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Tiago Brandão Ro… is still loading

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A 22 de Março de 2020, uma semana depois do fecho das escolas, o Ministro da Educação vai à RTP. Nessa entrevista, tranquiliza os portugueses: “Sabemos que temos uma percentagem muito significativa de estudantes que não tem acesso à internet e por isso estamos a trabalhar com as autarquias, presidentes de Juntas e de Câmaras. Os municípios tem sido exemplares na sinalização desses alunos, para lhes fazer chegar em suporte físico os materiais”. Foi há 338 dias.

Já a 9 de Abril, no Jornal das 8 da TVI, o Ministro afirma“Estamos a trabalhar com muitos parceiros para poder chegar a todos, os mais vulneráveis, aqueles que telematicamente não têm os meios para lá podermos chegar. É importante dar a todas as famílias a possibilidade de terem recursos para poderem acompanhar e termos verdadeira aprendizagem para todas as crianças”. Faz hoje 320 dias.

No dia seguinte, outra vez na SIC Notícias, o responsável máximo pelo Ensino garante: “(O) compromisso do Governo de, no início do próximo ano, termos um apetrechamento digital e estamos já a trabalhar com as operadoras para aumentar a capacidade de internet dos estudantes”. Foi há 319 dias.

Passado pouco mais de uma semana, a 20 de Abril, novamente na RTP 3, Tiago Brandão Rodrigues é taxativo“Relativamente aos computadores (…), cada vez são menos os alunos, principalmente no Básico, onde existiam tantas lacunas, que não têm meios telemáticos. Por outro lado, o Governo está a trabalhar para que em Setembro possamos ter maior conectividade e acesso universal a máquinas, a computadores ou a tablets, para todos os alunos do Ensino Obrigatório”. Há 309 dias.

A 24 de Abril, no programa de Cristina Ferreira, na SIC, o Ministro reconhece: “Sabemos que, infelizmente, ainda temos crianças e jovens neste país que não têm acesso a meios telemáticos”. Faz agora 305 dias.

Em 19 de Maio, na TVI, no programa “Você na TV”, em resposta a Manuel Luís Goucha, que diz que “há muitas pessoas que não têm computadores em casa”, Brandão Rodrigues assegura: Há menos agora do que havia no inicio deste processo”. Isso foi há 280 dias.

Por fim (e porque, se andar atrás de tudo o que Brandão Rodrigues disse nesta altura, não faço mais nada), numa conferência de imprensa, a 3 de Julho, o Ministro compromete-se“Ficou escrito no programa de estabilização que dotaremos as escolas, os docentes e os alunos, para o desenvolvimento de competências digitais do trabalho escolar e, no próximo ano lectivo, serão implementadas um conjunto de medidas, em diferentes fases, que possam lançar e alcançar a universalização do acesso a estas plataformas e a estes recursos e a estes materiais ao nível infraestrutural, adquirindo computadores que, prioritariamente, vão ser para os alunos da acção social escolar, como já foi dito, e desenvolver também um programa de capacitação digital dos docentes”. Foi há 218 dias.

Entretanto, acabou o ano lectivo, houve as férias de Verão, começou um novo ano lectivo, houve férias de Natal e continua tudo por fazer. Deve ser a isso que as pessoas se referem quando dizem que falta cumprir Abril. É Abril, mas de 2020, que foi quando o Governo começou a prometer computadores e ligação à Internet para as crianças poderem ter aulas online. Lembro que são crianças que têm conhecimentos informáticos na ótica do utilizador escolar português: vêem o Excel e sabem que é o do ministro das Finanças que não os deixa ter computadores.

Percebe-se agora a escolha de Tiago Brandão Rodrigues para a Educação. É um ministro perfeitamente identificado com a pasta. Como alguns dos alunos que tutela, Brandão Rodrigues andou o ano todo para fazer um trabalho e, chegado o prazo, não o entregou. A sorte dele é que este Governo sofre do mesmo problema do Plano de Vacinação e é impossível substituir ministros, uma vez que António Costa não previu uma lista de suplentes.

Seria fácil dizer que Tiago Brandão Rodrigues não conseguiu cumprir as promessas que fez nas várias aparições televisivas porque, em vez de trabalhar, estava ocupado a fazer promessas em várias aparições televisivas. Mas, além de fácil, seria também desonesto. Para já, ir à televisão repetir o mesmo discurso não tira assim tanto tempo; depois, seria partir do princípio que o trabalho de um membro deste Governo é cumprir as promessas que faz. Não é. O trabalho do ministro é, simplesmente, fazer as promessas.

Por isso é que não se pode acusar o Governo de propaganda. Propaganda vem depois da obra feita. “Atentem na grandiosidade desta obra, cidadãos!” Isto é diferente, trata-se de publicitar obra antes de vir a ser feita. “Ui, a grandiosidade desta obra! Tão grandiosa que nem sei se a vão conseguir abarcar, cidadãos!” Este tipo de bazófia não é propaganda, é prépaganda. Especificamente, esta acção do ministro da Educação enquadra-se na grande campanha de prépaganda sobre a informatização do povo português, a famosa Transição Digitalvez.

Em 1995, António Guterres anunciou a sua paixão pela Educação. Quase 30 anos depois, como todas as paixões tão antigas, a Educação está velha, gorda, ligeiramente marreca e o PS não lhe pega nem às 7 da manhã, quando acaba a música, acendem as luzes e na pista de dança não resta ninguém de jeito para engatar.

Seja como for, é muito bem jogado pelo Governo. Os alunos a quem já foram dadas condições não refilam, não têm razões para isso; os alunos a quem não foram dadas condições, também não refilam. Não que não tenham razões para isso. Não têm é meios para se queixarem nas redes sociais. É uma estratégia brilhante. Se um jovem sem aulas não se queixa no Facebook, faz barulho?

A verdade é que continuam a faltar 335 mil computadores. Que podiam ser apenas 334.999. Bastava Tiago Brandão Rodrigues prescindir do seu. É óbvio que não o está a usar para nada.

Só que é injusto culpar-se apenas o ministro da Educação. A responsabilidade maior é dos informáticos. O Governo ainda não conseguiu escolher os computadores que vai adquirir para a pequenada porque os especialistas em informática têm posições distintas e não chegam a um consenso sobre o melhor processador: Intel ou AMD? Até haver uma resolução, é impossível que o Governo se decida. Consensualizem-se, totós!

Observador

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