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A escola está doente – Alberto Veronesi – CNN

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As notícias sobre a saúde mental nas escolas portuguesas aumentaram exponencialmente depois da pandemia (aquiaquiaqui e aqui).

Que a profissão de professor é bastante propensa a desenvolver burnout e a degradar a saúde mental já não é novidade. Mas que esse problema afete também alunos começa a ser preocupante.

A saúde mental é uma componente essencial do bem-estar individual e social. Quando as pessoas estão mentalmente saudáveis são capazes de pensar com clareza, tomar decisões acertadas, lidar com o stress e construir relações positivas.

No contexto escolar, a saúde mental é particularmente importante, pois tem um impacto significativo na aprendizagem e no ensino.

Relativamente à saúde mental dos alunos, estudos recentes têm demonstrado que um número significativo de estudantes portugueses apresenta problemas de saúde mental. Um estudo da Universidade de Évora concluiu que 45% dos alunos apresentam sintomas de ansiedade ou depressão. Estes problemas têm, naturalmente, um impacto negativo no desempenho escolar, na participação nas atividades extracurriculares e nas relações sociais.

Alguns dos fatores externos que contribuíram para os problemas de saúde mental dos alunos foram a pandemia de covid-19,  a guerra na Ucrânia e no Médio Oriente, que têm gerado ansiedade e incerteza,  o stress associado à escola – como a carga de trabalho excessiva -, as exigências académicas elevadas, o aumento da indisciplina em meio escolar, o bullying, os problemas familiares – como conflitos ou violência doméstica -, desemprego, problemas pessoais – como baixa autoestima -, dificuldades de aprendizagem ou discriminação.

Relativamente aos fatores internos, foram identificados os genéticos, biológicos e psicológicos, conforme indicado em alguns estudos (ex: aqui).

Mas como e quem é que pode identificar os alunos que estejam em situação periclitante?

A escassez de psicólogos nas escolas portuguesas não ajuda nem à identificação nem ao encaminhamento correto destes alunos. No entanto, se todos estivermos atentos podemos, aferindo alguns comportamentos, tentar perceber a situação de cada aluno e tentar acionar os mecanismos existentes de acompanhamento, seja nas escolas, seja na sociedade.

Estar em situação de depressão ou burnout é um fator que influencia as aprendizagens dos alunos. Se o aluno está ansioso pode ter dificuldade em concentrar-se nas aulas, se está deprimido pode ter dificuldade em motivar-se para estudar, ou se está a ser vítima de bullying pode ter dificuldade em confiar nos professores e colegas, o que pode prejudicar o seu relacionamento com eles e com a escola. Todos estes comportamentos podem levar a baixo rendimento escolar e até abandono. Por esse motivo deveriam ser identificados e encaminhados para os cuidados adequados. Mas para isso seria necessário que as escolas tivessem recursos humanos suficientes. Não os tendo, muitos destes alunos “perdem-se” e em casos extremos colocam termo à própria vida.

No entanto, como referi em cima, este problema não afeta só os alunos. Os professores também estão sujeitos a um risco elevado de problemas de saúde mental. Um estudo da Universidade de Lisboa concluiu que 61% dos professores apresentam sintomas de exaustão emocional.

Naturalmente, estes problemas têm um impacto negativo na qualidade do ensino, na relação professor-aluno e na satisfação profissional. Também neste caso é possível identificar os fatores externos e internos que têm contribuído para os problemas de saúde mental dos professores. Relativamente aos fatores externos, à cabeça temos toda a componente burocrática: a carga de trabalho burocrático excessivo, que inclui a preparação de aulas, a avaliação dos alunos em modelos que incluem a inserção de dados numa quantidade enorme de grelhas Excel e em plataformas informáticas, a participação em enumeras reuniões inúteis. Além disso, a falta de reconhecimento social da profissão, em contraponto com as exigências, a dificuldade em lidar com alunos indisciplinados, o aumento de alunos com dificuldades específicas de aprendizagem, que ficam sem o apoio necessário abandonados nas salas de aulas, ou o lidar com conflitos entre alunos-alunos, alunos-professores e entre os pais e eles próprios. No que aos fatores internos diz respeito foram identificados os genéticos, biológicos e psicológicos, como no caso dos alunos.

Não é difícil perceber que quando um professor está ansioso pode ter dificuldade em concentrar-se na aula, o que pode prejudicar a qualidade do ensino, ou um que está deprimido pode ter dificuldade em motivar os alunos, o que também pode prejudicar a qualidade do ensino. A relação entre a saúde mental e a aprendizagem está amplamente estudada e pode concluir-se que a saúde mental tem um impacto negativo nos alunos de várias formas. Dificuldades de atenção – os alunos que estão ansiosos ou deprimidos podem ter dificuldade em concentrar-se nas aulas e em aprender os conteúdos -, dificuldades de memória – a ansiedade e a depressão podem afetar a memória, dificultando o “armazenamento” e a recuperação de informações -, dificuldades de relacionamento – os alunos que estão com problemas de saúde mental podem ter dificuldade em estabelecer relações com os professores e com os colegas, o que pode prejudicar a aprendizagem.

Perante estas dificuldades, o aluno que está ansioso, deprimido, pode ter dificuldade em prestar atenção ao que o professor está a dizer, o que pode levar a que ele perca informações importantes. É inegável a relação entre a saúde mental e o ensino/aprendizagem. A falta de saúde mental tem um impacto negativo no ensino por parte dos professores e na aprendizagem por parte dos alunos. Por esse motivo, esta problemática deve ser tida em conta no desenho das políticas educativas.

CNN