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Tirem as crianças de casa (não das escolas) – Henrique Raposo

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O encerramento das escolas foi uma consequência do medo dos pais em relação à saúde dos filhos, um medo compreensível, sim senhor, mas destituído de base científica. Neste e noutros aspectos da pandemia, os governos cederam ao medo e ao algoritmo do facebook, deixando de lado a ciência. Agora, meio ano depois, o consenso científico é ainda mais claro: as crianças não são o alvo do vírus e, ademais, as escolas cheias não são amplificadores do vírus. Vários países europeus já comprovam esta tese na prática.

O regresso das escolas é a medida fundamental para recomeçarmos a nossa vida sem este torpor que nos coloca num não-tempo. Sem os filhos nas escolas, os pais não podem voltar à sua vida e, acima de tudo, uma geração inteira de crianças e jovens fica comprometida do ponto de vista mental, social e profissional. Nas suas colunas de sábado, João Vieira Pereira e Ricardo Costa salientaram os aspetos exteriores deste problema: o fecho das escolas sublinhou as assimetrias económicas; o fecho de escolas e universidades pode criar “a geração impreparada”; as escolas fechadas impedem o regresso de qualquer tipo de normalidade económica, social, artística, etc.

Eu quero salientar o aspeto interior. Manter as crianças em casa é pior do que mantê-las nas escolas, quer ponto de vista das doenças físicas ligadas ao sedentarismo, quer do ponto de vista das doenças e perturbações mentais. O #ficaremcasa pode criar uma epidemia muito pior do que a covid-19: a devastação mental de uma geração de crianças e jovens que já tinha indicadores mentais (depressão, ansiedade, suicídio) em crescendo antes da epidemia.

O grande perigo não é a covid, é deixarmos os nossos filhos na prisão domiciliária da infância e juventude. E, como salienta este manifesto de um largo conjunto de psicólogos e psiquiatras, não basta abrir as escolas. As escolas têm de abrir com respeito pela dimensão emocional das crianças, isto é, não podem abrir apenas com preocupações ao nível da saúde física e da possível infeção. Uma escola pensada para ser um bunker anti-«vírus não é uma escola, é uma linha de montagem de ansiedade, depressão, diabetes de tipo II e obesidade.

Expresso

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