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TIMSS | Passa-culpas para o Passos – Luís Aguiar-Conraria

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Calhou estas semanas dar aos meus alunos o modelo de crescimento económico de Solow, senhor que ganhou em 1987 o Prémio Nobel da Economia. E, nesta semana em concreto, apanhei-me a dar uma variação do modelo que incluía o capital humano como ingrediente essencial para explicar por que motivo uns países são muito mais ricos do que outros. Nesse modelo, o capital humano não depende apenas dos anos de educação, mas também, e crucialmente, da qualidade do ensino. Quando chamei a atenção dos estudantes para esse pormenor, imediatamente me vieram à cabeça os últimos resultados dos alunos portugueses do 4º ano no TIMSS — Trends in International Mathematics and Science Study. Como certamente já sabe, a performance das nossas crianças foi bastante fraca.

Pode parecer um detalhe, mas não é. Vários estudos mostraram que, quando não se tem em consideração que países diferentes têm qualidades de ensino diferentes, os modelos são curtos para explicar as diferenças de riqueza entre países. Para me limitar a economistas famosos, refiro os trabalhos de Robert Barro, que ainda não ganhou o Prémio Nobel, mas que todos os anos é apontado como um dos favoritos. Robert Barro, ao tentar explicar porque são uns países muito mais ricos do que outros, chegou à conclusão de que a qualidade do ensino era mais importante do que a escolaridade média da população trabalhadora. E que forma encontrou Barro para medir essa qualidade? Precisamente exames padronizados, como os de PISA para adolescentes ou o TIMSS para crianças de 9 e 10 anos, que são ministrados internacionalmente. Para explicar o crescimento económico futuro, o valor preditivo destes testes — em especial os de Ciências e Matemática — é tão ou mais relevante do que a escolaridade média da população.

Portanto, se a massificação do ensino fez muito sentido no passado, e ainda faz dado o nosso atraso, é pelo menos igualmente importante não descurar a sua qualidade. Se, até 2015, os nossos resultados em testes internacionais melhoraram significativamente, os resultados do PISA-2018 já mostravam uma preocupante estagnação. Os resultados desta semana são mais assustadores: não estamos parados, estamos a retroceder.

Perante isto, não é aceitável que o secretário de Estado da Educação tenha como única explicação culpar o governo de Passos Coelho. Eu compreendo que durante o primeiro meio ano de um mandato se culpe o governo anterior por todos os males do mundo. Mas já passaram cinco desde que Passos Coelho foi apeado. Culpá-lo, e ao seu ministro da Educação, Nuno Crato, é o cúmulo da desresponsabilização.

O passa-culpas, ou o culpa-o-passos, se preferirem, é ainda mais patético se tivermos em atenção que o atual ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, se fartou de mexer na educação. Fê-lo sem critério e sem ser suportado em nenhuns estudos que justificassem as medidas. Que sentido faz culpar pelos maus resultados as metas curriculares definidas por Nuno Crato, quando uma das primeiras medidas de Brandão Rodrigues foi flexibilizá-las e permitir que as escolas não as cumprissem?

Foram várias as mudanças. Destaco o fim dos exames do quarto ano, que foram substituídos por provas de aferição no segundo. Supostamente, essas provas seriam muito úteis porque aconteciam a meio do ciclo: ao serem feitas no fim do segundo ano, permitiriam às escolas desenvolver estratégias para o 3º e 4º anos para superar as falhas identificadas. Os alunos que agora fizeram este teste do TIMSS beneficiaram de todas estas mudanças. E culpam o Nuno Crato e o Passos Coelho? Não é lata a mais? No mínimo, reconheçam que a prova de aferição no fim do segundo ano se revelou inútil e que não serviu para superar nada de jeito.

Antes de terminar, permitam-me que acrescente que esta mania de um governo fazer tábua rasa das políticas de anteriores governos é um sintoma, e possivelmente uma causa também, do nosso atraso. No caso do ensino, é ainda mais paradoxal. Se até 2015 os vários estudos internacionais mostravam que Portugal estava a melhorar consideravelmente, que sentido fez introduzir tantas mudanças?

Não só não se dá tempo para aferir se as reformas introduzidas pelo ministério de Nuno Crato foram boas ou más, como, depois, é impossível saber qual o efeito de cada uma das mudanças em concreto. Fazer uma avaliação séria de políticas torna-se impossível. Se falássemos de uma área ou de um sector onde nada funcionasse, ainda se compreendia a necessidade de tudo mudar. Assim, não. Até porque um bom sistema educativo deve ensinar-nos a assumir as nossas responsabilidades e não a passar as culpas para os outros.

Professor de Economia da Univ. do Minho

 

 

 

Expresso

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