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A união que desfaz a força – Paulo Guinote

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Tenho como minha uma regra que só contempla excepcionais excepções, a qual postula que se alguém aparece a apelar e gritar muito em prol da “união” é porque acabou de protagonizar ou participar numa divisão. Seja na associação dos veteranos do chinquilho lá do bairro, seja na comissão de utentes do banco de Jardim da Estrela, à direita de quem entra do lado esquerdo de quem vem da Pedro Álvares Cabral, seja – pasme-se – de uma qualquer organização representativa de professores, sindicato ou parecido, movimento ou similar, não sendo de esquecer uma qualquer associação ou afim.

Então se passar a fazer parte ou promover algo começado por “União” ou com um slogan que inclua esse termo, é certo e sabido que é coisa que resulta de dissensão, fracção ou separação por mútuo desacordo. E não é por acaso que cada “unionista” traz consigo uma carga pesada de acusações de “divisionismo” contra tod@s aquel@s que ousem discordar da nova união. Porque parece não existir forma melhor de erguer a única união certa do que acusar de impureza de sangue a qualquer um@ que ouse pensar diferente ou, muito pior, dizer diferente em público.

Como professor, tenho a minha generosa barriga repleta de apelos à união de uma classe profissional que, pela dimensão e diversidade de origens, é naturalmente plural e muitas vezes divergente na avaliação das situações, nos interesses mais ou menos explícitos, nas propostas de acção e respectivos objectivos. Mas não encaro essa pluralidade necessariamente como um mal, antes considerando que é dela que nasce uma riqueza de perspectivas que enriquece, mais do que desmerece, a profissão que não me envergonho de ter chamado minha.

O que a muita gente parece ser difícil admitir é que a “classe docente” se uniu em diferentes contextos, mas quase sempre em oposição e reacção a algo ou alguém: em 2008, contra a investida protagonizada por Maria de Lurdes Rodrigues; em 2013, contra Nuno Crato; em 2018, contra uma “geringonça” que optou por “mitigar” a recuperação do tempo de serviço prestado (mais do que contra um ministro que ninguém encarava muito a sério); em 2023, contra a encarnação ministerial de João Costa.

Já usei, mais de uma vez, o final do Cântico Negro, de José Régio, escrito há quase um século, como recurso para descrever a forma como os professores se uniram contra algo, embora com múltiplos olhares sobre aquilo que poderia vir em vez desse algo. Ou mesmo sem outro olhar que não fosse o da fúria libertada.

É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
-Sei que não vou por aí!

Nos longos tempos pré-eleitorais que vivemos, regressam apelos a uma mítica união, que sabemos impossível quando entram outras fidelidades em confronto, sendo especialmente ridículo que existam apelos para essa união, quando se explicitam anátemas contra maiores ou menores partes desse todo.

Com suavização ou elipse do vernáculo original, fiquemos com o diálogo de A Vida de Brian, que, a par da História de Mayta, de Vargas Llosa, me serviram como inestimáveis módulos da minha formação política, enquanto jovem adulto.

BRIAN: Você é da Frente do Povo da Judeia?
REG: Vai-te lixar!
BRIAN: O quê?
REG: Frente Popular da Judeia. Somos a Frente Popular da Judeia! Frente Popular da Judeia (FPJ).
FRANCIS: Punh****ros.
BRIAN: Posso… entrar no seu grupo?
REG: Não. Desaparece.
(…)
REG: Ouve. Se quisesses juntar-te à FPJ, terias mesmo de odiar os Romanos.
BRIAN: Eu quero!
REG: Ah, sim? Quanto?
BRIAN: Muito!
REG: Certo. Estás aceite. Ouve. As únicas pessoas que odiamos mais do que os Romanos são as da Frente do Povo da Judeia.
FPJ: Sim…
JUDITH: Divisionistas.
FPJ: Divisionistas…
FRANCIS: E a Frente do Povo Judeu.
FPJ: Sim. Oh sim. Divisionistas. Divisionistas…
LORETTA: E a Frente Popular do Povo da Judeia.
FPJ: Sim. Divisionistas. Divisionistas…

Professor do Ensino Básico.

DN