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Com ritmo de vacinação ainda lento, reabertura total das escolas pode levar a quarta vaga de covid-19

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A vacinação contra a covid-19 por si só, ao ritmo a que está prevista, será insuficiente para controlar a epidemia de covid-19 em Portugal e evitar que ocorram novas vagas. Se o alívio das medidas de controlo planeado para este mês incluir a reabertura total das escolas e do espaço interior de restaurantes e bares, como está previsto, é provável que a média de contactos diários na população atinja níveis similares aos do Outono passado e, consequentemente, pode ocorrer uma nova vaga de hospitalizações, avisam os autores de um estudo em que é avaliado o impacto do aligeirar das medidas de controlo conjugado com a campanha de vacinação em curso.

 

No artigo intitulado Controlling the pandemic during the SARS-CoV-2 vaccination rollout: a modeling study, que aguarda publicação na Nature, seis investigadores portugueses e holandeses delineiam quatro cenários de alívio das medidas de controlo da epidemia usando um modelo de transmissão do novo coronavírus para concluir que aplicar medidas similares às do Outono passado pode conduzir a uma quarta vaga que começará ainda este mês. Sustentam, contudo, que será possível evitar uma nova vaga se as restrições forem semelhantes às do Verão de 2020 ou se forem aliviadas passo a passo ao longo deste ano.

“Há uma fracção ainda muito significativa de portugueses que pode contrair a infecção pelo novo coronavírus e essa fracção é suficientemente grande para virmos a ter uma quarta onda, um ressurgimento da infecção, caso o desconfinamento ocorra demasiado depressa relativamente ao processo vacinal”, explica Manuel Carmo Gomes, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que é co-autor deste artigo e um dos especialistas do grupo de trabalho que definiu linhas vermelhas para a monitorização do processo de desconfinamento.

 

Sublinhando que este é um estudo preliminar que está a ser actualizado com novos dados e um quinto cenário, Carmo Gomes nota que a análise indica que, se cumprirmos o calendário de vacinação que está previsto, com a reabertura total das escolas a partir do próximo dia 19, de tal forma que o número de contactos seja similar ao de Setembro e Outubro passados, teremos um ressurgimento da doença.

 

A reabertura total das escolas, nomeadamente do ensino secundário, “não pode acontecer demasiado cedo e na minha opinião vai ser”, defende. “Temos aqui duas forças contraditórias: a vacinação, que protege, e o desconfinamento, que aumenta o número de contactos. Uma forma de evitar [uma nova onda] seria acelerar a vacinação”, mas teremos doses suficientes para isso? — questiona.

 

 

 

Para delinear os cenários, a equipa de investigadores usou um modelo ajustado aos dados da seroprevalência estimada por faixas etárias (percentagem da população que se infectou, incluindo os não diagnosticados), das admissões hospitalares, da projectada cobertura vacinal e ao facto de a variante inglesa ser actualmente a mais frequente em Portugal.

 

Partindo do princípio de que o ponto a partir do qual a pandemia ficará completamente controlada depende da protecção adquirida pela população através de uma combinação da infecção natural e da vacinação, os investigadores notam que atingir o controlo rapidamente (em meados de Maio) implicaria que a protecção fosse conferida principalmente pela infecção natural (60% da população) e apenas uma minoria (10%) pela vacinação. Mas este cenário é indesejável e não seria muito diferente de deixar a pandemia evoluir sem quaisquer medidas de controlo, acentuam.

 

Contextualizando a evolução da situação, recordam que o número médio de contactos diários antes da pandemia era 12,6 e que, com as medidas de controlo introduzidas durante a primeira onda na Primavera de 2020, diminuiu para 4,2. Depois de algumas das restrições terem sido aliviadas, subiu para 5,9 e, no início da segunda onda, no Outono passado, que se seguiu à reabertura das escolas, subiu para 7,6.

 

O número médio de contactos diários antes da pandemia era 12,6. Com as medidas de controlo introduzidas durante a primeira onda na Primavera de 2020, diminuiu para 4,2. No início da segunda onda, no Outono passado, era de 7,6.

Diferentes cenários

No primeiro cenário, semelhante ao vivido antes da pandemia, ou seja, sem qualquer tipo de restrições, calculam que, tendo em conta a actual cobertura vacinal, ocorreria uma quarta vaga maior de que as anteriores, e haveria mais de 58 mil hospitalizações ao longo do ano; no segundo, com medidas semelhantes às do Outono passado, quando as escolas estavam abertas, prevêem uma quarta vaga em Maio, com quase nove mil hospitalizações entre 1 de Abril deste ano e 1 de Janeiro de 2022.

 

Já medidas mais apertadas, semelhantes às de Junho-Agosto passado, não conduzem a uma nova vaga mas as restrições terão que se manter até que uma percentagem elevada da população esteja vacinada.

 

No quarto cenário, com uma reabertura gradual, por passos (nos próximos dois meses, manter o nível de contactos semelhante ao do Verão passado, e, a partir de Junho, passar para a média de contactos do Outono de 2020 e finalmente, em Outubro, para níveis anteriores à pandemia) não haverá novas vagas e o controlo da pandemia será conseguido em Fevereiro de 2022.

 

“Pensa-se que a abertura das escolas terá sido terá sido o principal factor das mudanças observadas no Outono de 2020, ainda que o aumento da socialização em espaços fechados devido ao tempo [frio] possa ter também desempenhado aqui um papel. Se o alívio [das medidas] planeado para Abril de 2021 incluir a reabertura total das escolas depois da Páscoa e a reabertura do interior dos restaurantes e bares, será provável que a média diária de contactos na população atinja níveis muito similares aos do Outono de 2020. Como consequência, isto pode conduzir a uma nova vaga de hospitalizações como ilustrado no cenário 2”, alertam os investigadores.

 

Já no cenário 3, a combinação das restrições com “algumas limitações adicionais de actividades sociais em espaços fechados e aulas não presenciais para alunos do secundário pode ajudar a replicar a média de contactos do Verão, compensando a abertura das escolas do ensino básico”, antevêem.

 

Para actualizarem o artigo, foi incluído um quinto cenário, adianta Carmo Gomes. Neste cenário, o primeiro passo parte de um nível de contactos semelhante ao do Verão passado, com um ponto intermédio de transição em 1 de Abril, com muitas escolas ainda fechadas; no segundo passo há um ponto de transição em 1 de Maio em que o nível de contactos é idêntico ao de Setembro/Outubro (todas as escolas abertas); no terceiro passo, em 1 de Julho, volta-se à situação do Verão de 2020, com as escolas fechadas. Mesmo com este calendário mais espaçado, teríamos um ressurgimento da doença, ainda que não no nível de Janeiro passado, sintetiza.

Público

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