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Alunos de 20: estudo não explica tudo

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São muitos os alunos que se distinguem no seu percurso escolar e em particular no ensino secundário, terminando-o com médias acima dos 18 valores. Mas quando chegam à universidade, nem todos mantêm os níveis de desempenho. Porque a ‘fórmula’ que os levou ao sucesso acaba por não resultar no contexto do ensino superior. Foi esta a conclusão a que chegou o sociólogo Germano Borges, autor da tese de doutoramento “Da excelência no ensino secundário à (ir)regularidade académica no ensino superior”.

A partir de um inquérito e entrevistas a mais de 400 estudantes que concluíram o secundário na escola pública com notas entre os 18 e os 20 valores, Germano Borges, investigador do Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho, tentou perceber como foi feita a transição para o ensino superior destes alunos e saber se a “excelência “conquistada no secundário constituiu um “fardo ou um proveito”, “resistindo” a outros níveis de exigência. E socorrendo-se dos seus testemunhos concluiu haver o que chama de “face latente” da excelência académica, ou seja, circunstâncias que ajudam ao sucesso que vão além do trabalho em sala de aula, do mérito individual e do esforço de cada um.

Entre essas circunstâncias, admitem os entrevistados, está a constituição de turmas homogéneas, com grupos compostos apenas pelos ‘bons alunos’, explicações fora da escola, mobilização do capital social e económico dos pais, que gera por vezes fenómenos de inflação de notas ou de maior benevolência dos professores para com estes jovens. No caso particular das explicações, cerca de 40% dos jovens inquiridos no âmbito desta investigação disseram recorrer a este apoio extra durante o secundário. Uma vez chegados ao ensino superior, enfrentam as primeiras notas negativas e cadeiras deixadas para trás: neste estudo, 40% dos entrevistados admitiram ter tido dificuldades de adaptação à universidade, 11% mudaram de curso e apenas 5% mantiveram-se no mesmo patamar de excelência escolar.

Há um afastamento dos melhores alunos em relação às Letras, Humanidades e Ciências Sociais

Sobre as razões do desajustamento, referem frequentemente que os métodos de estudo apreendidos no secundário mostraram-se “desadequados” face à realidade do ensino superior. E que a preparação foi muito centrada na dimensão do conhecimento, descurando outros tipo de inteligência e o trabalho mais independente. Apontam ainda a “falta de treino para lidar com o erro”. O objetivo era ter as notas mais altas possível, numa “competição escolar que gerou uma espécie de bloqueio a uma reflexão cuidada” na hora de escolher o curso superior, descreve Germano Borges.

Quanto às escolhas, o ensino público, e sobretudo o universitário, reúne as preferências da grande maioria destes alunos, bem como as áreas da Saúde e Tecnologias. Ainda que esta não seja uma amostra representativa do universo dos estudantes com mais de 18 valores de conclusão do secundário, os números não deixam margem para dúvidas: um terço dos inquiridos em 2017 e 2018 estava em cursos na área da Saúde e apenas 0,5% estavam em ciências da educação e formação de professores, por exemplo.

“O afastamento dos melhores alunos do secundário em relação às Letras, Humanidades e Ciências Sociais causa inquietação, no sentido da própria sobrevivência e desenvolvimento futuro destes campos científicos”, sublinha o investigador da Universidade do Minho.

Outra tendência encontrada prende-se com diferenças de perspetiva entre rapazes e raparigas, com os primeiros a mostrarem-se mais otimistas quando ao seu futuro pós-universidade, em termos de rendimento ou progressão na carreira. O que traduz uma desigualdade salarial no trabalho que ainda subsiste.

Expresso