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“Água vai” aos professores – Rui Correia

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Não foi assim há tanto tempo que a aposentação de um professor representava um momento taciturno para uma comunidade, uma circunstância tocante de melancolia. Hoje é um nada administrativo. Um e-mail. Uma carreira inteira desvanece-se com um sms. E depois, nada.

Sindicatos de professores explicaram que é preciso mudar as coisas, o ministério apresentou medidas controversas para estancar a hemorragia. Por seu turno, os professores fazem contas à sua vida e decidem que perder umas centenas de euros na sua reforma pode nem ser assim tão mau, considerando a falta de respeito, de autoridade e os vitupérios a que são continuadamente sujeitos, não só nos media, mas nas ruas, nas cloacas virtuais e mesmo nas suas escolas. Tudo coisas válidas e com pés assentes na realidade.

Notas de rodapé

Mas custa perceber que nem uma única palavra foi escrita a agradecer o trabalho desses professores. Essas centenas que se vão aposentando todos os meses. Nem um gesto, nem uma palavra. Oficial ou opinativa. Institucional ou particular. Nada. “Não fizeram mais do que a sua obrigação”, dir-se-á e é bem verdade. Mas também é mentira. Quase todos fizeram muito mais do que a sua obrigação. Não é, de resto, possível ser professor hoje em Portugal sem fazer muito para além da obrigação.

Ninguém põe em causa a premência que a falta de professores representa para um sistema de ensino, mas será pedir de mais que a sociedade dedique uns minutos, umas linhas, que olhe para estes milhares de profissionais que dedicaram uma vida inteira ao ensino e lhes enderece uma sentida palavra de gratidão?

Uma que seja. Que realmente seja. Bem sabemos que a gratidão é um bem escasso e em vias de extinção. Sabemos também que não deve ser depreciado com bagatelas e salamaleques oficiados para que não resulte vazio de razão, mas, sinceramente, nada não será pouco de mais?

Quarenta anos a pegar em rapariguitas e fazê-las conhecer as letras e os algarismos para que transformem a sua vida para sempre não é coisa que justifique uma nota de rodapé que seja? Não temos nada a dizer a estes professores?

Equidade “A la carte”

“I touch the future, I teach” desafiava a malograda professora Christa McCaulliffe a bordo do Challenger, em 1986. Considerar que ser professor é uma profissão como as outras todas representa uma certa visão do que um país deve ser. Da maturidade a que um país não se sente com direito. Quando alguém diz que, por imperativo de equidade, a carreira do professor não pode ser positivamente discriminada em relação às restantes da função pública, esquece-se, ou faz-se esquecido, de que os professores tiveram a sua carreira “congelada” durante vários anos enquanto todas as outras permaneciam em velocidade de cruzeiro.

Durante esses anos polares, ninguém se queixou de falta de equidade. A não ser as famílias dos professores que viram os seus vencimentos a mirrar. De resto, bastaria escutar o silêncio com que se aceita a aplicação de múltiplos benefícios – muitos deles certamente justos e proporcionados – a médicos, juízes e militares para se perceber que isso da equidade entre carreiras não passa de uma falaz pantominice. Basta ver as voltas que se dão para fazer regressar médicos aposentados ao activo ou os incentivos que se acumulam para que o interior não fique despovoado de pessoal e estruturas essenciais.

A amnésia de Darwin

Equidade? Que equidade? Em primeiro lugar, não existe equidade sem gratidão. “Se abrirmos mão e a bolsa aos professores, logo outros virão reclamar o mesmo”, sentenciam estas sumidades platónicas. Sim, virão e cá estaremos para lhes dizer que tomámos colectivamente uma decisão: valorizar os professores sobre todas as outras carreiras públicas. Porque achamos que devemos investir nisso. E porque todos gostamos de fazer um bom negócio.

O que se retira de vantagem é muito superior ao investimento. O custo é inferior ao benefício, feitas as contas. Além disso, será a equidade uma obrigação feudal do sector público? Não haverá lugar à mesma urgência ética no sector privado, onde a falta de equidade não apenas se tolera como faz mesmo “parte do negócio”? A equidade tem dois mundos? Duas dimensões que se não misturam? Será, a título de exemplo, que todos os comentadores deviam ganhar o mesmo pelos comentários que fazem nas televisões e jornais? Não há premência de equidade, aí? Pois bem: não, não há. É a vida a funcionar. Ou o mercado, que é outra forma de vida. Claro que é uma discriminação, mas é uma discriminação assente num fundamento simples: relevância. Uns são mais escutados do que outros e isso atrai dinheiro. O tal que depois se paga de forma diferente a este e àquele.

Quem mais se opõe à discriminação positiva dos professores é normalmente um beneficiário da mesmíssima discriminação. Espanto dos espantos: vivemos num universo de seleção natural. É um fenómeno de darwinismo amnésico. É por isso que não há dinheiro suficiente que pague devidamente um médico, um polícia ou um bombeiro. Não há mesmo. Será que desconhecem que a política é, tal como teve de repetir recentemente o presidente da República, uma soma de escolhas? Agradecer e significar a um professor o valor especial e eminente que tem para todos é uma estratégia de futuro. Com provas dadas.

“Água vai”

Não foi assim há tanto tempo que a aposentação de um professor representava um momento taciturno para uma comunidade, uma circunstância tocante de melancolia. Hoje é um nada administrativo. Um e-mail. Uma carreira inteira desvanece-se com um sms. E depois, nada.

Quem priva com as escolas e a fauna que nelas habita conhece bem estes professores que se aposentam. Alguns deles dão nome a salas, auditórios, ginásios, piscinas e ruas do município. Sempre assim foi em Portugal. Não são uns tipos quaisquer. São pessoas maiúsculas que ergueram o seu nome acima de toda a mediocridade e nos seus ombros suportam vidas inteiras dos seus miúdos. É impensável deixá-los ir, urrando “água vai”.

Um país vive acima das suas posses quando desdenha deste modo tanto exemplo graúdo de desvelo e exigência. São pouquíssimas as escolas que ainda fazem cerimónias de gratidão a estes professores que se aposentam.

O ministério da educação devia impedir activamente que se deixasse que estes professores abandonassem o ensino sem lhes dizer o quanto lhes estamos todos gratos. Um a um. Especialmente os nossos filhos iriam gostar de assistir a isso, constantemente.

Como destruir uma criança

Todos deveriam perceber que um professor não é um ofício como os outros. É mais estratégico do que os outros. Destruir um miúdo é a coisa mais simples do mundo. Acabar de vez com a confiança de uma menina é a coisa mais fácil que há. Incapacitar um jovem faz-se de mil maneiras diferentes.

Todos os dias os professores portugueses recuperam e reabilitam jovens que são verdadeiras ruínas ambulantes, feridas abertas, carregando batalhas secretas que os professores sabem desvendar, recuperar e cicatrizar. Um professor cura. As pessoas curam-se. Os professores sabem disso como poucos.

Quando se vão embora, depois dos milhões de manobras de Heimlich emocionais que fizeram ao longo da sua vida, deviam saber que estivemos atentos. Que os vimos sempre e que os escutámos sempre. Cada professor é um reduto ecológico de atenção ao Outro.

Longe da vista

Nenhum professor espera aplauso por fazer bem aquilo que é suposto fazer. Ninguém aguarda um telefonema do presidente para dar um abraço ao professor Gaspar, ao professor Vasques, à professora Cândida e às suas luminosas carreiras no ensino, mas custa ver como se aceita placidamente que saiam de cena sem qualquer galhardete tantos daqueles professores que todos conhecemos e admiramos na nossa vida. E são tantos a quem devemos tanto mais do que um simples mínimo.

Basta perguntar a qualquer pessoa acerca de um professor que tenha mudado a sua vida. A maior parte de nós terá dois ou três nomes para recordar, por vezes comovidamente. Nenhum deles merecerá uma mínima nota de rodapé?

Estaremos nós tão ocupados em resolver problemas reais que nos esquecemos daqueles outros que estes professores souberam resolver a tempo de se tornarem eles mesmos verdadeiros problemas? Estarão os professores assim tão longe da vista, tão longe do coração?

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