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Aulas à distância: o bom e o muito mau

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A entrada dos pais na sala de aula através das plataformas online despertou sentimentos de desilusão. Houve aulas meramente expositivas que se iniciavam dia após dia com o apelo: “Abrir o manual na página xis.” Segundo Marco Bento, investigador na área da tecnologia educativa, os professores não foram preparados para o segundo confinamento e perdeu-se uma oportunidade para a educação digital. Do lado bom da história ficam as experiências de docentes flexíveis que se aventuraram no uso de aplicações que simulam microscópios, jogos ou concursos, como a “Roda da Sorte”.

Aula após aula, a matéria era debitada através do ecrã, um dia atrás do outro. A experiência tornou-se exasperante. Depois de 15 dias neste registo, Margarida Torres, de Coimbra, 45 anos, mãe de uma criança de oito, que frequenta o sexto ano, tomou a decisão de mudar a filha de escola. Jorge Ascensão, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Confap, conhece outros casos de pais com intenção de transferir os filhos de escola na sequência deste confronto com o que se passava no interior da sala de aula. “Não foi tudo excelente, não correu sempre bem. O ensino à distância é complicado de exercer. Há práticas presenciais que não resultam no ecrã e também não é costume os pais entrarem na sala de aula. Não tinham percebido dos modelos de aprendizagem adotados”, afirma.

As informações que possuía sobre as atividades desenvolvidas presencialmente aparentavam ser dinâmicas e ativas, conta Margarida Torres. Via computador, a abordagem era conservadora. “Eram demasiadas horas à frente do ecrã — chegaram a ser quatro horas teóricas num só dia — e aulas baseadas na exposição dos conteúdos seguidas de exercícios dos manuais.” Não havia articulação entre as diferentes áreas curriculares, promovia-se o “ensino cómoda”, como lhe chamou. Cada área curricular estava encerrada na sua gaveta.

No domínio da expressão corporal, pedia-se à criança para reproduzir uma coreografia de um vídeo, sem fornecer dicas de coordenação motora. O simples incentivo de imitar o gesto de ver ao longe, levando a mão à sobrancelha, surtiu maior eficácia na aprendizagem, conta. As aulas de Educação Física foram substituídas por jogos de xadrez. “Se no primeiro confinamento tudo era novo e por isso encarava-se esta experiência como algo que surgia do improviso e do desconhecido, no segundo (iniciado a 22 de janeiro) já não é aceitável”, afirma. A dada altura, a filha colocou uma boneca debruçada sobre um computador de cartão, de rosto descaído sobre o ecrã: “Burn out.”

Há quem critique o “ensino cómoda”, com cada área na sua gaveta

Na descrição de Ulrike Zech, 42 anos, residente em Coimbra, mãe de três crianças, de quatro, dez e 13 anos, parte das aulas foram passadas a resolver mal-entendidos relacionados com o funcionamento da plataforma. “Houve professores que revelaram dificuldade em servir-se da tecnologia. Alguns, até aí, pouco faziam além do envio de e-mail”, diz. “Os que decalcaram as técnicas pedagógicas do sistema presencial com 30 crianças do outro lado do ecrã não conseguiram prender a atenção dos miúdos. Era preciso recorrer a outras estratégias.” Para os crescidos, os professores tiveram ainda que competir com outras distrações: estar no chat com amigos, ou no YouTube. Em todo este processo notou apenas uma conquista positiva: a organização dos trabalhos de casa, com a introdução de todas as indicações na mesma pasta.

Carlos Patrão, 53 anos, de Vila Franca de Xira, pai de uma criança de 10 e de uma adolescente de 15 anos, notou amadorismo no uso da tecnologia no ensino à distância. A utilização de plataformas interativas no contexto de sala de aula já devia estar noutro nível. Considera que “no primeiro confinamento fomos todos apanhados com as calças na mão e que no segundo confinamento fez-se tudo em cima do joelho, desde logo, no que toca ao equipamento necessário. Não se acautelou a necessidade de computadores, router, formação para os professores explorarem as plataformas”, acrescenta o engenheiro informático. “Há dez anos, desde o Magalhães, que estamos a anunciar uma transformação digital que não se faz. Foi uma década perdida.”

O investigador Marco Bento lembra que “a escola não tem vindo a acompanhar a sociedade digital e nesta situação de emergência ficou a descoberto a escola que temos, também imperfeita”. O Plano de Ação para a Transição Digital, lançado em abril de 2020, que inclui formação a professores, “está atrasado”. “Está por concretizar. Fez-se formação para formadores, não chegou à base dos professores.” O processo de autoavaliação de competências digitais dos professores, que os vai inscrever nas formações no nível um, dois ou três, não está concluído. Desta avaliação dependerá a inscrição do professor na formação mais adequada. “O que aconteceu é que o tempo da política não se ajustou a esta necessidade urgente provocada pela pandemia.”

O Ministério deu apoio às escolas: 250 recursos com atividades e vídeos

O Ministério da Educação informa que deu apoio às escolas, através da definição de roteiros para a organização de horários. Forneceu, por exemplo, 250 recursos com atividades e vídeos para diferentes disciplinas. Na área da capacitação digital, realizou 65 atividades de formação, entre outras ações curtas, webinars, e que ao longo do primeiro período iniciou a formação para a transição digital, envolvendo a formação de formadores, além de verificar as competências digitais dos professores, tendo desta forma garantido este procedimento para mais de 90 mil professores.

Paula Santos, de Olhão, 45 anos, mãe de três filhos, com quatro, seis e nove anos, diz que os professores do agrupamento escolar frequentado pelos seus filhos ainda aguardam formação. Ironicamente, atira: “Pelo menos no próximo confinamento já se pode avaliar as diferenças no uso de técnicas.” Mas, no seu caso, a experiência com o ensino à distância até correu bem.

Marco Bento defende que além das diretrizes governamentais e porque as escolas têm autonomia, o que devia ter acontecido é que cada escola, para este segundo confinamento, podia ter desenvolvido um plano curricular, elaborado a partir de sessões e debate. Em oposição, aconteceu “que os professores ficaram sozinhos nas suas práticas; os professores e os pais ficaram sozinhos neste processo”. Jorge Ascensão sublinha este último ponto: “Os pais não receberam instruções de como atuar durante as aulas e muitos deles fizeram questão em estar ao lado dos filhos, por exemplo, sobretudo dos pequenos, quando o desejável seria deixá-los para que pudessem exercer a sua autonomia.” Resultado: os pais participavam nas aulas e a gestão da sala virtual tornava-se confusa, conta.

O investigador considera que “os professores tentaram replicar o que faziam no sistema presencial e não fizeram melhor por não o saber fazer”. Por exemplo, o currículo podia ter sido ajustado, concentrando conteúdos específicos, os professores instruídos sobre a necessidade de criar ligação emocional com os alunos que é fundamental para criar disposição para a aprendizagem, pois a interação é o elemento-chave no ensino à distância. O problema da educação digital não se limita ao fornecimento de equipamentos informáticos, explica, o ensino à distância vai muito além disso.