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COMEÇOU UMA NOVA OFENSIVA…- Carlos Santos

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COMEÇOU UMA NOVA OFENSIVA…

O pouco tempo livre que me sobra, queria aproveitá-lo para pensar, ou até para não pensar em nada e, simplesmente descansar. Mas é uma utopia pensar poder ter paz em tempo de guerra.

Consumido mais um longo dia de trabalho na escola e, chegado a casa, sou alvejado por um novo ataque do desprezível inimigo público dos professores. Palavras do ecrã falante que investem ferozmente pela sala, conseguem bombardear os meus ouvidos, desalojando-me do santuário de tranquilidade.

Encontrando-me novamente de regresso ao lar, ao escutar tais palavras, sem dar por mim, lá estava eu novamente em desassossego no terraço das minhas meditações a olhar para o mundo; e que mundo este, o pantanoso poço sem fundo para onde atiraram os professores portugueses.

 

Revejo como tem sido nobre e respeitosa a nossa luta, mas como foi vil e prepotente a resposta do adversário.

Contra a vontade dos professores, o governo encerrou unilateralmente as negociações sobre o regime de recrutamento de docentes, que irá criar ainda maior instabilidade nas suas vidas.

Depois de devolver a outras carreiras da função pública, a totalidade ou grande parte o tempo de serviço congelado, aos professores, a quem apenas restituiu meros 30%, anuncia que a porta das negociações está fechada, tratando-os como o lixo da função pública.

Agora, para resolver a carência de professores, legisla para baixar a fasquia na formação de docentes, diminuindo a qualidade do ensino, e negoceia com outros países a possibilidade de importar mão-de-obra sem qualificação de qualidade para lecionar nas nossas escolas (e sobre isso, os pais nada dizem, desde que ali haja babysitters em número suficiente).

 

Chegara hoje a casa, assim como o fizera ontem, no mês passado, no ano anterior e nos decénios já distantes na minha memória; tudo sempre igual, nada mudou, só mesmo eu, mais desgastado pelo tempo. Faço-o, como tantos outros, continuando estupidamente a aceitar esta insegurança constante, como zíngaro sem eira nem beira à espera do dia de assentar definitivamente arraiais aqui onde é o meu lugar. «Esperança», essa palavra que aceitamos e nos torna estúpidos e fracos.

Porém, na sua infindável criatividade hostil, o nosso maior inimigo voltou a investir contra mim, contra nós, educadores da nação. As palavras de desprezo e ódio por nós, que ecoam do ecrã falante, sentenciam que o ministério propõe que professores sem experiência, ainda em formação, pudessem ocupar meios horários nas escolas. O absurdo de tudo isto, é que um professor se submete a percorrer o país, na expetativa de um dia vir a conseguir um horário próximo da sua residência, para estes diletantes colocarem estagiários a ocupar os horários que seriam, por direito, para quem espera por eles há décadas. Injusto, provocador e insultuoso para com todos aqueles que tanto têm sacrificado as suas vidas pessoais no desempenho da profissão.

 

Um governo que, em vez de resolver a situação com aquilo que é a solução óbvia – tornando a profissão mais atrativa, tratando com respeito os seus profissionais, criando melhores condições de trabalho e salários dignos –, pelo contrário, afirma publicamente estar com boa vontade negocial, mas opta por os atacar e os humilhar ainda mais.

Tudo isto demonstra inequívocas declarações de guerra aos professores anunciadas por um governo repugnante que nutre um ódio descomunal pela classe.

A nossa reivindicação por justiça é-lhe insuportável, preferindo encetar por uma nova ofensiva imoral e beligerante, demonstrando que assume abertamente que governa contra os professores.

 

Revoltado com tudo isto que se tornou impossível de aceitar pela classe que carrega o mais elevado nível de descontentamento em Portugal, da varanda dos meus pensamentos, grito: “Até quando iremos aguentar…?”

Carlos Santos