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Os males da educação não se devem à covid-19

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Há dias terminava um ciclo de conferências que adjetivo de excelente. Formação feita, relatório a redigir. A liberdade dada à escolha de abordagem das sessões em geral ou de alguma mais em específico levou-me a pensar que seria um pouco injusto tratar apenas uma no conjunto de tal paleta distinta de oradores, mas demasiado ambicioso seria igualmente um texto que as abordasse a todas, dado o rumo específico que cada uma tomou, apesar do tema central comum ser Sociedade-Cidadania-Educação.

Começarei por referir que esse meu destacado interesse se deveu ao facto da exposição se ter afastado grandemente do título/tema de apresentação que incluía a dupla do momento: Covid-Educação. Apesar do momento “vírico” em que vivemos, atribuir a esta doença muitos dos males da educação seria de todo injusto, porque, na realidade, as dificuldades sentidas nesta época específica são, na realidade, as de sempre, em que nos vemos absurdamente manietados no nosso trabalho por diretrizes absolutas, muito desalentados e mais ainda injustiçados. O computador veio a ser mais um modo dessas práticas ministeriais impositivas se fazerem, tendo havido, ainda, um alargamento temporal do período escolar.

Sei que me vou arrepender de ter escrito este texto porque terá sido uma perda de tempo, porque tudo o que aqui disser vai ser refutado pelas circunstâncias magníficas e normalizantes que vamos viver em setembro. Sei também que a este atrevimento verbal, com estas palavras, quase de nível da blasfémia sociopolítica, vão ser-me vedadas quaisquer hipóteses de ingressar nos corredores sumptuosos da política, simplesmente porque tenho a mania de que vejo mais à frente quando “quem” vê mais à frente são os telescópios; e se algum ser humano fosse bafejado com tal dom nunca seria um professor porque de tanto lhe dizerem o que fazer, quando fazer, como fazer e em que dez papéis o escrever muito perdeu do poder de iniciativa e de reivindicação (assumo que também por culpa dele próprio, portanto, mea culpa também). Parece que o livre-arbítrio deixou de existir para os professores. E onde estão os sindicatos no meio de tudo isto? Se alguém me falar do valor do trabalho dos sindicatos ultimamente eu atiro-me para o chão a rir, sem perigo algum que acabei de o desinfetar!

Muito evoluiu este termo, não se pode negar, mas eu ainda sou uma miúda (leia-se professora!) à moda antiga, conservadora, que, não se assustando de modo algum com a novidade, gostando muito até, porque entende que rima com modernidade, mas que não vê rima alguma com modernices. Penso então em contas, das de subtrair, que, não tendo grande ideia das do espaço-escola, conheço bem as do espaço-casa e do quanto economizo (em casa) quando não estou (em casa)! Água, luz, materiais de limpeza, alimentação, materiais de desgaste rápido, mobiliário… Mas, também, que sei eu de contas? Sou professora, e se eu soubesse realmente de contas, não deixaria fazer tanto o que me têm feito: roubar constantemente! Salário? Mas quem falou em dinheiro? Roubar dignidade, sim: dig-ni-da-de! Essa é a que me preocupa profundamente, porque impávida e serenamente me obrigam a ser como entendem, quando entendem, as horas que entendem, a lecionar o que entendem, porém, a pedir-me que crie espaço mental aos meus alunos, que os ensine a pensar por si próprios, a serem ativamente críticos, a participarem em projetos visionários; e até me dão liberdade sobre os modos de avaliação e depois pedem-me contas da avaliação segundo os seus próprios parâmetros.

Não as tenho… nem quero aqui apresentar as lindas teorias de vitimização, mas quem não se sente não é filho de boa gente! E custa-me ver o esforço que muitos professores fazem, para se fazerem notar, sempre como se estivesse alguém a observá-los, mas não por isso, mas pelo orgulho de serem bons; um orgulho que ninguém vê e, não vendo, até sabem, mas não reconhecem! Por que razão não me incluo nesse grupo de professores esforçados? Porque deixei de o ser? Obviamente que não, se o sentisse já teria desistido desta profissão, mas tenho pago o preço com projetos paralelos felizes que me fazem ver a minha profissão como uma profissão e não como uma forma de viver e, por isso, ainda sou professora contratada.

Gostaria de, em jeito de conclusão, deixar aqui um pequeno apontamento ainda mais pessoal sobre certas considerações que se fazem repetidamente: completamente consciente de que a pedagogia evoluiu e fazendo, nomeadamente, uso dos frutos tecnológicos dessa evolução, bem como do envolvimento em certos projetos, não posso deixar de desabafar o nervoso miudinho que me causa a sempre presente ideia de que agora é que se podem fazer coisas fantásticas na educação!

Julgo que esta tecnologia exacerbada do momento veio mostrar que uma aula se pode fazer sem computador, mas que até um computador precisa de um professor se de educação estivermos a falar. Portanto, recuso-me eminentemente a aceitar que as anteriores pedagogias de índole mais expositiva sejam vistas como retrógradas, dado que o tom de certas vozes, o entusiasmo das mesmas, foi, por si só, condutor de um grande bem-estar e de grandes aprendizagens feitas por mim. Se assim não fosse… eu seria muito malformada porque sou dessa geração de educação dita retrógrada, criada/educada em aulas expositivas das quais tenho das melhores memórias. “Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas”, dizia Rubem Alves, mas a escola será sempre uma construção humana, auxiliada pelas máquinas quando bem entendemos, nunca ao contrário.

Fonte: Público