tivemos a preocupação de arranjar tarefas que podem fazer num caderno ou usando sites educativos (internet no telemóvel todos têm), só precisamos de um email para onde enviar as indicações, “Sim, professora, então está bem, quando o meu filho/marido/irmão chegar já lhe peço e depois envio mensagem com o email”… E nada de mensagem… No dia seguinte novamente voltamos à carga “Então, esqueceu-se?”, “Pois foi! Vou já enviar…” E nada…

E continuamos a insistir, mesmo sabendo que não são nossos filhos… Mas são nossos Alunos, e os Professores, mesmo com todas as dificuldades que enfrentam, muitas vezes longe de casa e das suas famílias, desrespeitados pela sociedade e pela tutela, sabem que não excluem ninguém, que por eles todos vão continuar a ter as mesmas oportunidades, com computador ou sem.