Início Educação As falhas da escola em Portugal apontadas pela OCDE

As falhas da escola em Portugal apontadas pela OCDE

2441
0

Falta de funcionários, chumbos e Internet lenta: as falhas da escola em Portugal apontadas pela OCDE

Dois em cada três estudantes portugueses frequentam escolas onde os diretores apontam a falta de pessoal não docente como um dos fatores que perturba de forma considerável ou muito a capacidade de ensinar. É o valor mais alto entre os países membros da OCDE 3 apenas um terço estão em estabelecimentos de ensino onde a Internet não é considerada lenta ou onde existe uma plataforma eficaz de ensino online disponível.

Estes são apenas três dos muitíssimos dados disponibilizados no último relatório da OCDE com base nos resultados e inquérito que acompanham os testes PISA (Programe for International Students Asssessment), realizados de três em três anos, por alunos de 15 anos, de 79 países e regiões . O último aconteceu em 2018, com as primeiras conclusões a serem divulgadas no final do ano seguinte e a mostrar que os jovens portugueses conseguiram resultados na média da OCDE no que respeita à literacia em leitura, matemática e ciências.

Esta terça-feira foi divulgado o relatório “Políticas Eficazes, Escolas de Sucesso” e que mostra o impacto que diferentes políticas – formação de grupos de alunos por níveis, recursos físicos e humanos investidos, instrumentos de avaliação, etc – têm, em maior ou menos escala, no desempenho dos estudantes.

Por exemplo, quem frequenta pelo menos um ano de educação pré-escolar tende a ter melhores resultados nos testes PISA, mesmo anulando o peso das características socioeconómicas das famílias e das escolas que frequentam. E, neste capítulo, Portugal está também em linha com a média da OCDE, com apenas 7% das crianças a não ter qualquer ano de pré-escolar, contra 6,2% de média no espaço da organização.

O PESO DA RETENÇÃO

Já no que respeita à percentagem de jovens que chegam aos 15 anos com pelo menos um chumbo no currículo, os dados têm vindo a melhorar, mas continuam a colocar o país entre os que apresentam valores mais altos. Em Portugal acontece com um em cada quatro (26,6%) e só três países têm números mais altos: Luxemburgo, Bélgica e Espanha.

Os dados também mostram que quem chumba tem piores resultados nos testes PISA e que quem mais reprova são os alunos em situação económica e social mais frágil, gerando-se uma espécie de dupla penalização.

Portugal é o segundo país da OCDE em que os jovens mais desfavorecidos têm mais probabilidade de ficarem retidos (cinco vezes mais, quando a média na OCDE é de três vezes mais) do que os colegas no extremo oposto do índice socioeconómico. E também um dos sistemas em que o efeito de reprovar um ano influencia mais negativamente o desempenho nos testes que medem a literacia em leitura.

O relatório permite ainda ver em que tipo de regiões se chumba mais. No caso de Portugal, fica evidente que é nas escolas localizadas em áreas rurais ou em vilas e cidades pequenas (menos de três mil habitantes) que as taxas de retenção são mais altas, a grande distância do que acontece nos grandes centros urbanos (população residente superior a 100 mil).

“Entre todos os países e economias participantes, os que têm percentagens mais baixas de alunos retidos, revelam, em regra, desempenhos de literacia superiores e também maior equidade”, assinala-se no relatório.

Quanto aos recursos das escolas, o estudo também põe em evidência em que pontos Portugal compara mal com os restantes países. A falta de pessoal não docente é um dos mais evidentes. Quase 70% dos alunos em Portugal frequentam escolas onde esse problema é indicado pelos diretores. A média da OCDE fica-se pelos 33%.

ALUNOS DO PÚBLICO SAEM-SE MELHOR

Em relação à qualidade dos recursos informáticos, perguntou-se se a largura da banda e rapidez da Internet era suficiente. Apenas um terço dos estudantes portugueses estão em escolas onde os diretores disseram que sim, contra uma média de 67,5% na OCDE. E 35% responderam que a escola tem uma plataforma de ensino online eficaz, quando na OCDE o valor ultrapassa a metade.

Em Portugal, a grande maioria (87%) dos estudantes de 15 anos estão inscritos em escolas públicas. Nos testes de 2018, os dados mostraram uma queda no desempenho dos alunos do privado. Essa evolução pode, no entanto, estar relacionada com uma alteração na amostra (menos estabelecimentos de ensino particulares a participar e com outras ofertas de ensino).

Mas o que os dados para o conjunto de países participantes também mostram é que, anulando o efeito das condições socioeconómicas, os estudantes do ensino público têm melhores resultados na literacia em leitura na maioria dos sistemas.

Outro dos indicadores medidos pelos questionários que acompanham o PISA diz respeito ao número de horas semanais de aulas dedicadas às várias disciplinas. Os alunos portugueses têm mais tempo de línguas, matemática e ciências do que a generalidade dos colegas. Por exemplo, passam 4,5 horas da semana a aprender Matemática, quando a média da OCDE é de 3,7.

Mas neste campo, as correlações não são tão evidentes. Há mesmo um limite (mais de três horas por semana) a partir do qual as diferenças de desempenho na literacia a leitura, por exemplo, se esbatem entre quem tem mais e menos tempo de ensino.

Expresso