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Contagiar a escola de papel com a escola digital

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pandemia covid-19 implicou o encerramento das creches, escolas e universidades de todo o país, por mais de que uma vez, com a suspensão de todas as atividades letivas presenciais, e o confinamento dos alunos e dos professores em suas casas. Por isso, os anos letivos 2019/2020 e 2020/2021 vão ficar para a história da educação. Primeiro, pelas razões negativas associadas às consequências sociais, emocionais, psicológicas e físicas da suspensão da formação presencial. Mas também porque tornaram visíveis e permitiram tomar consciência de necessidades e possibilidades do sistema educativo para garantir a igualdade de oportunidades educativas, o envolvimento dos pais e o uso de um processo de ensino-aprendizagem mais ligado ao contexto de vida atual das crianças e jovens.

Com os confinamentos, compreendemos que a escola não tem verdadeiramente conseguido assegurar a democratização da sociedade, porque o encerramento das escolas mostrou e intensificou as desigualdades sociais vigentes. Quase dois milhões de alunos deixaram de ir à escola. Essa ausência que para alguns representou uma diminuição das condições educacionais, para uma larga quantidade de crianças e jovens de famílias mais pobres (bastava que fosse uma) representou a ausência dessas condições, tornando-os por isso ainda mais vulneráveis. Mais do que na escola presencial, nesta nova escola digital nem todos têm oportunidades educativas idênticas.

A 16 de Março de 2020, com a substituição das aulas presenciais pelo ensino à distância e na sequência dos alertas para a exclusão que esta solução estava a promover junto de alunos sem Internet ou acesso a computador em casa que representavam cerca de 5% dos estudantes até aos 15 anos, o Governo sugeriu às escolas que recorressem aos correios, para entregar fichas e trabalhos de casa aos alunos nessas condições, o que desta forma, e ao contrário do que pode parecer, contribuiu para acentuar a sua exclusão.

Além disso, entre os cerca de dois milhões de alunos do sistema educativo português, mais de 80 mil crianças e jovens identificados como tendo dificuldades de aprendizagem, muitos certamente oriundos de famílias carenciadas, foram duplamente discriminadas. Estes alunos que antes já apresentavam problemas de autonomia, de motivação e de insucesso no processo de aprendizagem escolar viram então aumentados os obstáculos no acesso à sua educação, porque no ensino à distância a monitorização e apoio das suas aprendizagens se verificou ser muito mais difícil de concretizar.

Mas nem tudo foi mau. E o confinamento trouxe necessidades de adaptação de todos que foram positivas. Trouxe uma consciência social mais clara sobre a privação social que estava dissimulada e a necessidade de a minimizar. Um comunicado do executivo refere que “na primeira semana de ensino não presencial, após a pausa letiva decretada pelo Governo, foram recebidos nas mais de 700 escolas de acolhimento uma média diária de 12.500 alunos. A maioria dos alunos são filhos ou outros dependentes de profissionais de serviços essenciais (cerca de 7 mil), que frequentam escolas públicas ou privadas, seguindo-se o grupo de alunos para quem a escola considerou ineficaz a aplicação do regime não presencial (cerca de 3300) e ainda alunos abrangidos por apoios terapêuticos (cerca de 2300) (…) e que as escolas de acolhimento serviram, em média, 37 mil refeições diárias, tendo ultrapassado as 40 mil na sexta-feira (12 de fevereiro 2021)”.

Trouxe a necessidade de alteração das estratégias de ensino-aprendizagem dos professores, o envolvimento dos pais nesse processo e o reconhecimento do valor do digital na vida dos alunos. Antes do confinamento, apesar da evidência da presença do digital no quotidiano, e sobretudo na sua aprendizagem e no desenvolvimento dos alunos, manteve-se a resistência ao uso da tecnologia e ao reconhecimento das suas implicações no processo ensino-aprendizagem, muitas vezes, proibindo e penalizando o seu uso.

A epidemia forçou uma mudança brusca de uma “escola de papel” (manuais escolares) para uma “escola digital”. Tínhamos escolas com má Internet, sem Internet ou Internet bloqueada aos alunos, uma escola com pouco trabalho de grupo e com alguns professores com baixa literacia digital. Passámos da escola na sala de aula para escola virtual no quarto, na sala, na cozinha.

Em muitas casas, a sala de aula passou a estar num ecrã de telemóvel, tablet, televisão, computador. Crianças, jovens, professores e pais tiveram de se adaptar à pressa. Uma mudança que, apesar da sua imprevisibilidade e dificuldade, trouxe aos pais oportunidade de ver, pela primeira vez, todos os professores dos filhos e não apenas o diretor de turma, bem como de conhecer e compreender as suas estratégias e os conteúdos do ensino-aprendizagem, permitindo-lhes ter uma imagem mais clara em relação às suas capacidades e dificuldades dos filhos. Os pais tiveram ainda a oportunidade de conhecer todos os colegas de sala de aula dos filhos. Esta mudança deu aos pais uma outra perspetiva sobre o funcionamento da escola, o que poderá ser positivo.

No fundo, ligar a escola à realidade dos contextos dos seus alunos, porque a escola, para além de um espaço de aprendizagem académica, é um lugar de desenvolvimento social e afetivo.

Público

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