Início Notícias “Desde que as creches fecharam, as crianças quase não tiveram doenças”

“Desde que as creches fecharam, as crianças quase não tiveram doenças”

1607
0

Num mundo perfeito as creches continuavam fechadas mais algum tempo e os miúdos mantinham-se em casa, livres de Covid-19 e de outra doenças que quase desapareceram com a pandemia, defende Graça Gonçalves. Em 36 anos de profissão, a pediatra não se lembra de um período com tão poucas tosses, ranhos, otites e viroses. “Desde que as creches fecharam, os miúdos quase não tiveram nada, foi uma benção. No início isto foi muito bem gerido, porque as medidas aplicadas foram medidas de saúde e não políticas. Agora acho que estamos a entrar em medidas um bocadinho economicistas. Por isso é que os pais têm que ir trabalhar e os miúdos vão para o infantário.”

Com o encerramento das creches, os miúdos adoeceram menos?
Nunca passei por um período tão perfeito em termos de doenças. As crianças praticamente não adoeceram. Tive, em média, uma criança doente por semana, antes da Covid eram várias por dia. Não quer dizer que não haja uma que não apanhe uma otite, ou outra coisa, mas não transmitem como transmitiam antes. Normalmente percebemos logo quais são os vírus que andam por aí, porque ouvimos sempre as mesmas histórias. Desde que as creches fecharam, os miúdos quase não tiveram nada, foi uma benção. As bronquiolites, as otites, os ranhos perenes, tudo isso praticamente desapareceu. Quando os miúdos entram na escola o aviso que eu faço aos pais é: atenção que ele vai começar a ficar ranhoso e, mais tosse menos tosse, mais febre menos febre, o ranho vai estar lá sempre. Vão pensar que é uma doença crónica, mas não é, porque na maioria das vezes estamos a falar de crianças saudáveis.

E isto acontece em todas as idades?
Quando vão para a escola é em todas as idades, mas se só entrarem aos três anos as coisas passam por eles de forma mais suave. Quando se entra com cinco, seis meses, os problemas ganham outra proporção. Depois, se são amamentados, no geral aguentam-se melhor, se têm problemas de base alérgica, corre pior. O primeiro ano é sempre o mais complicado, porque dois dias depois de terem febre ficam doentes outra vez. Isto perturba muito as noites, o bem estar da criança e obriga a fazer muito mais medicações do que seriam necessárias. Só costumo ter acalmia em julho, agosto, mas nos últimos anos já nem julho e agosto eram fantásticos.

As crianças também passaram a estar menos medicadas com esta pandemia?
Muitos miúdos têm que fazer medicação crónica para bronquiolites, por exemplo, usam inaladores brônquicos diariamente e em alguns casos os pais perceberam que podiam parar. Há uns anos havia uma teoria que defendia que estas infecções eram importantes para diminuir as incidências de alergias, que os miúdos deviam ir para os infantários e ter estes problemas todos para ficarem imunes, mas isso não tem sido validado. Não faz nenhum sentido pedir-se a uma criança que fique doente. É tão desconfortável… Sempre com aqueles narizes obstruídos, sem conseguir respirar bem de noite, de vez em quando lá vem uma dor grande de uma otite. Como é que isso é bom?

Desde que a Covid-19 apareceu recebe menos telefonemas e mensagens?
Recebo muitos na mesma, mas sobretudo com perguntas sobre a Covid. Há muitos pais preocupados com a reabertura das creches. Sendo que a maior parte dos que sigo está a fazer arranjos para tentar não pôr os miúdos agora. O que mais me preocupa é o final do ano, porque a partir de setembro, de uma forma ou de outra, vão acabar por ir quase todos. Agora haverá muitas turmas reduzidas, mas a maior parte das crianças em setembro vai voltar e aí volta toda a bicharada do outono, inverno e mais este vírus.

As doenças virais são as mais comuns nas crianças?
Mais de 90% dos problemas até aos 3 anos de vida são virais. Os miúdos acabam por ultrapassar isto com a idade, mas dos três anos para a frente o rácio de crianças por educador nas creches é ainda maior. A culpa não é das educadoras, que não podem fazer melhor. Talvez pudessem ir mais para a rua, mas também há pais que proíbem.

Proíbem como?
Há duas correntes: os pais que acham que estar na rua, andar ao sol, à chuva e saltar nas poças, é bom. E os pais que têm medo que os miúdos vão para a rua e se constipem, que acham que vão apanhar constipações por andarem descalços, por exemplo. Com a vontade que temos de os proteger, não os deixamos usufruir do corpo. E nos infantários, à conta disso, fecham-se janelas, põem-se ares condicionados e transformam-se estes espaços num viveiro maravilhoso para a bicharada.

Portanto, na sua opinião, quem conseguir deve manter os filhos em casa, em vez de os pôr já na creche ou no jardim de infância?
Para os miúdos que sigo estes meses foram o paraíso na terra. Num mundo ideal, se houver hipótese, e muita gente não tem mesmo hipótese, deixava-os em casa. Sobretudo até aos três anos, em que, com raras exceções, os miúdos não precisam de ir desenvolver-se para um infantário. O que eles precisam é de uma relação de um para um. Só recomendo creche antes dos três anos quando existem falhas ao nível da socialização ou da fala, por exemplo.

Acha que os casos vão aumentar?
As pessoas agora estão no geral bastante mais tranquilas, porque estamos numa fase boa, mas o vírus está aí na mesma e vai continuar a espalhar-se. Quando se abre as creches tem que se perceber que o número de infectados vai aumentar. É um risco que tem que de ser assumido. Os miúdos acabarão por se chegar uns aos outros, vão ter proximidade e vão querer proximidade, porque isso faz parte deles. Nas creches que têm rua, vão para a rua e é muito melhor, mas as creches de prédio, e não são uma nem duas, não há tanta margem para conseguir fazer isto. E naquelas escolas que levarem as regras e o distanciamento muito a peito, as crianças vão ficar muito infelizes.

Diz que os miúdos têm estado, no geral, bem. Mesmo quando os pais estão ambos em teletrabalho, por exemplo?
Mesmo com os pais a trabalhar, os miúdos estão felizes, e estar com os filhos em teletrabalho também faz sentido para uma grande percentagem de pais. Assistir aqueles desenvolvimentos maravilhosos, não é chegar a casa e, ‘ah, não percebi que ele deu os primeiros passos, não ouvi as primeiras palavras.’ Muitos, se pudessem, mantinham-se assim. Onde é que alguma vez na vida esta possibilidade passou pela cabeça de muita gente? Era uma altura para repensar o teletrabalho, que devia ser possível até aos três anos, pelo menos para um dos pais. Tenho uma mãe que ficou desempregada, saiu da empresa onde trabalhava há muitos anos, e até está contente. Disse-me: ‘olhe, tenho dois filhos, agora vou ficar com eles, e depois logo se vê’. Claro que também há pais que ficaram no desemprego e com problemas muito graves, e até pessoas diferenciadas, dentistas, fisioterapeutas, profissionais que trabalhavam por conta própria.

Passar mais tempo com os pais notou-se no desenvolvimento dos miúdos?
Sempre tive a percepção de que, durante as férias, os miúdos faziam coisas maravilhosas, começavam a falar mais, a andar, e eu salientava logo: está consigo. E não é preciso muito, é só ouvi-los, interagir com eles, fazer as atividades do dia a dia em conjunto, deixá-los mexer nas coisas da cozinha, da sala – eles adoram – tudo isto faz parte do desenvolvimento. Até confinados os miúdos conseguiram dar saltos de desenvolvimento maravilhosos. Muitos também consumiram mais televisão do que nunca.

Com os dois pais a trabalhar é difícil fugir à televisão…
Mas também não é por estar a ver um bocadinho mais de televisão… Isso de alguma forma tem que ser, desde que não se faça da televisão a ama da criança. É dizer: eu agora tenho que fazer uma coisa que tu não podes fazer comigo, por isso ficas aqui a ver coisas que eu escolhi.

Houve casos em que os miúdos voltaram a usar fralda, por exemplo, ou chucha. Isso é problemático?
Não, deixam as fraldas quando deixarem. Quando não tínhamos fraldas também havia uma altura em que se deixava de apanhar chichis ou cocós. Voltar a usar chucha ou fralda não é preocupante. Claro que eu não gosto que usem chucha, mas nesta altura temos que perceber que há coisas mais importantes que outras.

Os miúdos estão a lidar com educadores de máscara. Isto faz sentido?
Essas são as máscaras visíveis, mas aquilo que nos preocupa mais são as máscaras invisíveis. Não imagino uma alma que vá entrar para a creche aos seis meses, que vá ser deixado à entrada ao pé de pessoas com máscaras que nunca viu na vida. Primeiro vai ter que ir ao colo, porque não sabe andar. Ou vai de carrinho? Não pode. Digo sempre às mães para fazerem uma entrada progressiva nos infantários, o ideal é que durante duas, três semanas a criança vá com a mãe e fique lá com ela, depois é que há-de ir para o colo de alguém. Para os miúdos que vão entrar de novo é chocante. Não nos recordamos da maior parte das coisas até aos três anos, mas elas estão lá, as marcas ficam connosco. Se às vezes quando entram no infantário passam a ter umas noites que é um inferno, porque andam sempre em sobressalto, quanto mais agora, nestas circunstâncias.

Como é que os miúdos reagem quando a vêem de máscara?
Agora a maior parte dos pais já vem de máscara, mas pelo menos até terem um ano de idade estão sempre a tentar tirar a máscara aos pais. A maioria dos que me vêem a mim e têm quatro, seis meses, não chora. Quando rimos, rimos com a cara toda e alguns conseguem, apesar da máscara, rir de volta. É extraordinário, como é que estás a perceber que me estou a rir para ti? Mas os que já verbalizam não gostam.

E a partir dos três anos, ficar em casa compromete o desenvolvimento dos miúdos?
Uns meses em casa não lhes faz mal nenhum. Tenho falado com alguns pais de crianças mais velhas e os miúdos têm saudades dos amigos, da professora, gostam de ir para a escola e de socializar, assim como têm saudades de falar com os avós, com os primos, mas não é por uns meses que haveria diferença. Se eu pudesse mandar nisto e deixar ver primeiro como é que as coisas aconteciam, estes pais e estas crianças ficavam em casa.

Porque ainda há muitas dúvidas sobre o comportamento deste vírus nas crianças?
Houve uma altura em que nos parecia que os miúdos estavam a ser mais ou menos poupados. Claro que o número de infectados é imenso, portanto até o que é raro acontece com alguma frequência. E estes casos, nomeadamente o síndrome de kawasaki, acabam por acontecer precisamente porque temos um número muito elevado de infectados. Mas acontecem, e nós não sabíamos disto há um mês atrás.

O que acha das imagens de miúdos separados em quadrados no chão, que vimos em França?
Uma vez até podem achar piada aquilo, mas sempre? Tu estás aí e eu não posso brincar contigo? O toque faz parte. Estamos a correr riscos psicológicos muito graves. É o mesmo que afastar uma mãe de uma criança quando nasce. Para não correr riscos só não abrindo, ou pelo menos permitindo que um dos progenitores fique em casa com as crianças. O futuro tem que ser acautelado e o futuro são eles.

Fonte: Sábado