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Vamos à escola – José Tolentino Mendonça

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Há momentos, como este da estação atual, em que as interpretações sobre os perigos e as oportunidades são tão contrastadas que nos sentimos dentro do incipit de “História em Duas Cidades”, a narrativa que Charles Dickens dedicou à emergência da revolução francesa: “Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da loucura, a época da fé e a época da incredulidade, o período da luz e o período das trevas, a primavera da esperança e o inverno do desespero. Tínhamos tudo à nossa frente, não tínhamos nada à nossa frente…” Uma divisão assim acentuada de perspetivas é, por exemplo, aquela que se está a desenvolver a propósito da escola. De uma parte estão os que saúdam a chegada promissora do futuro, mesmo se nesta primeira fase ele chegue de rompante e nos encontre impreparados, no meio de muitas debilidades. Mas estas serão progressivamente corrigidas e o importante é que não se volte para trás, dizem. A rede escolar será mais qualificada e eficaz: em vez de termos, por exemplo, dezenas de universidades localizadas, cada uma com a obrigação de constituir um amplo conjunto de docentes para assegurar os seus cursos, os alunos poderão ter acesso aos melhores professores e iniciativas de uma determinada área científica, através da via telemática. A transformação a que assistimos já no domínio das publicações científicas, com o abandono da edição em papel e a formação de autênticas bibliotecas digitais, vai propagar-se às outras dimensões do ensino e da investigação, potenciando o trabalho deslocalizado, em rede e num quadro de internacionalização.

Mas há quem tema estas elucubrações. Em Itália são sobretudo os filósofos — e nomes reconhecidos como Agamben, Cacciari, Esposito ou Marramao — a chamar a atenção para a extrema delicadeza do que se pode estar a preparar. Neste grupo, Giorgio Agamben deve, talvez, ser escutado como “uma voz” à parte. “Uma voz” é, de facto, o título da coluna que ele mantém no site da editora Quodlibet, onde se tem posicionado, muitas vezes em radical solidão, contra a inconsistência ética e civilizacional deste estado de exceção. A sua tese é que “o nosso próximo foi abolido” e que esta nova forma de Estado, fundada sobre o medo, pretende que se fechem universidades e escolas, passando a funcionar tudo online, que “se troquem apenas mensagens digitais e que onde for possível as máquinas substituam todo o contacto entre os seres humanos”. As outras vozes, porventura com entoação diferente mas na mesma direção, recordam que seria um absurdo voltar ao dualismo cartesiano, em que a mente tem o primado, julgando assim poder dispensar o corpo, as emoções ou a tangibilidade da relação educativa enquanto prática colaborativa e comunitária. Não é possível excluir o corpo da escola, pois é através dele que damos significação ao mundo, maturando os diversos saberes e exercitando a responsabilidade pela inteira existência. Num abaixo-assinado que o grupo de filósofos italianos promoveu, recorda-se que “o termo escola não quer dizer aprendizagem mecânica de noções, nem coincide com o martelar dos dedos num teclado, ou com a subordinação aos motores de busca. Quer dizer, sim, antes de tudo sociabilidade, em sentido horizontal (entre colegas) e vertical (com os docentes), dinâmicas de formação omnilateral, crescimento intelectual e moral, maturação de uma consciência civil e política”. Mas para isso, insistem, é necessário evitar a liquidação da escola na sua configuração tradicional. Eis um debate decisivo do presente.

Fonte: Expresso

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