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A QUE PREÇO…? – Carlos Santos

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Pacientemente, deixei o tempo atirar para o passado um momento inesquecível. Hoje, tenho por tarefa, o dever de partilhá-lo convosco.
Aconteceu num desses meses de setembro, numa sala dos professores, durante um almoço do «clube» da marmita. Estávamos a felicitar uma colega que ficara colocada no quadro do agrupamento. Agradeceu-nos com um sorriso agridoce alagado de lágrimas. Poderíamos supor que eram lágrimas de contentamento, mas depressa nos apercebemos que, por alguma razão, estas revelavam muito mais. Fomos inundados por um dilúvio de emoções que desabou diante dos nossos olhos. A alegria de, finalmente, depois de tantos anos a percorrer escolas do país, ter conseguido colocação na área de residência, foi largamente suplantada por um regresso onde encontrou a sua casa vazia. As paredes, as portas, os móveis e as pessoas que sorriam nos retratos espelhados pela casa, permaneciam iguais como antigamente, mas faltava algo. De resto, o silêncio ensurdecedor daquele ninho vazio demonstrava que não estava ali o mais importante – faltavam as filhas. As duas já não habitavam aquele lar, tinham ido para a faculdade. Não conseguia compreender como é que o tempo andara tão devagar e as filhas cresceram tão depressa…
Foi o momento terrível em que, realmente, se apercebeu qual tinha sido o preço a pagar por ter optado por abraçar esta profissão; um momento em que alguma coisa morreu dentro de si.
Roubaram-lhe as filhas e retiraram-lhe o direito de as ver crescer e de terem uma mãe presente. Extorquiram-lhe o melhor da vida e, nesse momento de reflexão, apercebeu-se que tudo o que foi perdido, já não voltaria mais, desaparecera para sempre. Compreendeu que não havia dinheiro no mundo capaz de pagar ou de reparar aquela perda.
O substrato que irradiava daquele vazio nada mais era do que a crueldade de reconhecer que lhe haviam amputado um bocado de si. Revelava-lhe quem, na realidade, nós somos; somos, tão somente, o resultado das nossas escolhas.
Nesse dia, sentiu tristeza e revolta por não ter tido a coragem de colocar a família em primeiro lugar. Experimentou o sabor amargo de ter sido usada e abusada na sua dignidade, no seu direito à família e no direito a ser feliz. Com a obtenção do lugar naquela escola, sentiu que, depois de violentada, lhe tinham dado um mero rebuçado para a compensar; que foi o fim de uma ilusão e que todo o sacrifício não valera a pena. Era a constatação de que, da vida de professor, eles não sabiam nada.
Mas, o que mais a entristecera, foi ter-se apercebido da violência afetiva que isso causara nas suas filhas. Compreendeu que, pior do que o inferno da solidão, só mesmo o insustentável peso do arrependimento.
Foi quando deixou a alma em fuga escapar-lhe pela boca sob a forma das palavras que pudemos escutar: “Se ao menos eu pudesse fazer o tempo voltar para trás…”
Queríamos dizer alguma coisa, mas deixou de ser possível, pois não sabíamos como lhe dar o que ela mais precisava – devolver-lhe o passado. Mergulhámos o olhar nos tupperwares, enchemos as bocas com garfadas de silêncio e, durante longos instantes, partilhámos aquela dor, que também era nossa, numa mesa onde se tornaria impossível esconder as cicatrizes de uma vida, porque todos nós, em algum sítio e de alguma forma, também estávamos amputados. Todos conhecêramos um preço que só cada um sabia. Uns suportaram, outros procuraram ajuda e outros, pura e simplesmente, já não estavam mais connosco, porque não conseguiram aguentar. Encheram-nos de esperança, depois, de medo tornando precária a nossa existência e, sem darmos por isso, levaram-nos a vida.
À volta daquela mesa, estropiados, despidos das máscaras de sorrisos forçados, nus e emudecidos, revelámos a um mundo cheio de indiferença para connosco, um dos principais motivos pelos quais já «ninguém» quer ser professor.
Carlos Santos