Início Educação A indisciplina e a falta de regras são fatores destruidores da educação...

A indisciplina e a falta de regras são fatores destruidores da educação – Salvador de Sousa

595
0

Indisciplina, já muito falei sobre ela. Estou certo que enquanto não se olhar para ela como se olha para um cancro, a escolarização está em risco…são cada vez mais os pais que fogem das escolas com mau ambiente, sobretudo escolas com problemas de indisciplina pois sabem que não há quem queira resolver o problema na sua raiz, na responsabilização dos pais/encarregados de educação.

Aqui apresento algumas propostas…poderá não ser muito mas já é qualquer coisa!

___________________________________________________________________________________
Leia aqui a opinião de Salvador de Sousa

Sou professor aposentado, mas continuo muito atento a tudo aquilo que acontece nas nossas escolas, pois transtorna-me e fico muito entristecido quando algo de menos correto, na minha opinião, se passa nestes ambientes educativos e que é preciso pôr um ponto final para que não percamos o que de bom ainda existe.

Ao longo da vida, somos aculturados e a nossa integração vai sendo feita de acordo com a nossa carga genética, a nossa família, a escola, os nossos amigos e de todo o meio que nos envolve.

Isto, desde o nascer até morrer, somos fruto dessas envolvências e, durante este nosso caminhar, temos fases etárias muito mais influenciáveis por tudo aquilo que nos rodeia e a que Freud chama “o superego”.

Cada um de nós, fazendo essa retrospetiva, não precisa de recorrer a qualquer “enciclopédia” para fazer essa dedução. Somos, nesta vertente, fruto da educação e da orientação que tivemos na formação da nossa personalidade.

O que referi, vai servir de preâmbulo para o assunto que vou desenvolver e que me preocupa sobremaneira! Escolhi uma profissão que, continuamente, abracei com muito empenho e muito carinho e que, tenho a certeza, a grande maioria dos meus colegas, assim como todo os outros agentes educativos, também sente isso, pretendendo dar o seu melhor pelos seus educandos como de filhos se tratassem.

É isso que sempre aconteceu e acontece, trabalha-se em função dos alunos e nada acontece na escola contra os alunos. Pode haver uma ou outra exceção, mas testemunho que é muito difícil isso acontecer. O que não pode haver é, por vezes, interpretações erradas de certas atuações que são necessárias para se cumprirem as regras estabelecidas para bem de toda a comunidade educativa.

Fui, durante muitos anos letivos diretor de turma e, alguns, coordenador dos diretores de turma e sempre admirei a ligação entre a casa e a escola, o empenho, a presença assídua dos encarregados de educação, sinal de envolvimento e no grande auxílio que prestavam e, felizmente, muitos ainda prestam às escolas e a si próprios, porque estão a “cultivar” o seu futuro, preocupados com o amadurecimento do seu fruto.

Sabiam, no geral, distinguir as competências de cada agente educativo, respeitavam as regras estabelecidas pelos órgãos de cada estabelecimento escolar, sequenciavam, aprovavam e motivavam os seus educandos no processo de ensino/aprendizagem.

Reconheciam as competências dos professores e aceitavam as suas orientações científico-pedagógicas, incentivavam os seus educandos a acatar o cumprimento de regras por qualquer educador dentro do espaço escolar.

Hoje, nota-se uma grande decadência, felizmente, longe de ser geral, mas já é caso para perguntar: Para onde caminhamos com tanta indisciplina? Para onde caminhamos com certos encarregados de educação a pôr em causa os ensinamentos e as diretrizes dos professores, dos auxiliares de ação educativa e da própria direção das escolas?

Para onde caminhamos com alguns pais com a autoestima exagerada querendo ensinar aquilo que não sabem, pondo em questão ensinamentos dos docentes? Para onde caminhamos se não confiamos nos nossos agentes educativos que continuam, tal como no passado, a quererem o melhor para os seus alunos?

Para onde caminhamos com alguns pais a impedirem que os seus filhos, com dificuldades de aprendizagem, assistam às aulas de apoio?

Para onde caminhamos com tanta falta de educação, mesmo no interior dos recintos escolares, maltratando colegas/alunos, auxiliares da educação e, mesmo professores, proferindo palavrões nos recreios e cenas pouco recomendáveis num espaço de formação educativa?

É tempo de não deixar avançar essa virose que está a contaminar e a destruir tantos valores. Já há casos de alunos que sofrem de bullying por quererem aproveitar o seu tempo, respeitando as regras.

É preciso que os pais continuem a ser os primeiros grandes educadores dos seus filhos, educando-os para além do aconchego familiar, sabendo orientá-los, de uma forma sequencial, acatando as regras dos estabelecimentos escolares.

Se esse fio condutor, entre a escola e a família, for quebrado assiste-se a uma falta de equilíbrio que afeta o sucesso do educando, a sua motivação, destruindo o bom ambiente das escolas, multiplicando a desordem e contagiando outros alunos.

A indisciplina e a falta de regras são fatores destruidores da educação (2)

Vou continuar a escrever sobre este assunto para poder desabafar, mais um pouco, sobre um grande problema que está a afetar o ensino e consequentemente o nosso futuro, pois é altura de reagirmos perante tanta falta de respeito que há nas nossas escolas, tanta falta de interesse pelo estudo, tanta falta de interesse pelas regras estabelecidas, tanta falta de iniciativas, nesta matéria, dos nossos governantes, dos responsáveis pela política da educação, enfim, um enorme problema que urge solucionar, caso contrário, estamos a deixar degradar um “edifício” muito importante, diria, essencial para nele podermos viver.

É tempo de dar a autoridade necessária aos professores para poderem agir em casos de indisciplina e de ausência de regras. É tempo de se deixar de gastar tanto dinheiro em comissões e mais comissões, em ações de formação e em tantas outras iniciativas que ficam, não quero generalizar, mas não estou a ver os frutos desejáveis.

É tempo de atuar, é tempo de não deixar cair o respeito pelas diversas funções de cada interveniente no processo educativo. É tempo de dar aos professores o que é dos professores; de dar aos pais/encarregados de educação o que é dos pais/encarregados de educação; de dar aos auxiliares da ação educativa o que é dos auxiliares de ação educativa; de dar aos alunos o que é dos alunos; em suma, já Cristo com a Sua Divina Sabedoria dizia: «dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», isto é, cada coisa e cada pessoa no seu devido lugar.

Os alunos quando entram numa escola devem assumir aquele espaço como um local de formação onde vão continuar a ser orientados por pessoas preparadas, científica e pedagogicamente, para os ensinar, motivando-os com os variados processos de ensino/aprendizagem, fazendo tudo para que possam formar cidadãos úteis na sociedade.

Devem saber e aceitar todas as normas estabelecidas para as salas de aula, para os recreios, para os espaços de apoio ao estudo e para tantos outros locais, respeitando sempre todos os agentes educativos. É salutar saber conviver com os próprios colegas, deixando-os livres de acordo com as suas capacidades e com a sua maneira de ser.

Os pais/encarregados de educação não devem ultrapassar as suas atribuições como educadores e pessoas que desejam o melhor para os seus filhos, mas sim como agentes complementares, sobretudo no incentivo, no apoio ao estudo, dentro das capacidades e formação de cada um, numa sequencialidade escola/casa no desenvolvimento programático, no cumprimento das normas disciplinares e em tudo aquilo que a escola vai dando aos seus educandos.

Em casos anómalos, nunca agir, nem maltratar, seja quem for, sem primeiro falar, dialogar com as partes envolvidas. Nunca pensemos que os nossos filhos são incapazes de praticar aquilo que não é desejável.

Para isso, é imperioso estar alerta, indo à escola falar com os agentes educativos, sobretudo com o diretor de turma, elo de ligação, representante da família na escola. Estejam vigilantes e ajudem os professores a educar, não tolerem faltas de respeito para com os colegas, auxiliares de educação e professores.

Professores, muita força nessa tão nobre profissão, todos passamos por aí e sabemos quão importante é ser educado, estar atento nas aulas, cumprir o que por vós é estabelecido e ensinado.

Continuai, fazei tudo para inverter toda uma corrente que vos está a afligir, porque quereis ordem, educação, boas maneiras, atenção nas aulas para que os vossos alunos possam progredir, atingindo as metas que tanto desejais: formar cidadãos bem preparados para a vida em sociedade.

Governantes, não deixem que as escolas se tornem espaços indesejados por tantos encarregados de educação e alunos que pretendem ser devidamente bem formados e que sofrem, são maltratados pelos colegas que andam na escola apenas a impedir o seu bom ambiente, não respeitando os colegas e os próprios professores.

Deem a devida autoridade aos docentes, fazendo respeitar as hierarquias. Legislem, não para somar decretos, mas para, de uma vez por todas, dar às escolas as verdadeiras estratégias para que se possam formar cidadãos em pleno.

Vejam o exemplo de tantas escolas privadas, onde não há faltas de educação, onde os alunos trabalham em pleno e têm sucesso, onde os professores têm o apoio necessário e são respeitados, porque há regras que se fazem cumprir, caso contrário, não há contemplações e os alunos que não cumprem sofrem o verdadeiro castigo.

Aluno, fermento de distúrbios, não pode continuar e fazer-se herói perante os que querem respeitar as normas.
Fonte: diariodominho.pt