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A boa educação – Eduardo Sá

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Como se passa da boa educação e da obediência repressivas de antigamente – que faziam com que a autoridade dos pais fosse indiscutível e inegociável, e o respeito e o medo se confundissem – à boa educação, livre e serena, duma criança, sem que se fique atolado numa atmosfera de “criança-reizinho”, onde “tudo” se explique e “tudo” se permita, e onde os ritmos, as exigências e as agendas dos filhos prevaleçam sempre sobre os pais? Como se trazem regras e limites à educação de uma criança sem que, com isso, se espartilhe a sua autonomia e a sua espontaneidade e, ao mesmo tempo, sem que se resvale para a incapacidade de exercer a autoridade, que esgota, desampara e “desarma” muitos pais? Como se faz para que as crianças sejam vivas sem que tornem irrequietas e agitadas; sejam “cabeças no ar” mas, também, atentas; sejam “rabinas” sem que se tornem insolentes; sejam astutas sem que se tornem “abelhudas”; e reclamem sem deixarem de ser pacientes? Como se “controla” um filho sem o privar da liberdade? Como é que se mima sem que se “estrague”? Como é que se respeita e admira sem que isso o envaideça?

Será negociando que se educa? Será trocando gestos por recompensas que se cresce? Será que seduzindo que nos damos ao respeito? Será que é levando-as ao engano que elas se educam para a verdade? Será que “mandando” nos pais as crianças se sentem protegidas por eles? E será que não tendo barreiras que elas ficam mais seguras?

A boa educação não se opõe à felicidade das crianças. Porque o “não!” não é traumatismo. E contrariá-las não aprisiona os pais à culpa. E repreendê-las não as torna crianças frágeis ou quebráveis. Por isso mesmo, é urgente que reabilitemos a boa educação. Com esta ressalva: há sempre “bocadinhos” de uma criança que são “mal educados”. Mas crianças um bocadinho “mal educadas” não são a prova de que tenham maus pais!

Seja como for, não é razoável que as crianças ou sejam assustadas, obedientes e receosas ou “pequenas tiranas”. Elas podem ser felizes, vivíssimas e bem educadas! Assim tenham colo e carinho. Regras e  limites. Sejam escutadas e contrariadas. Protegidas sem ser fragilizadas. E autónomas sem ser desamparadas. As crianças bem educadas não são adultos em miniatura. Mas são, seguramente, mais felizes se, não deixando nada do que seja importante para elas só para si, não deixem de escutar, de saber esperar, de saber perder, de saber ousar e de conciliar todo o seu mundo com tudo o que mundo todo guarda para elas.

Observador