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A degradação do ensino – Luís Conraria

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Quarta-feira, a minha filha mais velha participou na segunda eliminatória das Olimpíadas da Matemática deste ano, categoria júnior, correspondente ao 6º e 7º ano. Quando chegou a casa, claro, obrigou-me a resolver com ela a prova para poder aquilatar as probabilidades de chegar à final. A prova era interessantíssima (parabéns aos seus autores), exigindo alguns conhecimentos de Matemática — não muito avançados, diga-se — e bastante destreza de raciocínio. E, mais uma vez, pude confirmar o que já sabia: o ensino atual é bem mais exigente do que era há umas décadas e exige das crianças bem mais do que boa memória.

A excelência do ensino dos nossos pais não passa de um mito. Lembro-me de a minha sogra, para me convencer de que há 60 anos a escola primária era muito exigente, me contar que teve de decorar todas as estações de comboio e todas as minas de Portugal. Em jeito de brincadeira, respondi-lhe que não lhe servia de muito já que as minas e as estações estavam todas fechadas. Confunde-se exigência com dificuldade. Claro que é difícil e chato decorar todas as estações de comboio de Portugal. Mas não tem nada de exigente. Na verdade, é um exercício bastante estúpido.

Esta mitificação do ensino passado é ilustrada na perfeição por uma imagem que andou a ser partilhada nas redes sociais e que reproduzo. Nela sugere-se que o ensino é cada vez mais fácil. Em 1970, pedia-se para calcular a área de um retângulo, com dois cantos cortados. Depois o exercício vai ficando cada vez mais fácil até que, em 2018, pede-se à criança que pinte o retângulo e, em 2022, que faça um desenho com lápis de cera.

O que mais me surpreende é a forma acrítica como esta imagem é partilhada, com tantos a clamarem que no seu tempo é que o ensino era exigente. A única explicação possível é que não têm filhos. Ou, se os têm, não os acompanham na escola. Confesso, são muitas as dúvidas que as minhas filhas têm que não consigo esclarecer. No caso da disciplina de Português, então, já desisti mesmo de tentar perceber. Despacho-as para a mãe, que, por sua vez, as recambia para a irmã (professora de Português).

Mas voltemos à pergunta da imagem. A partilha é tão tonta que nem se apercebem que a primeira pergunta está errada. Não se trata de um retângulo, nem sequer de um polígono, como qualquer criança do terceiro ano saberá. Adicionalmente, nem é particularmente difícil. Uma criança do quarto ano só não saberia responder por não ter ainda aprendido a fórmula da área de um círculo.

Calhou, na altura em que vi esta imagem, estar a estudar com a minha filha do quarto ano o cálculo de áreas. No manual, encontro esta pergunta: “O pomar da avó da Inês tem forma retangular de 2,4 hm de largura e 270 m de comprimento. A avó quer plantar laranjeiras numa área equivalente a 1/5 do seu pomar. Qual é a área, em ares, destinada às laranjeiras?”

É apenas um exemplo, há perguntas mais fáceis e há mais difíceis. Não tem é qualquer correspondência com a caricatura que é feita do ensino atual.

Já agora, nas Olimpíadas de quarta-feira — para alunos com 11 e 12 anos de idade, lembro —, também pediam para calcular uma área. “O retângulo [ABCD] tem área 60 cm2. A área do triângulo [ABE] é um quinto da área de [ABCD] e a área do triângulo [EFC] é um oitavo da área do retângulo. Qual a área do triângulo sombreado?” Se o meu caro leitor não conseguir responder, pode sempre colorir a figura com lápis de cera.

Não vale a pena dar grandes voltas. A escola de hoje tem muitos defeitos e, sei-o bem, muito por onde melhorar. Mas é incomparavelmente melhor do que foi a nossa e a dos nossos pais.

Expresso

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