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Covid-19. Abrir ou não abrir as escolas, eis a questão: o exemplo de quatro países, da abertura espanhola ao peso dos sindicatos nos EUA

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A discussão sobre a reabertura das escolas está definitivamente lançada, sobretudo após a carta aberta ao primeiro-ministro e ao Presidente da República publicada esta segunda-feira, e assinada por uma centena de personalidades, a defender a urgência do regresso ao ensino presencial.

Entre professores, educadores e psicólogos, aparecem também vários epidemiologistas e outros profissionais ligados ao estudo desta pandemia, bastas vezes ouvidos pelo Expresso, como são os casos de Henrique Barros, Elisabete Ramos, Pedro Simas ou Teresa Leão.

A decisão de reabrir, de quando reabrir e de como reabrir será sempre mais política do que apenas científica, como lembravam há dias outros dois especialistas ao Expresso, e obriga a um equilíbrio sempre difícil de uma série de variáveis. Mesmo que o caso português não seja transponível para nenhum outro país, o Expresso olhou para quatro exemplos, três europeus e o caso norte-americano, para mostrar que não há regras rígidas ou atores inquestionáveis.

EUA: SINDICATOS UNIDOS DA AMÉRICA

Uma das bandeiras de Joe Biden após tomar posse como Presidente dos EUA tornou-se, na verdade, uma espécie de batalha. Reabrir as escolas o “mais depressa e com a maior segurança possível” não tem sido tarefa fácil porque a oposição vem de dentro: mais precisamente, dos sindicatos de professores.

No anúncio do objetivo da reabertura, Biden apresentou as linhas gerais desenhadas pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla inglesa), que incluíam a manutenção da distância física nas salas de aula e nos autocarros escolares, o uso de máscara e o ato permanente da desinfeção das mãos. Mas nem isso chegou.

Vários sindicatos pelo país, sobretudo onde eles são mais fortes, conseguiram barrar o regresso de uma série de estabelecimentos de ensino, como aconteceu, por exemplo, na Califórnia. O governador Gavin Newsom, do Partido Democrata, é a favor da reabertura, e tem usado o exemplo das mais de mil escolas abertas no estado, dos níveis mais baixos de ensino, onde a transmissão tem sido mínima ou inexistente.

A Associação de Professores da Califórnia responde que “as escolas das cidades deixaram bem claro que não têm recursos para garantir que a ventilação adequada esteja instalada, os testes [possam ser feitos], e as várias camadas das outras medidas de segurança”. O sindicato exige que se inicie “a vacinação daqueles que voltam a ensinar e a aprender presencialmente”. Até lá, nada feito.

Uma reportagem do jornal USA Today dá conta da “frustração” dos pais, na voz de um deles, Andam Grandi, que tem dois filhos na escola primária em São Francisco, uma das cidades onde a reabertura marcada para 25 de janeiro não aconteceu. “Claro, todos nós sentimos pelos professores e apreciamos o trabalho que estão a fazer, mas parece que o sindicato está a cuidar de si próprio, que é o seu trabalho, mas às custas de muitas crianças e famílias.”

O governador prometeu guardar 10% das vacinas para professores e funcionários escolares, mas não quer que sejam precisas duas doses da vacina para se poder regressar à escola.

Na cidade de Nova Iorque, onde os testes positivos ainda acontecem à razão de 51 por cada 100 mil habitantes, as escolas primárias estão abertas, mas com horários desfasados, e as secundárias preparam-se para reabrir. O mesmo para outras grandes cidades, como Miami e Atlanta, onde o 2.º e 3.º ciclos estão também de regresso à escola, ainda que haja opções de ensino à distância.

Certo é que São Francisco, uma das cidades que mantém as escolas fechadas, tem uma taxa de infeção mais baixa do que todas as cidades acima apresentadas, e do que a maioria dos EUA — 9 casos positivos por dia a cada 100 mil habitantes. E enquanto uns o veem como um erro e a prova de que a reabertura já é possível, outros garantem que é precisamente por as escolas estarem fechadas que a pandemia está tão controlada.

ESPANHA: UMA ESPÉCIE DE ABERTURA TOTAL

Tal como os norte-americanos, os sindicatos espanhóis têm feito alguma pressão pelo fecho das escolas, nomeadamente em regiões onde a covid-19 está mais disseminada. A UGT espanhola (também União Geral de Trabalhadores) afirmou que, embora tendo um compromisso com o ensino presencial, em “momentos críticos” como o atual “deve prevalecer a saúde e a segurança dos alunos e professores”, o que exige, diz a central, uma análise escola a escola.

Por enquanto, a regra é manter todos os estabelecimentos abertos, com exceções para os casos em que acontecem surtos. Em Madrid, no início do mês, isso significava ter mais de 25 mil alunos em casa, mais de mil salas de aula fechadas, o que corresponde a menos de 2% do total na região. Este sábado foram anunciadas novas medidas nas comunidades autónomas do país, a maioria mais restritivas, mas nenhuma incluiu um fecho generalizado de escolas.

Aliás, a proporção de encerramentos em Madrid não difere muito da do resto do país, o que levou a ministra da Educação espanhola, Isabel Celaá, a afirmar que “não há preocupação” quanto à incidência da covid-19 nas escolas, visto que apenas 1,37% dos espaços tinham sido obrigados a fechar, um número inferior ao que tinha acontecido na segunda vaga da pandemia, no final de outubro do ano passado.

Os peritos espanhóis concordaram que a importância de manter o ensino presencial se sobrepunha aos eventuais riscos, até porque, nas palavras da ministra, as escolas continuam “a ser lugares seguros, mais seguros do que qualquer outro lugar onde os alunos possam estar”. Celaá, citada pelo diário El Mundo, foi mais longe: “cada dia que os estabelecimentos ficam abertos é uma conquista social, porque o [regime] presencial é insubstituível”.

REINO UNIDO: MODERADA CERTEZA DE UM “MODERADO IMPACTO”

À medida que se acumulam evidências de que as crianças mais novas não propagam o vírus com a mesma intensidade, nem sofrem tanto as consequências da covid-19, levantam-se as vozes para que, pelo menos essas, possam ir à escola no Reino Unido. Assim é na Escócia e no País de Gales, em que a reabertura tem sido feita gradualmente. Mas em Inglaterra o regresso ao ensino presencial está marcado apenas para 8 de março, todo de uma vez. E não sem críticas.

O comité científico responsável pela avaliação da pandemia e aconselhamento do Governo de Boris Johnson — Scientific Advisory Group for Emergencies, ou Sage — diz que tem uma “confiança moderada” de que a transmissão do vírus nas escolas tem “um impacto moderado” no evoluir da pandemia.

“É difícil quantificar o tamanho desse efeito e continua a ser difícil quantificar o nível de transmissão que ocorre especificamente nas escolas em comparação com outros ambientes”, nota o comité, citado pela BBC.

Tal como alguns especialistas têm vindo a referir em Portugal, a primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, lembra que o risco de disseminação do vírus em relação às escolas está mais nos contactos que se geram à volta do que no interior das salas e pavilhões. Os encontros sociais à porta das escolas ou o regresso dos pais ao trabalho presencial são, diz Sturgeon, os principais riscos de um eventual disparo de novos casos após o regresso ao ensino tradicional.

ALEMANHA: AULAS ANEXADAS POR E-MAIL

Foi da Alemanha que chegaram os primeiros profissionais de saúde estrangeiros a juntar-se ao esforço de combate à pandemia em Portugal, o que não significa que o país de origem não se debata com uma gravíssima segunda onda de infeções. Há pouco menos de um ano, a gestão alemã era elogiada, e o país seguia como um dos menos afetados da Europa, nomeadamente ao nível dos serviços de saúde. Uma subida de casos no início do ano e um processo de vacinação, no mínimo, vagaroso deixaram a Alemanha no polo oposto, com um lockdown nacional que vem de novembro de 2020 e que encerrou a maior parte das escolas na pausa natalícia, para não mais as abrir.

No caso do ensino, a decisão ficou então nas mãos dos governos estaduais. Mesmo aumentando as restrições para a população, mais de metade dos estados federados da Alemanha decidiram abrir escolas primárias e jardins de infância a partir desta semana. Mas o debate continua e é nacional.

De um lado está quem defende que o fim do ensino online retiraria o fardo do apoio escolar aos pais, que no caso alemão é maior porque as leis de proteção de dados do país os impedem de usar plataformas digitais com base nos EUA. O problema, garantem os educadores, é que as soluções locais não são melhores.

Como nota o New York Times, em muitas escolas públicas da Alemanha a educação hoje consiste em anexar aulas escritas pelos professores, que são enviadas por e-mail para os alunos, que devem depois evoluir por contra própria. Todos saem a perder, mas é fácil imaginar que lá, como cá, os alunos com carências familiares são os primeiros a ficar para trás. Um estudo do Centro Médico da Universidade de Hamburgo-Eppendorf adicionou a essa desigualdade uma outra camada, também conhecida em Portugal, ao concluir que uma em cada três crianças atravessa problemas psicológicos decorrentes da quarentena.

Do outro lado estão alguns especialistas a lembrar que a decisão tem vários pesos. “Infelizmente, escolas e jardins de infância são lugares onde o vírus é transmitido”, afirmou o chefe da organização de medicina intensiva do país, Gernot Marx, ao jornal Rheinische Post. “As crianças levam [o vírus] para as famílias e a maioria dos professores não foi vacinada. Como médico intensivista, digo: isso [reabrir] é irresponsável.”

O único consenso parece ser o de que as escolas têm de reabrir gradualmente. Por enquanto, mesmo após uma descida de casos, é isso que se vê: alguns estados a começar pelos mais novos, mantendo para já em suspenso o regresso dos mais velhos. Segundo as contas da Unesco, em fevereiro houve mais de 15 milhões de estudantes alemães em casa.

Expresso

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