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“Começou como umas férias adiantadas, mas acabou por se tornar o mais invulgar da vida de todos nós”. O ano escolar visto por oito alunos

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SOFIA BRILHANTE, 6 ANOS (ÚLTIMO ANO DO PRÉ-ESCOLAR)

Neste ano não gostei de usar máscara e de não poder brincar com os amigos e dar abraços à família. Uma coisa de que também não gostei foi do confinamento, porque não houve escola. Eu gostava da escola.

Tenho tido medo do corona. Tenho medo de ir ao dentista por causa do corona, tenho medo de ir ao hospital por causa do corona, tenho medo de ir ao supermercado por causa do corona – e antes eu gostava tanto!

Há outra coisa de que também tenho medo: dos concertos que têm muita gente. Antes eu gostava tanto de ir aos concertos… Agora tenho medo, mas vou ao festival a que o meu pai disse que eu posso ir, que é o Rock In Rio. E também tenho medo dos programas de televisão onde há muita gente no público, como no “Quem quer ser milionário alta pressão”.

Quando for crescida vou lembrar-me destes dias de tristeza, porque por causa do coronavírus não posso dar abraços à família, tenho de usar máscara, todos os sítios estão fechados e tenho de pôr sempre álcool-gel quando toco em alguma coisa. É disso que eu não gosto!

Do que mais tenho saudades é da escola. Um dia lembrei-me de como gostava tanto de brincar na rede e no baloiço de rede do pátio, que dá para nos pendurarmos, como uma macaquinha. E por exemplo ficar de pernas para o ar, e só com as pernas a segurar nas redes, para não cairmos, e depois baloiçamos. Gostava tanto. Agora já não há. Mas vai haver! E também tenho saudades de quando a minha mãe me acordava de manhã em stress para não nos atrasarmos para irmos para a escola: era sinal de que eu ia ter aulas e brincar com os meus amigos.

Acho que do que gostei mais foi do dia em que o meu amigo veio almoçar a minha casa e só saiu às quatro e meia.

CLARA LIMA, 6 ANOS (1º ANO)

Este foi o meu primeiro ano na escola primária. Este ano aprendi a ler e a escrever. Estava tudo bem até aparecer o coronavírus e ter de ficar em casa em telescola. Eu gostei de ver a professora Marta e os meus amigos pelo computador, mas preferia estar na escola com eles. Agora só espero que nos meus anos, em setembro, este vírus já tenha acabado.

MARTIM ARREIGOSO, 11 ANOS, 5º ANO

Com o aparecimento desta pandemia tivemos um novo meio de comunicação, a escola à distância. Um dos aspetos positivos foi poder aprender mais sobre as plataformas digitais. Do que gostei menos foi de os professores mandarem muitos trabalhos, mais do que na escola presencial, e de estar muito tempo em frente ao ecrã!

PEDRO ROCHA, 12 ANOS, 6º ANO

O meu 3° período foi bastante diferente dos outros. Foi passado em casa, o que é bom e mau. Os pontos bons foram que posso ficar mais com a minha família.
Os pontos que não foram assim tão bons são que não podemos sair de casa. Eu passei o meu aniversário sem os meus outros familiares. Não me afetou muito, mas fiquei um bocado triste, todos eles me desejaram feliz aniversário, mas pronto.

SARA BASTOS, 13 ANOS (7º ANO)

Este ano letivo foi sem dúvida o mais estranho e diferente. Do que eu mais sinto falta é de estar com os meus amigos a conversar durante o intervalo. É mais difícil estar concentrada nas aulas virtuais, mas pelo menos temos mais apoio dos pais.

 

FRANCISCO FELNER, 13 ANOS, 8º ANO

No início, quando disseram que íamos todos para casa, fiquei supercontente. Na primeira semana foi engraçado, porque era uma coisa nova e podia passar o dia todo no computador. Mas rapidamente dei conta de que me faltavam os amigos.

O sistema de aulas assíncronas adotado pelos professores no último trimestre de aulas funcionou muito bem. O Google Classroom foi uma grande ajuda, porque tinha acesso a todas as informações, desde os trabalhos de casa até ao material para estudar. Para alunos mais distraídos, é muito útil. Era superintuitivo, todo o conteúdo do 3º período estava lá e nunca apresentou problemas. Todos os dias tínhamos aulas pelo Zoom, que é uma plataforma de videoconferências, e o seu funcionamento era quase igual ao das aulas presenciais.

Mas nem tudo foi um mar de rosas, as saudades dos meus amigos foram a pior parte. Por isso, rapidamente me fartei desta experiência. Cada dia que passava mais saudades tinha deles. Acreditem ou não, é muito difícil não estar com as pessoas com que convivemos todos os dias. Para mim os amigos são como uma família. Espero que em setembro as aulas sejam na escola.

TERESA CASTELO BRANCO, 18 ANOS (12º ANO).

Este ano letivo, finalmente o último antes da tão esperada faculdade, que começou de uma maneira tão vulgar, acabou por se tornar o mais invulgar da vida de todos nós.

Um ano com bastante pressão desde o início para conseguir a média que me permitirá, ou não, entrar no curso que quero. E, se ao início a quarentena começou por ser como umas férias adiantadas, rapidamente os sentimentos mudaram.

Entre a realização da gravidade da pandemia com consequente confinamento obrigatório (de fim indeterminado), as saudades de estar com os amigos, as saudades de não estar com a família, a incerteza do futuro que tanto espero há tanto tempo e que, de repente, se tornou uma incógnita, este tempo foi um misto de emoções e crescente ansiedade.

Devido ao desgaste que o confinamento foi provocando em mim, a rotina que estabeleci inicialmente foi-se dissipando, tornando mais difícil o conciliar o tempo, mesmo sendo muito, com a quantidade de trabalho da escola, que não diminuiu dadas as circunstâncias, muito pelo contrário.

Do que mais me vou recordar vai ser, definitivamente, a falta que estar com pessoas me fez e a falta de controlo sobre aquilo que queria e podia fazer. Estava constantemente com a sensação de perda de tempo, num ano supostamente repleto de festas (18 anos) e com muito tempo para os amigos.

Por outro lado, um mais positivo, foi um período de crescimento e reflexão que, sem saber, precisava muito nesta altura da minha vida em que muitas vezes não tenho tempo para parar e pensar.

AFONSO BASTOS, 18 ANOS, 12º ANO

Durante a infância, aprendemos sobre todo o tipo de assuntos, como viver em sociedade, as ciências, as línguas, a matemática, mas ninguém nos ensina como é ter de viver confinado a 4 paredes durante meses e estar em constante convivência com as mesmas pessoas. Parar de ir trabalhar, parar de ter aulas, de estar com amigos, de fazer desporto, ou simplesmente sair de casa porque está um dia demasiado “bonito” para ficar fechado.

Foi a esta escola que a covid-19 nos levou, numa época em que tudo é instantâneo e que a vida acontece à velocidade de um clique, fomos forçados a aprender a esperar, tivemos que nos reinventar e adaptar o nosso estilo de vida às condições existentes, e não o contrário, o que já era tido como certo para a grande maioria.

Não foi fácil a adaptação, passei de uma rotina em que as únicas horas que passava em casa eram, praticamente, as do sono, para uma rotina em que saía de casa apenas para ir fazer a reciclagem, ou para andar de skate à porta de casa. Como atleta deixei de poder treinar diariamente e tive que adaptar os meus treinos aos 80 metros cúbicos a que chamo casa, como aluno passei a ter aulas online e tive de alterar o meu método de estudo, de modo a acompanhar o programa e a conseguir preparar-me para os exames finais.

Como tudo, o confinamento teve o seu lado positivo, aprendi a dar mais valor ao que tenho, e ainda mais às pessoas que me rodeiam, aprendi a apreciar mais cada momento, porque, como o nosso “amigo” covid nos mostrou, de um dia para outro tudo muda, e somos nós que temos que nos adaptar, e não o contrário.

MATILDE MATA, 17 ANOS, 12º ANO

2020?! Pensava que ia ser um ano fantástico! Número par, redondo, o fim do secundário, os 18 anos, a entrada na faculdade… e veio o vírus. Para este ano letivo tinha a expectativa de uma nova turma, e nas minhas disciplinas preferidas, descobrir novos conteúdos. Em algumas disciplinas já tínhamos o hábito de realizar trabalhos de grupo ou individuais que complementavam a avaliação presencial.

Com as aulas à distância, isto manteve-se, o que não trouxe novidade nem dificuldades acrescidas. O mais difícil foi a carga de trabalho, superior ao que seria com aulas “normais”, em algumas alturas foi complicado gerir, pois os prazos de entrega eram muito curtos. Por outro lado foi muito bom não ter de fazer testes (para mim são sempre um fator de grande ansiedade)! Quanto aos exames, também me soube bem não ter que os fazer… Mas a escola não é só matéria e senti falta das conversas com os amigos, de dizer bom dia à funcionária do Bloco F, e das aulas físicas de Português (das discussões, do entusiasmo da professora), dos Filipinos partilhados no intervalo das 10, do Baile de Finalistas e da viagem de finalistas, momentos de passagem para uma nova etapa. E não posso terminar este texto sem referir que também foi estranho a forma como nos despedimos no final do ano. Sem lanche partilhado, cada um no seu monitor e sem a oportunidade de pôr um ponto final como era suposto.

Fonte: Expresso