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A escola e o futuro – Eduardo Sá

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Quase depressa demais, a relação entre a pandemia e a escola deixou de ser um assunto de primeira página. Apesar disso, os directores escolares foram sempre reclamando mais recursos para promoverem as recuperações de aprendizagens. Os computadores e a banda larga para todos perderam o seu ímpeto inicial.  As entrevistas sobre o sucesso da escola na pandemia tornaram-se mais frequentes. E, em Outubro deste ano, afirmava-se que as médias dos alunos do 5.º ao 9.º não só não tinham baixado durante a pandemia como “na esmagadora maioria das disciplinas, os resultados mantiveram-se idênticos ou subiram ligeiramente”. Por mais que um relatório do Conselho Nacional de Educação tivesse afirmado que os efeitos da pandemia se iriam prolongar no tempo, com consequências graves a nível do abandono e do insucesso escolares.

Entretanto, há já alguns dias, os resultados do programa PISA da OCDE vieram demonstrar que os alunos portugueses de 15 anos registaram uma queda de resultados sem precedentes. Sendo esses resultados os piores desde 2006! Enquanto alguns responsáveis políticos associavam esta queda à pandemia, o próprio relatório da OCDE recordava que o decréscimo do resultados já se vinha a verificar, em termos globais, há vários anos. Referindo-se à queda dos apoios-extra dos professores aos seus alunos, desde há 10 anos. O modo como a origem sócio-econômica dos alunos interfere nestes resultados, o que nos questiona sobre a função de “elevador social” da própria escola. E a falta, meses a fio, de docentes, em muitas disciplinas (à data de hoje, mais de 32 mil continuarão sem professor a, pelo menos, uma disciplina). Enquanto isso, o meu colega João Marôco recordava que “não se aprende mais ensinando menos”. Sobretudo quando, comparados com os resultados de 2018, nos confrontamos que os alunos de 15 anos terão frequentado menos um ano lectivo em 2022.

Chegados aqui, impõe-se que nos perguntemos se a escola, hoje, se adequa aos adolescentes que temos. Às fontes de informação a que recorrem. Ao modo como pensam. Às matérias e aos métodos de ensino com que as aprendem. Ao confronto entre um ensino tradicional e as novas tecnologias, e ao recurso, banalizado, à inteligência artificial para a elaboração de relatórios e de trabalhos. À ausência de métodos de estudo e de pesquisa que evidenciam. Aos tempos dedicados à escola e às aprendizagens. Aos métodos obsoletos de avaliação. Ao recurso, quase obsceno, a explicações, que os impede de serem autónomos e proactivos. À pressão que colocamos sobre os seus resultados, todos os dias. Aos professores que têm. Ou ao modo como está organizada a escola. E não sendo nada disto novo ou surpreendente, pergunta-se o que tem feito a escola para se reinventar. Sendo certo que mais escola não será melhor escola, menos aprendizagens serão, por inferência, pior futuro.