Início Educação “A escola passou a ser fofinha.” – JOÃO VIEIRA PEREIRA

“A escola passou a ser fofinha.” – JOÃO VIEIRA PEREIRA

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No mesmo dia em que foi apresentado o relatório da Comissão Técnica Independente com as soluções para a localização do novo aeroporto de Lisboa (já lá vou) foram também conhecidos os resultados dos testes PISA, a maior avaliação internacional em Educação feita pela OCDE. O desempenho dos alunos portugueses de 15 anos, num processo que envolveu um total de 81 países ou regiões e cerca de 700 mil jovens, está em declínio acentua­do desde 2015. Esta tendência é mais preocupante quando vínhamos de um período de ouro da Educação, com os resultados nacionais a crescerem face a outros países, ao ponto de termos sido considerados um caso de estudo. Não era para menos, pois conseguimos na altura ultrapassar em algumas áreas, ou até em todas, países considerados como referência na Educação, como Noruega, Suécia ou Áustria.

Este descalabro — não há outra maneira de descrever o importante retrocesso no caminho de recuperação do nosso nível educacional, que parte de uma base muito baixa — pode ser explicado pela conjugação de vários fatores, políticas e acontecimentos.

Desde logo a forma como ainda se olha para a Educação. Como a qualificação média em contexto familiar é muito baixa, muitas vezes os pais ficam satisfeitos quando os seus filhos conseguem completar o ensino obrigatório, não havendo incentivo para mais. Também o mercado de trabalho deixou de premiar monetariamente quem tem uma licenciatura, mestrado ou mesmo doutoramento. Isto porque a economia continua presa a atividades de baixo valor acrescentado. Se não existe um prémio expressivo a pagar pela aposta no ensino, a tendência para desistir é maior. Estes fatores não explicam, contudo, a preparação dos alunos. Essa está diretamente ligada à qualidade do ensino, que a julgar pelos resultados do PISA está longe do que precisamos.

O desinvestimento na escola pública tornou-se prática corrente, principalmente em capital humano, com um ataque sem precedentes aos professores, demasiadas vezes por culpa da própria classe e principalmente das estruturas sindicais, bacocas e arcaicas, que deixaram de olhar para a dignificação do aluno como objetivo último do professor. Mas o maior ataque de todos foi orquestrado pelos “novos pedagogos”, para os quais o mérito é algo vil, que mina a sociedade e traumatiza os alunos. Os alunos já não chumbam — palavra maldita —, agora são retidos. E, para que tal aconteça, a carga burocrática e as justificações exigidas aos professores são tão grandes que muitas vezes preferem deixar o aluno passar para evitar o trabalho que tal decisão dá. Mesmo assim, há planos para que no ensino básico se acabe com todas as retenções, pois tal é visto como uma forma de punição que não funciona. Porque o objetivo maior dos últimos governos é o de combater as “desigualdades à entrada e à saída da escola”. Ou seja, a escola deixou de ser um espaço de aprendizagem para ser um centro de terraplanagem social, nem que seja a puxar para baixo, como dizem os resultados do PISA.

João Marôco, investigador do ISPA e especialista em estatísticas de Educação, explicou ao Expresso como, na sua visão, chegámos aqui. E o que mudou? As palavras são minhas, mas basicamente a escola passou a ser fofinha. Além da aposta permanente nas chamadas soft skills, o fim dos exames do 4º e do 6º anos veio piorar a preparação dos alunos. Se um estudante sabe que um exame não conta para nada, o esforço que vai colocar no mesmo é menor e o impacto negativo na sua aprendizagem é maior. Se a isto juntarmos as constantes alterações aos currículos sempre que muda o governo, e até às vezes o ministro, estamos perante um cocktail perfeito para o desastre.

Mas talvez o pior seja ligarmos muito pouco a tudo isto. Preferimos ficar horas a falar sobre a localização do novo aeroporto porque estamos vicia­dos em projetos de desenvolvimento que passam sempre por betão. São anos e décadas a discutir como usar as infraestruturas para tornar Portugal um lugar agradável para a atração de mais e mais turistas, sejam estradas, estádios, comboios ou aeroportos. Se continuarmos a fazer o mesmo, em vez de apostarmos a sério na qualificação do capital humano, é provável que obtenhamos o mesmo resultado.

P.S. — Sobre o novo aeroporto… Construam-no!