Início Educação A educação em Portugal: o direito à indignação – António Carlos Cortez

A educação em Portugal: o direito à indignação – António Carlos Cortez

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“[…] ALÉM DO BEM-ESTAR MATERIAL (DO SEU PROJECTO) O SOCIALISMO IMPLICA UMA AUTÊNTICA PARTICIPAÇÃO DOS TRABALHADORES NAS DECISÕES GERAIS E SECTORIAIS, NA CONDUÇÃO POLÍTICA DO PAÍS AFINAL: NÃO SÓ CUMPRINDO ORDENS, PORTANTO, […]. TAL SÓ É POSSÍVEL COM “AQUELE MÍNIMO DE PREPARAÇÃO CULTURAL (NÃO TENHAMOS MEDO DA PALAVRA POR DEMAGOGIA DO MOMENTO) QUE PERMITE O […] DEBATE E SOBRETUDO O ESPÍRITO CRÍTICO QUE FAZ PARTE DELE E DA SUA COERENTE UTILIZAÇÃO. O SER EXPLORADO DETERMINA UMA JUSTA ATITUDE DE PROTESTO E O MAIS QUE EXPLICÁVEL DESEJO DE INTERVIR […]”

Mário Dionísio, O Quê? Professor?! Casa da Achada, Lx, 2015, p.190.

Paulo Freire (1921-1997), em A Pedagogia da Indignação (Unesp, S.P, 2000) afirma: educar para uma permanente interrogação dos poderes que nos alienam, eis uma das nobres funções da docência. Quando o sistema global de educação tem como única ideologia o projeto de competição desenfreada, de corrida fratricida pelas energias já esgotadas do planeta, e do Outro, mais do que nunca ser-se professor é sinónimo de agente multiplicador de cultura. Ou assim deveria ser. Vivemos hoje uma educação vazia de sentido porque é a ganância, o sentimento da posse, o lucro e o deus-dinheiro as únicas traves-mestras do ser contemporâneo. A digitalização apenas veio dar força ao progressivo desmantelamento do sistema educativo, transformando o professor num mero gestor de unidades didáticas e num simples tarefeiro de ordens emanadas superiormente. Não se quer professores que leiam, que tenham tempo para ler e pensar — o que se pretende é gente acrítica, apaniguados do tecnicismo mais aviltante. Tutores on-line, é isso que está no horizonte… Mais barato, mais fácil e talvez se poupem milhões, julga-se.
Sem espírito e sem missão, porque nos foi roubado esse espírito, e sem missão, porque diluíram a memória da Escola como lugar do Saber, nenhum pequeníssimo oásis de cultura pode medrar na Escola e na Universidade portuguesas. Uma fábrica de cretinice, de hipocrisia mascarada de rigor científico, eis o que temos. Sem liberdade e sem projeção imaginante dum outro futuro que rasgue a camisa-de-forças da pobreza, do desinteresse e da banalidade, não há um Portugal futuro. Rolo compressor de objetivos absurdos e que visam apenas fazer dos alunos novos escravos para o mundo do trabalho, a Escola disse não, com a manifestação de 14 de janeiro, à visão instrumental da docência e da aprendizagem. Uma Escola sem imaginação, sem memória e sem cultura, é isso que temos quase 50 anos depois do 25 de Abril. Como explicar isto?

Alguns factos: O esmagamento burocrático de que nós, professores, temos sido alvo, bem como os baixos salários que caracterizam, em toda a linha, o agradecimento dos sucessivos governos a uma classe profissional responsável pela formação das vossas crianças e jovens, essa é uma primeira explicação. Desde o magistério de Maria de Lurdes Rodrigues que o professor se transformou num mero técnico e as escolas em meros lugares onde os pais deixam os filhos para irem trabalhar, recolhendo-os ao fim do dia. Saber? Saber, de facto? Isso não importa nada.

Desde o magistério de Maria de Lurdes Rodrigues que o professor se transformou num mero técnico e as escolas em meros lugares onde os pais deixam os filhos para irem trabalhar, recolhendo-os ao fim do dia. Saber? Saber, de facto? Isso não importa nada

Mais: O congelamento dos salários e a justa progressão na carreira, bem como o regime de colocações são problemas que asseguram que os melhores não queiram ser professores. Segundo o PORDATA, apenas 3% de jovens licenciados estão, em 2023, interessados em seguir a via de ensino. Em 1996, havia cerca de 14% de jovens licenciados a seguir a formação vocacional. Acresce a deficiente formação de professores, o fim dos estágios remunerados, o fim duma formação em ensino onde se pense, com bibliografia crítica, pertinente, o papel do professor na sociedade atual. Devemos perguntar: O que têm sido as reformas senão o empobrecimento dos programas, o facilitar das aprendizagens?
Nós, professores, seja na Escola Pública, seja nas Universidades, sentimo-nos vigiados na nossa ação pedagógica, pois que vivemos, sem escapatória alguma, entre o diretor pidesco, a rede burocrática e os pais fanatizados pelo endeusamento dos filhos. Pais – diga-se com frontalidade – que jamais pensam que os seus filhos estão a ser enganados por um sistema que lhes permite a transição de ano e de ciclos sem que eles, os filhos, sejam competentes nas áreas que escolhem seguir. Há, decerto, exceções, mas não é esta a realidade geral? Quem o pode negar? É, pois, urgente exigir currículos, programas adequados à competitividade do mundo global: disciplinas que suscitem o pensamento, consolidem a curiosidade! Porém, que discurso existe, da parte do ME, relativamente ao poder e respeito que se deve dar à classe docente para que os casos de violência sobre professores se não democratizem ao ponto da mais absoluta anarquia? Para quando um ministro que não endeuse as criancinhas e adolescentes e os pais, infantilizando e mentindo, ao mesmo tempo que diaboliza quem forma e educa?

Não se pergunta, quem nos governa, que Portugal é este de que a escola é o espelho? É o país dos heróis da bola, dos comentadores da camisa aberta, dos ditos “senadores” que ninguém entende por que razão são fazedores de opinião, sempre inquinados pela ideologia oca dos partidos que representam. País que, dos Gouchas e Cristinas, às estrelinhas do music-hall lusíada, tem de perguntar: Quem está a ganhar com isto? Nós, professores, agentes máximos da formação do país, temos de levar estas perguntas também para a praça pública e promover um debate profundo! Pensar a educação significa pensar a cultura no seu todo, e, no seu todo, sem pejo, reconhecer que educar só é possível com professores, pais e governantes críticos da alienação, a outra face dos regimes totalitários.

Professor, poeta e crítico literário