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A primeira manhã na escola da professora com Covid-19: como reagem pais, docentes e alunos?

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Nem sempre a calma e o silêncio significam paz. Às 9h da manhã, à porta da Escola Básica Roque Gameiro, na Amadora, o clima é tranquilo, mas há duas mães que exigem explicações. “Não fizeram limpeza à escola?”, pergunta uma delas a Nelson Fernandes, funcionário da portaria. A segunda, mais nervosa, atira. “Vim falar com a professora porque não quero deixar a minha filha na escola hoje. Isto é uma irresponsabilidade.” Fernandes não sabe o que lhes responder, mas entende a preocupação. “Se pudesse também não tinha vindo.” Não tem informação sobre a limpeza, nem sabe quantos dos cerca de 1200 alunos da escola, divididos entre 1º, 2º e 3º ciclos, estão a faltar

O certo é que esta não é uma sexta-feira qualquer. É o dia seguinte à decisão de deixar cinco turmas “em isolamento social” após uma professora de Físico-Química do 8º ano ter sido diagnosticada com o novo coronavírus, o Covid-19. Regressada de Itália, o país europeu com mais casos confirmados, estava sem sintomas nos dois dias em que deu aulas. No passado domingo sentiu febre e na segunda-feira já não veio à escola. Na noite de quarta-feira chegou a confirmação das análises feitas no Instituto Dr. Ricardo Jorge — era o sexto caso de coronavírus em Portugal, o primeiro de uma mulher. Na quinta, foi decretado o isolamento dos alunos e o aparato à porta da escola era tão grande que Bruno Saldanha, pai de uma criança do 7º ano, achou que podia ter havido um desastre, “um atentado terrorista”. Não tinha visto as notícias. A preocupação que sentiu foi-se atenuando “com a informação que chegou e com a postura reservada da professora”, que, mesmo assintomática, contactou o serviço do SNS Saúde 24, que lhe respondeu que podia dar aulas. Bruno Saldanha ficou “ainda mais descansado” com a entrada em cena do delegado de saúde, que “é conhecido e respeitado aqui na Amadora”. “Se ele diz que não é preciso fechar a escola, que as crianças não estão em risco, eu tenho de confiar”, responde.

Ao lado, a mulher, Margarida, está a faltar ao trabalho. Avisou a empresa que era mãe de uma criança da Roque Gameiro e foi-lhe pedido que ficasse em casa. Ri-se, despreocupada. Ou, como se definem estes pais, “apreensivos, mas a usar a racionalidade”. Quando Rita, a filha, se despede em direção ao portão, Bruno Saldanha ainda lança um aviso, para que lave bem as mãos. “Eles aqui são muito próximos e tocam-se muito.” Rita responde com o novo cumprimento que criou com uma amiga: é feito com os pés. O único toque é nas sapatilhas

“A MINHA MÃE ONTEM ATÉ ME MEDIU A FEBRE”

Francisco Marques é diretor do Agrupamento de Escolas Pioneiros da Aviação Portuguesa, ao qual pertence a Roque Gameiro e a Escola Secundária da Amadora, onde há também uma turma em isolamento. Ao contrário do que chegou a ser dito, Marques esclarece que a professora não dá aulas na Secundária. “Esteve aqui numa atividade de Físico-Química organizada por uma turma do 11º ano”, e é essa turma que está agora em casa. Entre uma escola e outra, há ainda oito professores e quatro funcionários em quarentena, o que significa que, fora os cerca de 160 alunos das seis turmas, há outros estudantes sem aulas, sobretudo na escola básica. Francisco Marques garante que o número “é residual”, ainda que não seja essa a perceção à porta da Roque Gameiro, tanto dos funcionários da portaria como de Mário César, o segurança que abre passagem para as crianças com um sinal de STOP apontado aos carros. “Isto hoje está aqui muito menos gente.”

Alguns pais confirmam que nos grupos de WhatsApp houve quem avisasse que não deixaria os filhos vir. E de um grupo de quatro rapazes que antes das 8h da manhã divide a conversa entre Pokémons e coronavírus, há dois que dizem ter vindo não por causa dos pais, mas apesar deles. “Não quis faltar ao teste de Português”, conta Tiago Curtinha, aluno do 8º ano. “A minha mãe ontem até me mediu a febre”, ri-se Rodrigo Bento, sem sinais aparentes de doença.

A manhã ameaça chuva. Ao longo das duas horas que o Expresso passa à porta da escola, a maioria dos pais mostra-se tranquila. Vieram quer porque confiam nos responsáveis de saúde, na escola e no país, como porque não veem motivo para faltas, até porque se avizinha um período de testes. Há ainda alguns, como Vera, enfermeira, que olham de soslaio a comunicação social, a quem atribuem a culpa por “este alarmismo”. “Isto é como outra gripe qualquer”, que não pede alternativa. “Vamos deixar de viver?”, pergunta Mafalda Silva, outra das mães que ali está com “muita descontração”.

Menos descontraídos estão dois rapazes que saem apressados da carrinha que os levou à Roque Gameiro. Correm atrasados e pedem a ajuda do motorista, que lhes põe as malas às costas. Chama-se João Bernardo e não foge ao tema do momento na Amadora e no país. “Eles espirram e tossem para dentro da carrinha o tempo inteiro”, conta, o som abafado pela máscara que lhe cobre o rosto. É o único que traz proteção. “Tenho alguns problemas de saúde e um sistema imunitário mais fraco, por isso não arrisco. Mas uso máscara noutras alturas, não é só por causa do coronavírus.” João Bernardo tem duas filhas na Roque Gameiro, que não faltaram às aulas.

Depois do “caos” de quinta-feira, o Agrupamento de Escolas Pioneiros da Aviação Portuguesa tenta regressar ao quotidiano escolar. “Até nisto fomos pioneiros”, brinca o diretor. Francisco Marques garante que sentiu “a tranquilidade dos pais” após a intervenção do delegado de saúde, a monitorização das pessoas em isolamento, que vai durar até à próxima sexta-feira, 13 de março, e a publicação de um plano de contingência, que pode ser lido AQUI. Garante também que ambas as escolas foram limpas com especial cuidado, logo a partir de segunda-feira e com recurso a desinfetantes, vinagre e demais produtos purificadores. “Estou convencido de que isto em breve volta ao normal.”

Fonte: Expresso