Quarta-feira, Setembro 29, 2021
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Deveríamos prolongar as férias de Natal? “Lá fora” dizem que sim!

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Nova variante não poupa crianças? Pressão para fechar escolas aumenta no Reino Unido. Escócia prolonga férias de Natal

Quando o mayor de Londres pediu ao Governo que fechasse as escolas, a resposta foi não. Quando as escolas de Greenwich, mesmo assim, passaram para o ensino à distância, o Governo ordenou que reabrissem. Agora, uma semana depois, são os sindicatos de professores a pressionar Boris Johnson para manter as escolas fechadas para lá das férias de Natal, enquanto a maioria dos diretores está disposta a ir contra as ordens do Executivo. A 14 de dezembro, tal como a 21, o motivo é o mesmo: uma nova variante do vírus da Covid-19 espalha-se pela Grã-Bretanha, em especial no sul, e, desta vez, parece não poupar as crianças. Pior: suspeita-se que se propague mais facilmente e os números entre os jovens estão a crescer.

Se os primeiros avisos não colheram, agora são os conselheiros do governo britânico a dizê-lo. “Há indicação de que esta variante tem uma maior propensão para infetar crianças”, disse Neil Ferguson, professor e epidemiologista do Imperial College London. “Não estabelecemos qualquer tipo de causalidade, mas podemos vê-lo nos dados. Vamos precisar de recolher mais informação para ver como se comporta daqui para frente.”

Neil Ferguson é o Dr. Lockdown, alcunha que ganhou por ser visto como o arquiteto do confinamento britânico durante a primeira vaga. Caiu em desgraça quando se soube que violou as regras do isolamento para se encontrar com uma amante, mas está de regresso e pertence ao Grupo de Aconselhamento sobre Ameaças de Vírus Respiratórios Novos e Emergentes (NERVTAG).

Esta segunda-feira, ele e demais cientistas do NERVTAG deixaram o alerta que o mayor de Londres já tinha feito: é preciso olhar com cuidado para o papel das crianças e das escolas na transmissão da nova variante do SARS-CoV-2. Para fazê-lo, avisam, precisam de analisar mais dados.

O infectologista Francisco Antunes concorda. Qualquer afirmação que se faça neste momento é “puramente especulativa”, afirma ao Observador, defendendo que é necessário ser-se muito cauteloso em relação aos dados existentes.

“Não há informação cientificamente validada sobre um maior risco de transmissibilidade desta variante”, quer quando se fala de crianças, quer quando se fala de adultos, sustenta o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Há, na sua opinião, vários fatores que podem estar na génese do aumento de casos no Reino Unido e que não tenham necessariamente a ver com a virulência da nova variante. Só depois dessas serem retiradas da equação, como o facto de estarmos no inverno, é que se pode arriscar falar em maior transmissibilidade.

“Há indicação de que esta variante tem uma maior propensão para infetar crianças. Não estabelecemos qualquer tipo de causalidade, mas podemos vê-lo nos dados.”
Neil Ferguson, professor e epidemiologista do Imperial College London

O aumento de diagnósticos positivos entre os jovens britânicos é um facto indesmentível — os dados a que Neil Ferguson se referia. Foi isso mesmo que o mayor Sadiq Khan alegou quando endereçou uma missiva para o número 10 de Downing Street a pedir o fecho imediato das escolas: os surtos entre menores, dos 10 aos 19 anos, eram “significativos”.

“O Governo deve considerar urgentemente o encerramento das escolas alguns dias antes do Natal e considerar mantê-las fechadas por mais tempo depois das férias”, pedia Sadiq Khan. “O aumento de casos de coronavírus na capital é profundamente preocupante.”

Apesar do apelo, as escolas inglesas continuaram a funcionar até ao final da semana passada, início das férias de Natal. A mesma decisão foi tomada pela Escócia e Irlanda do Norte. Entre os países constituintes do Reino Unido, só o País de Gales optou por terminar o período letivo com aulas à distância nas escolas secundárias.

Nesse mesmo dia, 14 de dezembro, quando Sadiq Khan falou e o País de Gales fechou as escolas, a história teve vários desenvolvimentos. O ministro da Saúde britânico anunciou na Câmara dos Comuns ter sido detetada uma nova variante do coronavírus no Reino Unido, com mil casos já confirmados, apontando-a como a causa aparente da aceleração da pandemia em algumas zonas do país.

A Sky News fazia contas e noticiava que os casos entre os jovens disparavam em Londres, de forma assimétrica entre as 32 freguesias do condado, com uma taxa de crescimento muito mais rápida do que no resto da população. E em duas freguesias de Londres as autoridades locais ordenavam que se passasse para o ensino à distância. As escolas de Greenwich e de Islington fechavam as portas.

Nessa noite, o secretário de Estado da Educação, Gavin Williamson, desautorizou os conselhos locais. As portas das escolas mantinham-se abertas: “Simplesmente não é do interesse das crianças que as escolas em Greenwich, Islington ou em qualquer outro lugar fechem as suas portas”, argumentou.

No dia seguinte, 71% dos diretores de 461 escolas diziam à Sky News estarem prontos para contrariar a decisão do Executivo de Boris Johnson se isso fosse no melhor interesse dos seus alunos.

A culpa pode ser do mau tempo. Será?

Se é verdade que há mais casos de jovens contagiados durante a segunda vaga da pandemia, também é verdade que durante a primeira estiveram mais protegidos. Por toda a Europa, Reino Unido incluído, as escolas encerraram, passando do ensino presencial para a aprendizagem à distância. À medida que se foi conhecendo melhor o agente infeccioso da Covid-19 foi possível perceber que a propagação entre crianças era menor, que a maioria era assintomática e que sofriam menos de doença grave. Já entre os adolescentes, o comportamento do vírus era mais semelhante ao dos adultos.

As escolas reabriram no início do ano letivo e nenhum estudo surgiu com evidências científicas de que o regresso às aulas tivesse aumentado a propagação do coronavírus na comunidade. Poderá a nova variante — chamada de B.1.1.7  ou VUI 202012/01 (variante sob investigação) — trazer notícias diferentes?

Especulação, insiste o infectologista Francisco Antunes, enumerando os fatores que podem estar na origem do aumento dos diagnósticos positivos. E começa pelo conhecido mau tempo inglês.

 

“Como são as condições atmosféricas no Reino Unido nesta altura do ano? Há baixa de temperatura, aumento de humidade e isso pode condicionar a forma como o vírus se propaga”, defende o professor catedrático jubilado. Por outro lado, nesta altura do ano, as famílias passam naturalmente mais tempo em casa, com janelas fechadas por causa do frio, o que pode fazer aumentar a transmissão de pais para filhos.

É ainda preciso olhar para outro fator: o médico infectologista lembra que um pouco por toda a Europa se aliviaram as medidas de restrição e, depois do aumento de casos, voltaram a ser mais exigentes. “O distanciamento, o uso de máscara, o confinamento é igual ao de há dois meses? Tudo isso tem de ser visto antes de ser excluído e antes de podermos dizer que esta variante se propaga mais depressa.”

No final de outono, início de inverno, há também um maior número de vírus a circular, exatamente aqueles que causam com mais frequência doenças respiratórias nas crianças. “Estas infeções são muito semelhantes e temos de ter a certeza que, de facto, o aumento de casos tem a ver com a nova estirpe.” Para se ter certezas absolutas, Francisco Antunes defende que seriam necessários estudos comparativos entre as crianças que foram infetadas com esta variante e com outras anteriores. Só assim se pode chegar a conclusões.

“Houve uma variante na Europa, que chegou aos Estados Unidos, que se admitia ter maior transmissibilidade. Mas desapareceu e não havia dados sólidos para se manter a afirmação”, recorda o infectologista.

Ainda assim, e sobre a decisão de muitos países fecharem as fronteiras com o Reino Unido, diz que mais vale “tomar medidas por excesso”.

E já estará a nova variante em Portugal? “Com certeza. É muito possível que esteja. Se houvesse restrições nas fronteiras seria mais difícil, mas enquanto as pessoas viajarem o vírus continua. Ele propaga-se porque há mobilidade. Se cada um de nós ficasse parado, no seu canto, o vírus desapareceria.”

 

Escócia adia regressa às aulas, Boris Johnson evita fazê-lo

Tal como Francisco Antunes, muitas vozes na comunidade científica lembram que, por exemplo, uma variante pode parecer mais contagiosa se surgir numa zona com maior densidade populacional ou se beneficiar de eventos superdisseminadores. “O número de reservatórios [pessoas infetadas] é maior numa cidade e há mais mobilidade”, lembra o médico português que, apesar da cautela, não descarta a hipótese de que se venham a encontrar provas de que esta variante se propaga, de facto, mais facilmente. Além disso, lembra, o normal é que as variantes mais infecciosas se tornem dominantes.

Na Universidade de Oxford, Peter Horby, especialista em doenças infecciosas, mudou o seu grau de confiança de moderado para alto quando aponta para a transmissibilidade do vírus. “Agora temos grande confiança de que esta variante tem uma vantagem de transmissão sobre outras variantes de vírus que estão atualmente no Reino Unido”, disse na segunda-feira.

Já Julian Hiscox, professor de infecciologia na Universidade de Liverpool, disse à BBC não haver nenhuma evidência “no momento” de que a nova variante seja capaz de infetar crianças de forma mais eficiente. No NERVTAG, Wendy Barclay, especialista em virologia do Imperial College, alinha com Neil Ferguson, o Dr. Lockdown. As mutações na nova variante estão relacionadas com a forma como se liga às células humanas, o que pode significar “que as crianças são, talvez, tão suscetíveis a este vírus quanto os adultos”, sendo de esperar ver mais jovens infetados.

Perante a incerteza sobre a nova variante — a OMS confirmou que já foram detetados nove casos na Dinamarca, um nos Países Baixos, um na Itália e um na Austrália — a pressão sobre o Governo de Boris Johnson para fechar escolas aumentou. E há mais um dado: na África do Sul, uma variante com uma mutação idêntica à encontrada no Reino Unido (N501Y) também parece passar de hospedeiro em hospedeiro de forma mais rápida.

Assim, quem não quer esperar para ver os resultados in loco são os sindicatos de professores britânicos e o National Education Union (NEU) escreveu uma carta a Boris Johnson pedindo-lhe que prolongue o encerramento das escolas para lá das férias de Natal. Na Escócia, a decisão já foi tomada e para a maioria dos alunos as férias serão prolongadas uma semana até 11 de janeiro, seguindo em ensino à distância até 15 de janeiro. Na Irlanda será reposto o confinamento geral de 24 de dezembro até 12 de janeiro, não sendo ainda certo se o regresso às escolas é adiado ou não.

Em Londres, mesmo com a pressão dos sindicatos a juntar-se à dos diretores, que também pediram o adiamento do regresso ao ensino presencial, Boris Johnson não dá sinais de mudar de opinião, mas o tom perdeu a veemência de outros dias: “Queremos, se for possível, ter as escolas de volta no início de janeiro”, defendeu. Mas o senso comum, sublinhou o primeiro-ministro, diz-nos que “temos de seguir o caminho da pandemia”.

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