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“Todos os docentes passaram na difícil tarefa de ensinar a distância.” – João Carrega

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A pandemia de Covid-19 veio mudar aquilo que a resiliência das escolas e a sua comunidade nunca conseguiu alterar: olhar para as novas tecnologias, em particular para os dispositivos móveis, como uma ferramenta útil para ensinar. Num ápice as aulas passaram a ser ministradas a distância. Alunos e professores reinventaram o modo de ensinar e aprender, na maioria das vezes sem a preparação adequada (de um lado e de outro).
Essa ausência de formação específica (no ensino superior isso não foi muito notório) está espelhada num recente estudo, desenvolvido por um conjunto de investigadores do ensino politécnico e universitário, onde implicitamente se refletem as dificuldades por que todos os docentes passaram na difícil tarefa de ensinar a distância.
De um dia para o outro, a pedido da mesma escola que durante décadas empurrou o desenvolvimento tecnológico e os seus instrumentos (como os dispositivos móveis) para dentro da gaveta, professores e alunos tiveram que os utilizar. Numa lógica de achamento, sem regras muito bem definidas, mas com uma dedicação e empenho enorme por parte da maioria dos professores e dos alunos. A relação computador emissor-computador receptor em aulas síncronas não foi única. Os tablets (ainda na perspetiva de emissor e receptor) e os telemóveis (mais na condição de receptores) entraram no jogo. Em muitos casos foi a solução encontrada.
Os jovens estudantes nasceram com a tecnologia dentro de si. Não são só os nativos digitais, como Mark Prensky os definiu, mas também toda uma geração Z, que nasceu entre 95 e 2010, que sendo nativa digital surge com um upgrade natural, tratando por tu os dispositivos móveis, o acesso à internet e todo esse mundo digital. Jovens que olham para o seu smartphone como algo que faz parte deles próprios. Em muitos casos dominam melhor essas ferramentas que os seus professores e os seus pais.
Esta realidade deve fazer com que a escola olhe para esta questão como uma oportunidade. A pandemia impôs, de forma repentina, tarefas para as quais professores e alunos não estavam preparados (com exceção do ensino superior, em que genericamente o ensino a distância decorreu de forma muito positiva). A resiliência à mudança, o medo do desconhecido e de não se dominarem essas ferramentas, impediu, durante anos, a utilização de dispositivos móveis na escola. Aliás, dentro da escola, em muitos casos, o uso do telemóvel esteve (e ainda está) proibido.
Uma das questões que se coloca ao ensino, sobretudo ao ensino superior, é a necessidade de formar alunos para profissões que ainda não existem. São necessárias formações sólidas, objetivas, rigorosas, mas ao mesmo tempo de banda larga. Neste processo, a literacia digital e a utilização dos dispositivos que lhe estão associados são fundamentais. Esta é uma questão que as próprias academias têm discutido e que no último Encontro Internacional de Reitores – Universia 2018, que reuniu mais de 700 responsáveis de universidades e politécnicos de todo o mundo, numa iniciativa do Grupo Santander, esteve em destaque.
Há 500 anos atrás, a utilização dos livros também não foi vista como um bom método de aprendizagem. A prática era a memorização em vez da utilização e da consulta. Hoje, cinco séculos depois, a discussão parece contrariar o dia a dia de cada um.
Todos nós utilizamos as novas tecnologias, em casa, no café, no trabalho. Mas no que respeita à escola, teve que surgir uma pandemia a impor procedimentos para se tirar partido dessas mesmas tecnologias. Não quero com isto dizer que o mundo digital e o recurso a esses dispositivos vem resolver todos os problemas e que a sua aplicação é fácil. Nada disso. São recursos bem mais complexos do que o livro o era há 500 anos, que exigem formação, método, estratégia e regras. São poderosos e por isso reclamam cuidados redobrados. O último período letivo demonstrou que a escola pode e deve conviver, no seu dia a dia, nas salas de aula ou num ensino a distância, com eles.

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