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A missão do próximo Ministro da Educação deveria ser… – Samuel Faria

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A poucas semanas da tomada de posse de um novo Ministro da Educação, importa lançar algumas sugestões construtivas.

Há um ditado que diz: um filho começa a ser educado 20 anos antes de nascer. A grande mensagem é recordar que ao educarmos os nossos filhos estamos já a educar os seus filhos, os nossos netos. Este ditado devia estar bem gravado na mente dos responsáveis pelo nosso governo, e não só, de modo a aplicarem-no aos processos que envolvem os nossos estudantes. Nas escolas de hoje estamos a preparar os presidentes, os ministros, os professores, os médicos, os engenheiros, os empresários, os artistas, em suma, todos os profissionais do futuro. É uma missão de extrema importância e de amplo prazo. É a missão!

Lendo a missão e atribuições da Direção-Geral da Educação saltam à vista um conjunto de objetivos ao nível procedimental. Ou seja, objetivos como: desenvolver isto, coordenar aquilo, acompanhar mais isto, etc. Os programas dos partidos que concorreram às recentes eleições legislativas padecem do mesmo mal. Intenções vagas e boas, seguidas de muitas medidas avulsas, mas sem um programa concreto de médio e de longo prazo. O foco na melhoria das instalações, ou na melhoria dos equipamentos disponíveis, ou na digitalização deveriam ser pormenores de uma proposta de fundo, desafiante, ambiciosa, mas concretizável. Apetece dizer: deixem-se de objetivos vagos! Promover uma melhor qualidade de ensino, promover um maior sucesso ou uma maior inclusão. Ninguém pode ser contra isto. Deixem-se também de micro-objetivos como a diminuição da retenção, ou diminuição do abandono escolar. Não são objetivos, mas sim indicadores da realidade, e podem ser manipulados pelos próprios governantes (basta baixar a exigência que o sucesso cresce). Todas estas metas são importantes e devem ser alcançadas o mais rapidamente possível, mas devem ser vistas como objetivos intermédios e não como objetivos finais.

Haja mais ambição para o ensino em Portugal! Deviam ser propostos objetivos mais altos, fins mais nobres e metas mais audazes. A missão do próximo Ministro da Educação deveria ser a de garantir a excelência do ensino em Portugal e o pleno desenvolvimento dos talentos dos alunos e professores. Devia ter como missão colocar Portugal no topo mundial da qualidade de ensino. Sem ambição acaba-se por falhar por nem tentar. Se podemos ambicionar voar bem alto como as águias para quê contentarmo-nos a voar baixo como aves de capoeira?

Para ser ambicioso na educação não bastará elencar alguns objetivos elevados, será preciso concretizá-los e quantificá-los a vários prazos. Será preciso pensar como potenciar os melhores não esquecendo os que têm maiores dificuldades. A atual missão parece ser apenas “não deixar ninguém para trás”. Não podemos fixar objetivos limitados a uma legislatura. Um exemplo de uma possível concretização seria: Obter uma medalha Fields nos próximos 20 anos. Ter mais dois prémios Nobel nos próximos 40 anos. Ficar no top 3 do ranking PISA e TIMSS na próxima década. A obtenção de um destes prémios ou de outro prémio, para além do prestígio que traz consigo, é um comprovativo que está a ser feito um bom trabalho. Que se está no bom caminho.

Cada nova medida deverá ser acompanhada por um racional explicativo do que se propõe alcançar, quais os meios necessários e as metodologias a usar. Não esquecer a definição de um conjunto de indicadores, definidos a priori, que promovam a transparência e a comunicação através da avaliação independente de todo o processo. Os critérios de sucesso têm de ser definidos ao início, não a meio nem no fim, e serem independentes de decisões em causa própria, como a que falámos acima. Se assim não for, todas as medidas estarão sempre destinadas ao sucesso, pois será sempre possível apresentar qualquer tema através de algum ângulo favorável.

Deste modo, todos os interessados podem acompanhar e contribuir para o processo, podem sugerir alterações, correções, melhorias e, principalmente, garantir-se uma aprendizagem a todos os intervenientes para que no futuro não se inicie do zero, mas que se construa em cima de obra já feita.

Por exemplo, o que será preciso para colocarmos como objetivo a obtenção, por um português, de uma medalha Fields, prémio atribuído a matemáticos com menos de 40 anos durante o Congresso Internacional da União Internacional da Matemática (IMU)? Primeiro será preciso assumir essa meta, comunicá-la e fazer uma retro definição dos diversos passos que terão de ser percorridos sequencialmente. Será preciso criar uma “escola” de uma área específica dentro da matemática, por exemplo, criar uma “escola” de equações diferenciais. Para isso ser possível, terão de ser criadas condições para existir investigação de ponta, nessa área, nas universidades portuguesas. Só poderemos ambicionar a isso se os alunos, ao entrarem nas universidades, tiverem uma preparação matemática mais avançada. Uma melhor preparação pressupõe um programa de matemática mais exigente no secundário, que só será possível se a exigência vier do ensino básico. Este exercício deverá ser desenvolvido, de modo mais detalhado, até chegar a um ponto imediatamente concretizável. No final percorrerem os vários passos no sentido inverso de modo a estudá-los pormenorizadamente, garantir os recursos necessários e implementá-los.

Este artigo assinala a disponibilização no site Ranking Escolas dos dados desde 1998 relativos aos exames finais do secundário. Amplia-se assim a análise de 14 para 24 anos. Em relação ao ano passado só temos disponíveis dados sobre as disciplinas. Parece incrível, mas os dados de 2021 só em maio de 2022 deverão ser disponibilizados aos media e apenas em novembro deste ano deverão ser tornados públicos. Passa a ser o mais extenso estudo alguma vez disponibilizado publicamente sobre este tema. É uma ferramenta utilíssima para estudar os comportamentos das várias escolas ao longo dos últimos anos, analisar os resultados do passado, aprender deles, tentar perceber o que funcionou e o que falhou. Sem dúvida que a maior vantagem será a capacidade de efetuar análises preditivas. Possibilita-se assim a projeção de novos e melhores cenários para o futuro.

Atualiza-se o gráfico, já publicado anteriormente, sobre a evolução do posicionamento de Viana do Castelo no ranking anual por distrito, com os dados dos anos de 1998 a 2007 e com a totalidade das classificações dos exames do ano 2020 incompleto na altura. Na elaboração deste ranking entrou-se com todos os exames de todas as disciplinas.

Observador

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