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REGRESSO ÀS AULAS | Como as escolas se estão a preparar

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A visita começa no átrio da escola, mas para trás já ficou um problema — só há um portão de acesso que pode ser utilizado pelos alunos, o que impede a criação de circuitos diferentes de entrada e saída. E logo ali à frente há outro constrangimento. “Só temos estas escadas para o acesso às salas 1 a 4”, vai descrevendo a diretora do Agrupamento de Escolas Luís de Camões, em Lisboa. “Vamos pôr umas marcas no chão e tentar que subam pela direita e desçam pela esquerda”, continua Rosa Ralo.

À sua frente dois técnicos de saúde ambiental do Agrupamento de Centros de Saúde de Lisboa Central, elementos da Câmara e outro dos serviços municipais da Proteção Civil tiram notas, acrescentam perguntas, identificam pontos críticos e pensam soluções.

“É possível pôr esta porta a abrir para fora para que os alunos não entrem e saiam pelo mesmo sítio quando vão ao refeitório?”, questiona Ana Leal, do departamento de Educação da Câmara Municipal de Lisboa (CML). É que a porta aberta para arejar o espaço acaba por bater nas mesas e deixa de ser possível circular pelo acanhado refeitório, onde é impossível continuar a servir o mesmo número de refeições e respeitar as regras da Direção-Geral da Saúde (DGS). “Vamos ter de repensar esta situação. Aqui não há capacidade para mais de 10 ou 12 miúdos de cada vez”, reforça Ana Leal.

Nas últimas semanas, por iniciativa da CML, as escolas básicas (do 5º ao 9º) e secundárias da cidade têm vindo a ser alvo de vistorias destas equipas multidisciplinares para verificar planos de contingência, espaços e condições para o regresso às aulas de todos os alunos a partir de setembro, cumprindo as normas emitidas pela DGS e Ministério da Educação (ME). A ideia é corrigir o que ainda estiver mal, com a autarquia a garantir pequenos arranjos e intervenções que ajudem a maximizar e melhorar os espaços.

Só que a tarefa não é fácil. É como se a cada porta que se abre de cada espaço da escola — seja as salas de aula, a sala dos professores, o refeitório ou a secretaria — saltasse um conjunto de problemas para resolver e condicionalismos que é preciso ultrapassar ou, pelo menos, improvisar soluções que minimizem os riscos de transmissão do novo coronavírus.

FALTA ESPAÇO, FUNCIONÁRIOS E DINHEIRO

“É um puzzle muito complicado e há circunstâncias que não estão nas nossas mãos. Não consigo resolver o problema da dimensão das salas de aula. Mas a tudo o que estiver ao nosso alcance tentaremos dar resposta. É esta a mensagem de confiança que queremos passar os pais. Os problemas existem, mas só podem ser ultrapassados se todos colaborarmos”, acredita a diretora do agrupamento.

Das visitas às 53 escolas que vão receber esta primeira vistoria e uma segunda mais perto do início do ano letivo para ver o que foi feito, Ana Leal já consegue fazer um balanço aos problemas mais frequentes: “A maior dificuldade é a articulação dos horários e o número de alunos que frequentam cada escola. É complicado garantir o desfasamento entre os grupos e é muito difícil de cumprir o distanciamento físico nas salas de aula. Nas escolas mais pequenas é impossível esticar o espaço”, reconhece a responsável da câmara.

Nas salas de aula, na dos professores, no refeitório ou na secretaria há problemas para resolver

Rosa Ralo acrescenta mais alguns constrangimentos à lista. “Um dos grandes problemas das escolas é a falta de assistentes operacionais”, que no próximo ano vão ter trabalho acrescido em tarefas de limpeza e higienização dos espaços. Ao seu lado, uma das funcionárias vai também recebendo mais e mais indicações. É preciso retirar cadeiras da sala dos professores porque não podem estar mais de duas à volta das mesas; é necessário identificar salas, forrar com plástico todos os materiais não laváveis, incluindo assentos, guardar os muitos dossiês que estão na improvisada sala de isolamento para qualquer caso suspeito que surja. “Não me perguntem se tem casa de banho própria porque não tem”, antecipa-se Rosa Ralo.

Os técnicos vão percorrendo uma extensa check-list para garantir que os muitos itens são cumpridos.

“Barras de sabão, há? Têm de tirar. Só pode haver sabonete líquido. E máquina de secar as mãos, existe? Não pode funcio­nar”, apontam. “Isso já foi tudo tratado. E tapámos os bebedouros de água”, responde a diretora.

Mas o dinheiro não parece chegar para tudo. “Recebemos 5178 euros para comprar máscaras, gel e batas para todo o 1º período. Queríamos comprar dois tapetes de desinfeção, mas já vi que tenho de ficar por um. Estavam a pedir quase 100 euros”, lamenta a diretora, que ainda queria conseguir comprar uma máquina para ajudar na desinfeção dos espaços.

UMA SALA, UMA TURMA, DOIS TURNOS

Todos os dias há dez turmas que entram de manhã. À tarde muda o turno e entram outras dez. As do 5º e 6º anos têm aulas num dos lados do edifício e as do 7º ao 9º no outro. E o tempo para limpar os espaços entre os dois turnos não é muito. As próprias salas de aula são uma dor de cabeça, desta e de tantos outros estabelecimentos de ensino cujas turmas andam no limite máximo dos 28 alunos.

Segundo as normas da DGS e do Ministério, é obrigatório o uso de máscara a partir dos 10 anos e deve ser assegurada uma distância mínima de um metro entre alunos, “sempre que possível”. Na Escola Luís de Camões será possível em cerca de “70% a 80% das salas”, calcula outro elemento da direção. “Já não é mau”, respondem os técnicos de saúde ambiental. Para isso, a escola comprou 100 mesas individuais que vão substituir muitas das mesas duplas, para tentar garantir que ninguém partilha a mesma carteira.

Em todo o país, são estes os preparativos que as escolas estão a fazer, confirma o presidente da Associação Nacional de Diretores de Escolas Públicas, Filinto Lima. Estuda-se a disposição das mesas e a possibilidade de as refeições serem feitas em formato take away, para que os alunos não se juntem todos na cantina e possam comer noutros espaços da escola ou até levar para casa, se já tiverem acabado as aulas. Também para evitar concentrações tenta-se organizar o ensino por turnos, com turmas só de manhã e outras à tarde (com exceção das crianças do 1º ciclo, que têm a escola a tempo inteiro) e sem rotação pelas salas. “A ideia é sempre evitar aglomerações e reduzir o cruzamento entre pessoas”, explica, lembrando que muitas escolas vão estender os horários de funcionamento, abrindo às 8h e fechando às 19.

Se tudo correr bem e não surgirem surtos na comunidade que levem as autoridades de saúde a decretar o encerramento de escolas numa determinada freguesia, concelho ou região mais alargada — será evitado ao máximo o fecho generalizado, como aconteceu em março —, os alunos continuarão sempre a ir às aulas. É este o plano A do Ministério da Educação, que admite a existência de um B e de um C. No cenário intermédio, as escolas têm de se organizar no sentido de garantir um ensino misto, com parte das atividades nas escolas e outras em casa, mas com prioridade de ensino presencial para os grupos mais vulneráveis e para os mais novos, que não têm autonomia para o ensino remoto. Na pior das situações, as aulas voltarão a ser exclusivamente virtuais.

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