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Como explicar a queda livre nos resultados dos alunos portugueses a Matemática e Leitura?

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João Marôco, especialista em estatísticas de educação, analisa os fatores que poderão responder à questão enunciada. O debate está aberto, na sequência da divulgação dos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA). Esta prova veio revelar quebras no desempenho dos alunos portugueses, manifestando um retrocesso de muitos anos.

Como se explica o declínio acentuado nos resultados dos alunos portugueses a Matemática e Leitura?

Ao contrário do que acontecia com todos os outros países da OCDE, que estavam a decrescer nos resultados do PISA em todas as áreas, Portugal registava, até 2015, uma tendência crescente. Ora, o que é que se alterou no sistema educativo nacional entre 2015 e 2022? Houve uma alteração de políticas educativas que, entre outras coisas, pôs fim aos exames do 4º e do 6º anos. Vários estudos internacionais têm concluído que uma das medidas educativas que tem mais efeitos de curto prazo nos resultados é a introdução ou, pela negativa, a remoção de avaliações com consequências para os alunos e para as escolas.

Porquê?

Se na segunda-feira eu disser aos meus alunos que na semana seguinte vai haver teste eles ficam, obviamente, mais atentos e mais envolvidos com as aulas e com a exposição da matéria do que se eu lhes disser que vão ter uma prova de aferição que não conta para nota. A mesma coisa acontece se os alunos souberem que no final do ano letivo vão ter um exame a que vão ter que passar para poderem transitar de ano ou se souberem que não há nenhuma avaliação final. Portanto, há de facto alterações de política educativa que têm impacto de curto prazo no desempenho dos alunos. E os países onde as alterações de política têm mais impacto são aqueles onde os currículos não estão solidificados, que é precisamente o nosso caso. Em Portugal, sempre que há alteração do ciclo político há uma alteração dos currículos. E não há mecanismos de prestação de contas com consequências e que produzam resultados válidos e fiáveis. Ou seja, o que Portugal fez foi contrariar tudo o que a literatura nos diz sobre o que são políticas educativas eficazes para melhorar o desempenho dos alunos. Podem dizer que agora o nosso currículo valoriza mais a cidadania e outras competências fofinhas, as chamadas soft skills. Mas os resultados estão à vista.

 

A verdade é que este PISA mostra um declínio generalizado dos resultados, que acontece de forma transversal em países muito diferentes entre si, do ponto de vista socioeconómico, político ou cultural, e que têm também políticas educativas heterogéneas. O que há de comum a todos estes países?

O que acontece é que na grande maioria dos países da OCDE houve uma tendência para seguir um determinado tipo de política educativa que teve a sua origem na década de 1970 e de 1980 e que assenta na ideia de um suposto ensino centrado no aluno. É um tipo de sistema de ensino não disciplinar, em que tudo é transversal, e em que não há manuais escolares, programas e critérios de avaliação bem definidos, uma vez que fica ao critério do professor e do aluno. Neste tipo de política educativa não há retenções nem exames finais com peso na avaliação. É isso que acontece, por exemplo, na Alemanha, na Finlândia ou em França. É uma espécie de ideologia educativa romântica que fez com que deixasse de existir prestação de contas, currículos bem estruturados e manuais bem construídos. O que Portugal fez foi adotar esta política da maior parte dos países pertencentes à OCDE e o resultado é o que estamos a ver.

 

A pandemia, e o consequente encerramento das escolas, também teve certamente impacto no declínio dos resultados. É possível medir esse impacto?

Estes resultados não são atribuíveis só à covid porque o declínio já se observava antes. O que a OCDE vem dizer é: “senhores ministros da Educação, não se desculpem com a pandemia porque são as vossas políticas que têm causado um retrocesso dos conhecimentos e das competências dos alunos dos vossos países”. Há, de facto, uma componente da pandemia que conseguimos de alguma forma estimar. Em Portugal, as escolas estiveram encerradas, em média, 49 dias por ano e o que se verifica é que países que, em média, tiveram o mesmo número de dias de encerramento, como a Irlanda, a Finlândia e a Hungria, caíram metade dos pontos que Portugal caiu. Ou seja, no caso português, o que estes dados demonstram é que a pandemia veio agravar ainda mais o efeito da política educativa que foi adotada em 2016.

Fonte: Expresso