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Regresso | Sem desdobramento de turmas, distância de 1 m é impossível em muitas salas.

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Por todas as razões — pedagógicas, sociais, económicas —, voltar à escola em setembro é uma inevitabilidade. Só que o aumento de casos também. E é na forma como se vai conseguir gerir estes dois fatores que o próximo ano letivo vai decorrer. As regras, por mais apertadas que sejam, não vão conseguir evitar que haja contágios em espaços por onde chegam a passar dois mil adolescentes ao longo do dia e centenas de professores e funcionários.

“Quase todos os especialistas são unânimes quanto à possibilidade de haver uma subida dos casos no outono. A descida das temperaturas (no Hemisfério Norte) não ajuda, mas também há fatores como o recomeço das atividades escolares, que vai acontecer por toda a Europa. Por muitas regras que existam o risco cresce. E isso tem de ficar bem claro”, avisa o presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia, Paulo Paixão.

Da parte do Ministério da Educação, há a consciência de que a situação epidemiológica é volátil e de que ninguém consegue prever como estará a taxa de transmissão do vírus em setembro, muito menos nos meses seguintes. Por isso, são admitidos três cenários, que serão percorridos à medida que a situação piore e as autoridades de saúde o determinem.

O primeiro é o ensino presencial, com que todas as escolas vão arrancar a partir de 14 de setembro. Sempre com máscara, do 5º ano para a frente. E, “se possível”, garantindo “um distanciamento físico entre os alunos de, pelo menos, um metro, sem comprometer o normal funcionamento das atividades letivas”, lê-se nas orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS) e do Ministério da Educação enviadas às escolas na semana passada.

A recomendação para o regresso às aulas dos alunos do 11º e 12º anos em maio estabelecia como fasquia os dois metros. Agora, cai para um e só se der. O problema, avisam os diretores, é que muitas vezes não vai dar. “Para ter os alunos sentados a essa distância, teríamos de ter turmas mais pequenas. E isso o Ministério não permite”, lembra Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares. Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos Públicos, confirma: “As escolas estão cheias e as salas não esticam. Em muitos agrupamentos isso não vai ser possível.”

Na Secundária Alves Martins, em Viseu, uma das maiores do país, para o regresso às aulas presenciais ainda em maio, a direção acordou com outra escola básica próxima que recebesse parte das suas turmas. Mas em setembro essa solução não é possível, lembra o diretor, Adelino Pinto, explicando que em várias salas os alunos se sentam dois a dois na mesma carteira.

Escolas estão convictas de que mais cedo ou mais tarde será necessário avançar para ensino misto ou à distância. Os planos têm de estar prontos

“A transmissão do vírus é mais frequente quanto mais tempo for o contacto e mais próximo. Seria desejável uma redução do número de alunos. Não o fazendo é importante manter as turmas separadas e diminuir o número de contactos entre colegas, como forma de diminuir o risco de transmissão a várias pessoas”, defende Teresa Leão, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, lembrando ainda a importância do reforço de limpeza dos espaços e superfícies. A orientação está também prevista nas normas da DGS, mas aí é a escassez de funcionários e o trabalho redobrado que preocupa os diretores. O Ministério promete mais 600 assistentes operacionais, mas é fundamental que estejam nas escolas logo em setembro.

O PLANO B E C

É com ceticismo que o virologista Paulo Paixão olha para a redução da distância de segurança para um metro. “Mesmo com uso de máscara, que é muito importante, o ideal era ter um distancia­mento maior. Mas também percebo que seja difícil de outra maneira.” E mesmo a distância não é infalível. “Se a sala não estiver bem ventilada a concentração de aerossóis aumenta.”

E não é só nas aulas que o distanciamento vai ser difícil de cumprir. A DGS pede que os períodos de almoço nas cantinas sejam desfasados entre turmas, para evitar a concentração de alunos “sempre que possível”. E admite-se o recurso ao take-away, porque nas escolas que servem muitas refeições, a gestão vai ser complicada. “São 500 almoços servidos numa sala com 100 m2. Se quiser ter um aluno por mesa vou ter o período de almoço entre as dez da manhã e as quatro da tarde. Ou limitar as refeições a 15 minutos”, antecipa Manuel Pereira. Os balneários também não são grandes o suficiente para acomodar as regras que as autoridades de saúde têm emitido, alerta Adelino Pinto.

Dito isto e agora com a consciência de que são enormes os prejuízos de ter escolas fechadas e crianças a tentar aprender em casa, com tudo o que implica para a vida das famílias e para a economia do país, a ideia é tentar evitar ao máximo que surjam surtos. Ao contrário do que muitas vezes acontece, em situação alguma as crianças devem ir para as escolas se tiverem quaisquer sinais de doença. E os empregadores têm de perceber que os pais podem ter de ficar em casa, frisa Teresa Leão, apelando às famílias para que confiem nas autoridades de saúde: “Se surgir um caso, irão intervir, avaliar o risco na turma e na escola e tomar medidas.”

Um dos dados que joga a favor no regresso às escolas é a muito menor suscetibilidade dos mais novos desenvolverem doença grave. Sobre o seu papel enquanto agentes transmissores, as dúvidas são maiores: “A evidência que existe neste momento aponta para que a sua taxa de infeção seja menor do que nos adultos. Mas não sabemos muito bem a dinâmica da transmissão entre crianças porque estiveram muito protegidas ao longo deste período”, ressalva Paulo Paixão.

Nas escolas, há a convicção de que mais cedo ou mais tarde será mesmo necessário avançar para o ensino misto ou até integralmente à distância, e a verdade é que as direções vão ter de ter esses planos prontos antes do ano letivo arrancar. Arlindo Ferreira, diretor do Agrupamento Cego do Maio, na Póvoa de Varzim, já começou a fazê-los e pondera ter alunos só a ir de manhã e outros à tarde, para evitar concentrações, o que implicará também ter aulas dadas à distância, já que o horário não cabe todo num só turno. Com a noção de que cada escola terá de encontrar soluções diferentes consoante o número de alunos, a rede de transportes, as condições das famílias ou os espaços que tem. Em comum, partilham o desejo de que em 2020/21 os alunos não tenham todos de voltar novamente para casa.

FECHOS

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secundárias, em mais de 500, encerraram desde a reabertura a 18 de maio, devido a casos de covid. Fecharam ainda 3 jardins de infância, entre os mais de 3 mil abertos a 1 de junho, por causa de adultos infetados

Fonte: Expresso

 

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