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A educação como fogo de vista – Luís Aguiar-Conraria

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Em média, trabalhadores com mais escolaridade são mais bem remunerados. E, mesmo para a mesma escolaridade, diferentes áreas de estudo abrem perspetivas remuneratórias diferentes.

Relativamente ao impacto da escolaridade, há na literatura económica duas teorias dominantes diametralmente opostas, ambas compatíveis com o facto referido. A primeira, a do Capital Humano, é que a educação dá um conjunto de competências que aumenta a nossa produtividade e, como algumas competências são mais bem remuneradas do que outras, é normal que uns cursos abram perspetivas profissionais melhores. A segunda é conhecida como a Teoria da Sinalização. De acordo com ela, quem já é inerentemente mais produtivo já tem um conjunto de competências que lhe permite mais facilmente frequentar o Ensino Superior e, dentro deste, os cursos mais difíceis; neste caso, quem tem mais escolaridade é mais produtivo e, por isso, tem melhores salários, mas não graças ao curso que tirou. O curso é antes um filtro que sinaliza ao mercado de trabalho a competência do trabalhador.

Apesar de ambas as teorias preverem que quem tem mais escolaridade será mais bem-sucedido profissionalmente, as consequências para as políticas públicas são opostas. Se a teoria da sinalização estiver correta, o investimento público na educação é um desperdício dado que não terá impacto na produtividade global dos trabalhadores. Já se, de facto, a educação criar capital humano, investir nela torna-nos mais produtivos e permitir-nos-á atingir um nível de vida superior.

Parece-me óbvio que há casos de pura sinalização, especialmente entre cursos parecidos. Há muitos miúdos que fazem questão de entrar nos cursos com médias mais elevadas, não sendo de forma alguma claro que esses cursos lhes deem mais competências do que outros. Por exemplo, não é óbvio que o curso de Engenharia e Gestão Industrial, que tem uma média de entrada elevadíssima, dê mais competências do que Engenharia Mecânica ou Engenharia Eletrotécnica (ainda para mais, porque os alunos terão sempre de fazer o mestrado, podendo nessa altura optar pela especialização que entenderem). Mas, claro, um aluno formado em Engenharia e Gestão Industrial ou em Engenharia Aeroespacial (outro curso com média de entrada absurdamente alta) está a sinalizar que foi dos melhores alunos do ensino secundário do seu ano.

Se a educação criar capital humano, investir nela torna-nos mais produtivos e permitir-nos-á atingir um nível de vida superior

Mas é ainda mais evidente que há competências que se ganham na escola que aumentam a nossa produtividade. É difícil imaginar um médico sem formação em Medicina, um juiz sem formação em Direito ou duvidar que a formação em Engenharia ajuda quem se quiser dedicar a projetar e construir aviões, foguetões ou pontes. A apoiar esta visão há vários estudos que confirmam a importância do capital humano no crescimento económico dos países.

Uma disciplina de base comum aos cursos que têm melhores saídas profissionais é a Matemática. Infelizmente, muitas pessoas veem-na mais como um teste de inteligência do que como algo que qualquer um consegue dominar se nisso se empenhar. É também uma das disciplinas em que mais se notam as diferenças de classe: crianças de famílias favorecidas têm resultados desproporcionalmente melhores em Matemática.

Como lidar com essa desigualdade? Para quem acredita principalmente na Teoria da Sinalização, a educação não é muito mais do que fogo de vista, pelo que não faz sentido investir muitos recursos públicos em Matemática. Mais vale varrê-la para debaixo do tapete. Esconder os maus resultados até tem a vantagem de não traumatizar os maus alunos e não os desmotivar. É o que está a ser feito na Califórnia, onde há um movimento que, com sucesso, quer impedir as escolas públicas de lecionar assuntos avançados de Matemática (ou, pelo menos, adiar a sua introdução para anos mais avançados). Também Cambridge, em Massachusetts, retirou Álgebra e Matemáticas Avançadas das junior high schools (que corresponderá ao terceiro ciclo do ensino básico), argumentando com questões de equidade social. Isto está a acontecer em Estados democratas e são, alegadamente, políticas progressistas.

Já os reacionários do Texas, mais especificamente de Dallas, fazem o oposto, tornando a frequência de disciplinas avançadas de Matemática a regra para todos e não a exceção para miúdos privilegiados. Os resultados foram muito bons, reduzindo-se bastante o fosso entre diferentes classes sociais e etnias. Quem diria que o gap educacional se resolve com mais exigência e não com menos?

Para quem acredita na Teoria da Sinalização, varrer para debaixo do tapete os maus resultados das classes desfavorecidas pode parecer boa política, mas, para quem advoga a teoria do Capital Humano, é um desastre. Até porque, como é óbvio, os miúdos das classes favorecidas nunca ficarão para trás em Matemática: o Estado pode falhar, mas estará lá a família para suprir as falhas públicas.

O exame de Matemática deixar de ser obrigatório para os alunos de Ciências e Tecnologias ou de Ciências Socioeconómicas não é propriamente um crime, mas é mais um passo errado que emperrará ainda mais o elevador social que a escola está a deixar de ser.

Professor de Economia da Universidade do Minho