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O livro, o digital e a diferenciação pedagógica – Elisabete Jesus

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No passado dia 1 de fevereiro, no Centro de Congressos de Lisboa, decorreu o primeiro Fórum Educação e Mudança (FEM), um encontro que centralizou a análise, o debate e as reflexões em torno das ferramentas tecnológicas e das competências digitais, enquanto fatores de mudança para uma educação de melhor qualidade.

E é aqui que se percebe que a desmaterialização dos manuais escolares tem feito emergir argumentos vazios e infundados, como o senhor secretário de Estado dizer que a diferenciação pedagógica não é compatível com o manual escolar mas com os recursos digitais.

  1. Diferentes tipos de fontes de informação para análise – mapas, documentos escritos, gráficos, pinturas, fotografias, caricaturas, textos literários, notícias, ilustrações;
  2. Questões de exploração das fontes variadas e com diferentes graus de complexidade, pois há alunos que precisam de atividades mais simples para sentirem que são capazes e, a partir daí, avançarem na conquista de outros patamares de dificuldade, assim como há aqueles que podem logo ser direcionados para as questões mais complexas;
  3. Diferentes propostas de trabalho, que promovem a pesquisa, a cooperação entre pares e de grupos de trabalho, a construção de recursos, a imaginação, o role-play, o pensamento crítico,  a comunicação;
  4. Fichas de trabalho prático com exercícios que desenvolvem diferentes competências;
  5. Atividades de interdisciplinaridade e metacognição, que podem ser o arranque para um projeto no âmbito dos Domínios de Autonomia Curricular;
  6. Recursos digitais em contexto, a que professores e alunos podem aceder e explorar.

Para além de tudo isto, os livros escolares agregam um conjunto de materiais suplementares para o professor usar com os alunos com necessidades adicionais de suporte, sobretudo quando há falta de técnicos especializados para que se faça a escola inclusiva, bem como materiais para alunos com maior facilidade de aprendizagem e que precisam de desafios constantes para se manterem ativos e motivados. Tudo isto existe, em suporte papel e no suporte digital. Por conseguinte, a diabolização de um e o endeusamento do outro não fazem qualquer sentido, quando se percebe que é da sua articulação e complementaridade que se consegue o melhor.

Felizmente, os professores sabem isso e não vale a pena dizer-se que as tecnologias é que são o arauto da pedagogia diferenciada. De uma forma natural, e na medida do exequível, a diferenciação pedagógica faz-se, já que se impôs como resposta à massificação da escola e ao propósito de levar todos os alunos à aquisição e ao desenvolvimento de uma base comum de conhecimentos e de competências. Diferenciar não é individualizar. É ter em consideração o indivíduo, mas com o objetivo de o acompanhar no contexto de um coletivo, porque há um “direito à diferença”, mas também há um “direito à semelhança” (Meirieu, 2012), sendo as duas faces do que todos pretendemos, a inclusão e o sucesso dos alunos.

Os resultados que temos alcançado no PISA e noutros barómetros são um sinal de que a escola trabalha bem, os professores, apesar de todos os obstáculos, trabalham bem. Será que se pode fazer melhor? Claro que sim, desde que haja da parte dos decisores um planeamento estratégico e um maior investimento nos recursos humanos e nos recursos materiais, de forma a promover a equidade e a diminuir as assimetrias sociais, que se espelham na escola. Urge recentrar os discursos e os atos no valor acrescentado dos professores, uma espécie em vias de extinção mas que faz toda a diferença.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico​

Fonte: Público

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