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A morte dos professores – António Jacinto Pascoal

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Um dos aspectos relevantes do capitalismo editorial e de imprensa sobre a imaginação social é aquilo a que Lipovetsky chama a “emergência de uma sociedade sem opacidade”, resultado da renúncia da representatividade simbólica, em que “as formas descobrem a sua inteligibilidade já não fora de si próprias, mas em si próprias”. É o contrário do cachimbo de Magritte. Marx alertara para o efeito do fetichismo de que a mercadoria se mune (de natureza simultaneamente sensível e supra-sensível), que, depois de adquirir um valor de troca, rasura o valor de uso, tornado abstracto. É célebre o exemplo da mesa, como o apresenta em O Capital. Deixa de se considerar o objecto produzido como característica objectiva (de propriedades estritamente físicas) para ganhar uma forma fantasmagórica, consequente das relações entre os objectos no mercado e definida pela relação social entre os homens (os produtores, os especuladores, os vendedores, os apreciadores).

Essa forma fantasmagórica a que se refere Marx é o que está na “base da sociedade do espectáculo, aquela com poder suficiente para controlar os indivíduos, dotando-os da natureza comprometida da marioneta, do espectro, da ilusão”.

Ao contrário de alguns colegas de profissão que se indignaram (e bem) com o espectáculo O Preço Certo Especial Professores (RTP 1, dia 13 de Junho de 2020), não alinhei por completo na mesma onda de indignação, no sentido de que aquilo me causasse pruridos especiais. Dizia Terêncio: “Sou um homem: nada do que é humano me é estranho.” Mas tive, ao menos, a sorte de ter sido alertado por um texto de António Carlos Cortez (de quem se espera igualmente um artigo no PÚBLICO) e confundido simpaticamente por um extraordinário professor, o António Conde (magnífico tradutor de Brecht), daqueles, raros já, que nunca venderiam a alma ao diabo, mesmo sendo a mãe a pedir-lho.

Vejamos: no programa do “professor” Fernando Mendes não há qualquer tipo de fraude. Mendes desempenha a função social que a televisão estatal lhe outorga e fá-lo com genuína seriedade e eficácia. Os seus convidados fazem parte de uma categoria social admirável, a inefável classe média baixa, assalariada ou titular de pequenos negócios, gente de partilha emocional franca e camaradagem horizontal, mas fatalmente enredada nas malhas da sua condição alienada e desarmada (lembremos o formato do programa: joga-se contra máquinas, e ninguém o contesta, porque esta é gente que aceita “desconfiar” das máquinas). Até aqui não há fraude. Ela começa quando, no lugar daqueles, entram em cena os professores, a erudita elite e, recuperando uma ideia de Walter Benjamin, a gente capaz da “interrupção abrupta dos acontecimentos”, criadora da ruptura lúcida que obriga o público a pensar. Eles é que são a fraude, pois não é de crer que estejam no local certo. Mas estão. O pior é que estão. E estando, o cachimbo de Magritte, que não se queria como cachimbo, passa afinal a sê-lo. Eis o paradoxo que deixa de o ser, para de novo resultar em paradoxo.

Este preço (que é certo) é aquele que se paga nas sociedades de matriz capitalista e de hegemonia cultural pós-moderna, de eterna fantasmagoria ilusória. Lipovetsky é muito claro quanto a isso: “a sociedade pós-moderna é demasiado gulosa de novidades para rejeitar seja o que for. Pelo contrário, exumamos e fagocitamos tudo, mas ao preço da ridicularização”. Estes professores, que felizmente só a si se representam, são gulosos e abrem o apetite à gula das audiências e do share televisivo. São um petisco, aliás, para essa gente das Cofinas, das Mediacapitais ou das RTPs. Basta que a ideia pegue e não será difícil imaginar um futuro de professores com contratos chorudos, em sinal aberto ou fechado. Como na pintura de arte total, olhe-se qualquer coisa (até fagócitos).

O meu tempo – e este é o mais insuspeito saudosismo bacoco – foi o do José Manuel de Melo, meu brechtiano Keating de Português (no Liceu D. Duarte de Coimbra), um homem que não se encolerizava, porque ridicularizava, que era didáctico para não ser didáctico, que usava a pedagogia como distanciamento, e que nos desafiava sempre com uma ironia quase cínica, a escarnecer dela mesma. Como poderei esquecer o que uma vez disse numa das nossas aulas? “A ironia nunca parece o que é; antes de o afirmares, de asseverares de que se trata de ironia, confirma primeiro se há ironia no texto ou se a sua ausência não é outra forma implícita de ela ali estar.”

Num dos mais recentes artigos de António Guerreiro (de quem saquei a ideia para o título deste artigo), o articulista debruça-se sobre a pulverização dessa gente a que chamamos estudantes, funcionários da investigação em prejuízo do estudo, recorrendo a Giorgio Agamben. Temo que o “requiem” anunciado sobre os dez séculos de ensino estenda mais alguns compassos ao novel professorado. Não é novidade. Já não há novidade. E muito menos opacidade. O “encanto escarninho” que Virginia Woolf temia tem mais de um século, é uma evidência e nós não somos ingénuos.

Fonte: Público