Início Educação Regresso à Escola Lá Fora | Multas, divisórias de plástico, bolhas de...

Regresso à Escola Lá Fora | Multas, divisórias de plástico, bolhas de alunos.

475
0

Multas, divisórias de plástico, bolhas de alunos. As estratégias para a reabertura das escolas nos outros países

Cerca de 110 mil pessoas já assinaram uma petição que pede ao governo britânico que deixe os pais escolherem, ou seja, pede que os pais não sejam obrigados a enviar os filhos para a escola enquanto a pandemia de Covid-19 no país não abrandar e enquanto os cientistas não concordarem que o regresso às aulas é seguro. A petição foi lançada por Jennifer Dunstan, que em julho dizia querer juntar quase 4.500 euros, para o caso de vir a ser multada ou ter de enfrentar um processo em tribunal por não levar o filho à escola na abertura do novo ano letivo no Reino Unido, noticiou o jornal Metro.

A britânica de 40 anos tem uma doença autoimune e é mãe solteira. O filho, Rio, tem nove anos e síndrome de Asperger. Jennifer receia adoecer (ou até morrer), caso o filho traga o vírus para casa, e deixá-lo sem ter quem tome conta dele — os avós também são doentes de risco. Mas caso Rio não volte à escola agora em setembro como as outras crianças no Reino Unido, a mãe arrisca-se a ser multada pela falta de comparência do filho. A alternativa para escapar às multas pelas faltas escolares é cancelar a matrícula, mas Jennifer Dunstan diz na petição online que demorou dois anos até conseguir colocar o filho na escola especial que agora frequenta e não quer perder a vaga.

As multas serão aplicadas como último recurso e apenas se não houver uma razão válida para a falta de comparência na escola, assegurou um porta-voz do Departamento de Educação britânico, citado pela BBC. Ainda assim, a pressão sobre as famílias e crianças é grande. Numa carta enviada ao secretário da Educação britânico, Gavin Williamson, mais de 250 psiquiatras alertam que forçar as crianças a voltar à escola pode desencadear crises de ansiedade graves. E o resultado irá dar ao mesmo: não vão conseguir frequentar a escola de qualquer maneira.

Mas a saúde mental das crianças, prejudicada pelo encerramento prolongado das escolas, é precisamente uma das razões que leva instituições como a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) a defenderem o regresso às aulas presenciais. Atrasos no desenvolvimento, problemas psicológicos, falta de alimentação e cuidados de saúde, perda de rendimento dos pais impedidos de trabalhar e ainda violência psicológica, física e sexual sobre as crianças, são alguns dos problemas apontados pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Além disso, fechar ou abrir as escolas não parece ter tido grande impacto na disseminação do vírus, concluiu o relatório do Centro Europeu para o Controlo e Prevenção das Doenças (ECDC), divulgado no início do mês de agosto. Não foi possível mostrar que o encerramento tenha contribuído para a diminuição dos casos durante a quarentena, nem foi demonstrado que a reabertura, após esse período, estivesse associada a focos de transmissão comunitária. O que não quer dizer que não tenham existido casos de infeção em escolas — mas antes que o risco pode não ser assim tão grande.

Mas há risco: “Os surtos nas escolas são inevitáveis”, diz Otto Helve, especialista em doenças infeciosas pediátricas no Instituto para a Saúde e Bem-estar finlandês, citado pela Science Magazine. Autoridades de saúde e governos por todo o mundo procuram as melhores soluções para abrir as escolas em segurança. Nas questões de etiqueta respiratória, higiene das mãos e limpeza das escolas todos parecem concordar. Mas no que toca a distanciamento físico, uso de máscaras, aulas por turnos ou regimes mistos de aprendizagem (presencial e online), as estratégias são muito diversificadas. Alguns países chegam mesmo a extremos difíceis de imaginar na Europa, como as crianças japonesas a comerem em silêncio, nas secretárias e sempre a olharem em frente, ou a decisão do governo queniano de só reabrir as escolas em 2021, com todos os alunos como repetentes.

O sucesso do Uruguai: regresso faseado e manutenção de aulas online

O Uruguai foi o primeiro país da América Latina a reabrir as escolas, graças ao sucesso que tiveram no controlo da pandemia — são o país com menos casos (1.551) e mortes (43) na região —, mesmo sem fecharem completamente a economia. “Houve um consenso sem precedentes entre os decisores políticos, a ciência e o mundo académico do país”, diz Gonzalo Moratorio, professor da Faculdade de Ciências da Universidade da República, de Montevidéu, citado pela DW. Além do consenso político, a baixa densidade populacional e o sistema de saúde robusto também ajudam a explicar os números reduzidos da pandemia.

regresso às aulas foi feito de forma faseada, começando no final de abril nas áreas rurais, onde há menos alunos. No início de junho, foi a vez de voltarem os alunos mais vulneráveis e os alunos do último ano do ensino secundário que vivem fora das grandes cidades. A etapa seguinte, a meio do mês, foram os alunos das áreas não urbanas e, finalmente, a 29 de junho, o resto dos alunos. Mas o regresso às aulas não significou o fim das aulas online: os alunos vão alternando para reduzirem a quantidade de pessoas por sala.

Foram detetados casos de infeção entre funcionários ou alunos, mas as situações foram rapidamente identificadas e controladas. Um dos últimos casos, noticiado pelo jornal El Observador, aconteceu a 28 de agosto: uma professora de turno testou positivo para o SARS-CoV-2, o que obrigou ao encerramento da escola, para desinfeção. As professoras com quem teve contacto vão ficar em quarentena e ser testadas, os restantes professores e alunos voltaram às aulas esta segunda-feira.

Suécia: alunos sem máscaras e uma oportunidade desperdiçada para estudar o vírus

As creches, infantários e escolas até ao nono ano continuaram abertas na Suécia, mesmo durante a pandemia. Só os alunos do secundário e universidade tiveram de frequentar o ensino online. As medidas recomendadas às escolas que se mantiveram abertas não foram demasiado rígidas: lavar as mãos com frequência, limpeza da escola pelo menos uma vez por dia, atividades ao ar livre e algum distanciamento social — com grupos mais pequenos de alunos e turnos alternados ao almoço —, refere o site The Local. A medida mais exigente foi, talvez, manter alunos e funcionários em casa ao mínimo sintoma de doença.

Sendo o único país europeu a manter as escolas abertas durante o pico da pandemia, a Suécia oferecia o contexto ideal para avaliar o impacto das escolas e das crianças na transmissão do SARS-CoV-2, mas o país não tem recolhido dados sobre os surtos nas escolas, mesmo quando professores e alunos adoecem ou os estabelecimentos têm de encerrar, segundo a Science Magazine.

Enquanto alguns investigadores se queixam da oportunidade de investigação perdida, Jonas Ludvigsson, pediatra e epidemiologista do Instituto Karolinska, diz que o vírus está tão disseminado na comunidade que não faz sequer sentido fazer o acompanhamento dos contactos das pessoas infetadas. “Só testamos indivíduos com sintomas. E eu concordo com isso.” Além disso, as leis de privacidade suecas não permitem que os pais de outras crianças ou mesmo os funcionários da escola sejam informados sobre os vírus de que as crianças são portadoras, a não ser que constituam risco de vida. O que não é normalmente o caso da infeção com SARS-CoV-2 nas crianças. Portanto, nem os investigadores têm acesso aos dados, nem os pais das outras crianças são, necessariamente, informados de que há um caso positivo na escola.

Um surto numa escola sueca, em Skellefteå, matou uma professora com mais de 60 anos e pelo menos 18 dos 76 funcionários foram infetados. Com tantos elementos da equipa doentes, a escola (que vai do pré-escolar ao nono ano) teve de fechar durante duas semanas, mas nenhuma das 500 crianças chegou a ser testada. Há relatos de, pelo menos, outras quatro mortes em escolas até meados de maio, mas nenhuma indicação de que tenham sido realizados testes ou que crianças e adultos tenham sido colocados em quarentena. O pediatra diz que não tem conhecimento dos casos e num artigo publicado na revista científica Acta Paediatrica disse que “não houve relatos de grandes surtos nas escolas suecas”, com base no que lhe tinha sido comunicado a título pessoal por Anders Tegnell, o epidemiologista responsável pela estratégia sueca para a Covid-19.

Os casos na Suécia começaram a descer rapidamente a partir do final de junho, cerca de duas semanas depois do fim do ano letivo. Anders Tegnell disse ao Observer que não acredita que a diminuição dos casos esteja relacionado com as férias, mas antes com mais com a imunidade desenvolvida pelas pessoas expostas ao vírus. O epidemiologista não descarta que possam surgir surtos localizados com o regresso às aulas e ao trabalho depois das férias.

O ano letivo na Suécia recomeçou no dia 19 de agosto, sem distanciamento físico, nem máscaras — mesmo para quem as quer usar —, conta um professor de uma escola internacional, na plataforma digital para professores TES. “Posso garantir que se entrassem na minha escola na próxima semana, no dia em que os alunos voltassem, nem iam perceber que houve uma pandemia”, escreveu no dia 12 de agosto. Os professores não apresentavam maior risco de adoecer do que os profissionais de outras áreas, segundo o relatório citado.

Até agora, no entanto, nenhum surto na comunidade escolar foi estudado e o seguimento dos contactos (com casos positivos) era, pelo menos até às férias de verão, limitado na maior parte do país, segundo um relatório que analisa a experiência nas escolas na Suécia e na Finlândia. Esta comparação coloca a Suécia, que não fechou as escolas, no mesmo nível da Finlândia, que fechou durante cerca de dois meses, mas as diferentes estratégias não permitem uma comparação tão linear: a Finlândia testa os casos suspeitos, mesmo sem sintomas, e a Suécia só testa doentes com sintomas; a Finlândia segue as cadeias de contágio nas escolas e a Suécia não procura saber com quem é que os infetados estiveram em contacto.

Japão: almoçar em silêncio na secretária sem olhar para os colegas

As escolas japonesas abriram no dia 25 de maio depois de terem estado encerradas desde março. Apesar da cautela e das medidas recomendadas, ao fim da primeira semana já havia registo de cinco alunos infetados: um deles desenvolveu uma febre ligeira que não foi detetada e os restantes quatro estavam assintomáticos, noticiou a agência de notícias Kyodo News.

Uma das medidas de proteção mais controversas surge ao almoço: os alunos devem tomar as refeições em silêncio nas respetivas secretárias — e sempre a olhar em frente —, o que é no mínimo desolador para Yukihisa Ishikawa, de 11 anos: “Uma boa parte do tempo de almoço é para conversar com os amigos enquanto comemos e se não podemos fazer isso é dececionante.”Aulas em dias alternados, filas com distanciamento marcado no chão para lavar as mãos antes de as aulas começarem e várias vezes durante o dia e uso obrigatório de máscara são outras das medidas implementadas, refere o jornal The Washington Post.

Adicionalmente, não se pode cantar nas aulas de música nem manter contacto nas aulas de educação física; os pais ou os professores devem verificar a temperatura dos alunos antes do início das aulas em cada dia; e muitas escolas retiraram as portas das salas de aula e mantêm as janelas abertas juntamente com o ar condicionado em funcionamento.

As regras aplicadas até ao final do ano letivo mantêm-se praticamente inalteradas depois das curtas férias de verão — que para alguns alunos não chegaram sequer a duas semanas. Com a reabertura a 17 de agosto, o uso de máscara nas aulas tornou-se menos rigoroso, desde que seja mantido o distanciamento físico, devido à onda de calor que atingiu o país, noticiou a Kyodo News.

Apesar das medidas restritivas, houve uma situação, ainda antes das férias, que despertou a atenção da população: 91 pessoas testaram positivo na Escola Secundária de Rissho Shonan, na prefeitura de Shimane, 88 elementos da equipa de futebol da escola, dois professores relacionados com a equipa e um jogador de basebol, avançou a agência Kyodo News. Das 88 crianças infetadas, 82 partilham o mesmo dormitório. Um homem de 70 anos que visitou o dormitório e três dos seus familiares também testaram positivo para o vírus.

Depois de conhecido o surto, a escola recebeu mais de 80 chamadas telefónicas a criticar o estabelecimento e a agredir verbalmente os alunos, conforme divulgou a Asia News Network. O blogue da escola, onde são publicadas informações sobre as atividades desportivas, também foi alvo de duras críticas, o que obrigou à retirada de uma fotografia com jogadores que podiam ser identificados. Até ao dia 24 de agosto, cerca de 50 alunos já tinham tido de recorrer a consultas de psicologia devido a problemas em dormir causados pelas mensagens difamatórias de que foram alvo.

Outros surtos associados a estabelecimentos de ensino ou equipas desportivas foram reportados, como os 24 casos na equipa de rugby da Universidade de Tenri, que partilhavam os dormitórios da universidade, ou as 10 pessoas que terão sido infetadas no clube de natação da Universidade Nihon, em Tóquio.

O Japão tem estado a enfrentar um aumento do número de casos desde julho, numa onda muito maior do que a que se viu entre março e maio. Uma equipa de investigadores britânica e japonesa alertou, na revista científica BMJ, que o país se preparava para assistir aos mesmos erros que tinham sido identificados na primeira vaga, como a incapacidade de alargar a capacidade de realização de testes no território ou campanhas de mudança de comportamentos que não foram eficazes. Além disso, os investigadores dizem que foi notória a tensão entre a política e a ciência na gestão da pandemia, resultando na dissolução do comité de especialistas em junho e no agravamento da falta de transparência.

Quénia: escolas só reabrem em 2021. Todos os alunos repetem o ano

O Quénia será, provavelmente, o último país a deixar os seus alunos regressar às aulas. A reabertura escolar está prevista apenas para janeiro de 2021, com todos os alunos a repetir o ano que estavam a frequentarnoticiou o jornal The New York Times.

O ano letivo que começa em janeiro foi interrompido em março devido ao encerramento das escolas por causa da pandemia de Covid-19. O ensino prosseguiu à distância, pela rádio, televisão e vídeos no YouTube, mas nem todos os alunos têm os mesmos recursos tecnológicos — alguns nem sequer têm acesso a eletricidade.

Estava previsto que os estudantes pudessem voltar às aulas em setembro, antes do final do ano letivo que costuma acontecer em novembro, mas a previsão é que o país só consiga achatar a curva de infetados a partir de dezembro. Neste momento, o Quénia regista 33.794 casos (65.º lugar em termos mundiais), 19.590 pessoas recuperadas e 572 mortes, segundo o Worldometer.

Mas, em julho, o secretário da Educação queniano anunciou a decisão de apagar o ano escolar de 2020 e fazer voltar tudo ao início. Os especialistas ouvidos pelo New York Times receiam, no entanto, que em vez de atenuar a medida acabe por agravar as desigualdades: as crianças com menos recursos podem não voltar à escola depois desta interrupção, a fome vai aumentar e há o risco de mais jovens ficarem grávidas.

O receio é justificado. Ainda não existem dados recolhidos a nível nacional, mas em cinco meses o condado de Machakos registou quase quatro mil gravidezes entre crianças e adolescentes. O problema já existia, resultando em grande parte do abuso sexual das raparigas, mas o encerramento das escolas aumentou a exposição ao risco ao mesmo tempo que limitou o acesso à educação sexual. As jovens grávidas correm ainda outros riscos: em 2017, 9% das mortes nos hospitais foi de adolescentes, e, entre as que sobrevivem, cerca de 98% desistem da escolaalertou o jornal The New Humanitarian.

Apesar de o governo dizer que o encerramento era válido para todas as escolas e que não haveria exames finais, muitas crianças de famílias com mais recursos e a estudar em escolas privadas continuam a ter aulas à distância, refere o NYT. Estas crianças podem tentar fazer os exames nas escolas internacionais e assim terminar o ciclo de ensino. Mas nem todas as escolas privadas aguentaram a crise provocada pela pandemia: houve quem tivesse transformado as salas de aula em aviários e os recreios em hortas, reporta a BBC.

Alemanha: 16 formas diferentes de abrir as escolas

A abertura de algumas escolas alemãs durante a primavera, após o pico da pandemia, foi um pequeno ensaio. O verdadeiro teste começou depois das férias de verão com algumas escolas a reabrir logo no início de agosto. Mas como cada um dos 16 estados alemães tem autonomia para determinar a data da abertura das escolas e as medidas a aplicar, e as várias regiões tiveram experiências diferentes com a pandemia, é difícil avaliar o comportamento do país como um todo.

A falta de um registo centralizado que permitisse analisar o que se passa nas escolas em cada estado fez com que o Instituto da Juventude Alemão e o Instituto Robert Koch, o instituto nacional de saúde pública, criassem o projeto Corona-KiTa. Neste estudo, os investigadores contarão com a participação das escolas de todo o país e vão também realizar testes de diagnóstico em alguns estabelecimentos. Os resultados vão sendo divulgado em relatórios mensais.

O estado de Mecklenburg-Pomerânia Ocidental registou as taxas de infeção mais baixas de toda a Alemanha e foi também o primeiro a reabrir as escolas para o novo ano letivo. Nem uma semana depois, no entanto, duas escolas foram encerradas devido a um caso de infeção em cada uma delas, obrigando centenas de alunos a voltar para casa por mais duas semanas, noticiou a DW.

Os estados de Schleswig-Holstein, Berlim, Brandenburg e Renânia do Norte-Vestfália também abriram as escolas em meados de agosto, mas com medidas bem diferentes, por exemplo, no que às máscaras diz respeitodestacou a revista Fortune. Se em Schleswig-Holstein o uso não é obrigatório, em Berlim e Brandenburg devem ser usadas nos corredores, cantinas e escadas — podendo ser retiradas assim que os alunos se sentam — e na Renânia do Norte-Vestfália as máscaras serão obrigatórias na sala de aula, mas só até final de agosto. A ministra da Educação alemã preferia, no entanto, que as máscaras fossem usadas por todos nos estabelecimentos escolares.

Cerca de duas semanas depois de as 825 escolas de Berlim terem reaberto as portas, foram identificados casos de infeção em 41 escolas e centenas de alunos e professores tiveram de ser colocados em quarentenanoticiou o jornal The Guardian. Em Berlim, os casos foram reportados em todos os grupos etários e nos vários tipos de estabelecimentos de ensino.

Israel: a criação de bolhas de 18 alunos, após o fecho de 240 escolas

Durante algum tempo Israel foi elogiado por ter conseguido conter a disseminação do SARS-CoV-2, graças às medidas restritivas impostas logo no início da pandemia. Mas com a reabertura das escolas a 17 de maio os casos diários de infeção começaram a aumentar, apesar das medidas recomendadas: aulas por turnos, uso de máscaras e distanciamento físico. A onda de calor que atingiu o país tornou o uso de máscaras insuportável e ao fim de três semanas, a 7 de junho, já havia, pelo menos, 360 estudantes, professores e funcionários infetados com o novo coronavírus. O resultado foi o encerramento de 110 escolas e a imposição de quarentena a mais de 16 mil elementos da comunidade escolar.

A escalada de casos não pode, no entanto, ser atribuída exclusivamente à abertura das escolas, visto que tudo abriu demasiado depressa, dizem os especialistas ouvidos pelo The New York Times. Contas feitas no final do ano letivo, em junho, 240 escolas israelitas tinham sido fechadas por apresentarem pelo menos um caso de Covid-19 e 22.520 alunos e professores ficaram de quarentena. Estes dois grupos juntos registaram 977 infeções com SARS-CoV-2.

Os alunos regressam às aulas agora a partir de setembro, mas só as turmas até ao segundo ano se mantêm com o mesmo número de alunos. Para os mais velhos é recomendado que formem grupos de 18 que farão parte da sua “bolha” (aqueles com quem podem contactar e com os quais têm aulas). E a partir do quinto ano, as aulas decorrem sobretudo online.

Coreia do Sul: início do ano letivo adiado

O ano letivo na Coreia do Sul começou a 9 de abril depois de vários atrasos causados pela pandemia de Covid-19. Apesar de todos os esforços feitos pelo país para conter o vírus, o primeiro-ministro Chung Sye Kyun considerou que ainda não era suficientemente seguro para os alunos voltarem a ter aulas presenciais, pelo que o ano letivo começou com aulas online.

Com a pandemia aparentemente sob controlo, os alunos voltaram às aulas presenciais no final de maio, mas o aumento do número de casos diários fez com que muitas escolas fechassem poucos dias depois e outras nem sequer chegassem a abrir até que a situação voltasse a estar controlada. De acordo com dados do Ministério da Educação, citados pelo jornal The Korean Times, 838 escolas (em 20.902) não abriram ou voltaram a fechar a 27 de maio, quando devia ter-se iniciado a segunda fase de reabertura das escolas.

Entre as medidas adoptadas para a reabertura das escolas incluiu-se, por exemplo, a instalação de divisórias de plástico nas mesas das salas de aula e do refeitório e a desinfeção regular dos estabelecimentos de ensino, noticiou o jornal The Washington Post.

Um dos casos de infeção entre alunos, reportado pelo jornal The Korea Times, foi um aluno do último ano do secundário que obrigou ao fecho da escola que frequentava, das escolas mais próximas e da escola básica frequentada pelo irmão mais novo.

O número de novos casos diários tem subido bastante desde meados de agosto. Como medida preventiva, algumas escolas na área metropolitana de Seul vão ficar fechadas até 11 de setembro, com os alunos a terem aulas online, exceto os alunos do último ano do ensino secundário que se mantêm nas escolas, noticiou a Kyodo News.

Estados Unidos: Trump quer escolas abertas o quanto antes

“AS ESCOLAS TÊM DE ABRIR NO OUTONO!!!”, escreveu o Presidente dos Estados Unidos no Twitter a 6 de julho, dando início a uma forte pressão para a reabertura dos estabelecimentos de ensino antes das eleições de novembro. Mas quanto mais o Presidente insistia que as escolas voltassem a funcionar presencialmente, mais os pais e professores se convenciam do contrário, segundo informação avançada pelo New York Times.

Mesmo sem a pandemia dar sinais de trégua no país, Georgia, Mississippi, Tennessee e Indiana decidiram reabrir as escolas no início de agostonoticiou a CNN. A distância entre as mesas nas salas de aulas, a medição da temperatura corporal e os almoços em pequenos grupos são algumas das medidas aplicadas.

Mas ainda antes de as escolas reabrirem, em meados de julho, já o número de infeções entre crianças tinha aumentado 90% nos Estados Unidos, segundo um estudo da Academia Americana de Pediatria e da Associação de Hospitais Pediátricos. E poucos dias depois de as escolas da Florida, Georgia e Mississippi reabrirem registaram-se os primeiros surtos.

A escola secundária North Paulding High School, em Dallas (Georgia), fechou depois de seis alunos e três adultos terem testado positivo. Pelo menos 22 escolas no Mississipi reportaram casos em adultos e crianças pouco tempo depois da reabertura. No dia 15 de agosto havia, pelo menos, 230 casos em escolas do Alabama, Georgia, Indiana, Missisippi e Oklahoma, que obrigaram à quarentena de alunos, professores e funcionários.

Com cada estado a adotar as suas próprias medidas de saúde pública e de reabertura das escolas, o site de lifestyle criado para os pais, Fatherly, mapeou as medidas criadas em cada estado, dos que continuam totalmente à distância aos que serão 100% presenciais, passando por todos os casos híbridos. Um dos distritos de Nova Iorque, o estado com mais mortes desde o início da pandemia, tinha, no início de agosto, 100% das escolas abertas parcialmente. A Califórnia, por sua vez, tinha 5% das escolas totalmente abertas, 93% com ensino à distância e 2% ainda indecisas, nos 42 distritos analisados. Na Florida, em quinto lugar no número de mortes, 80% das escolas, em 25 distritos, reabriram totalmente. O Alaska, um dos estados com menos mortes (37), só tem cerca de metade das escolas abertas totalmente, em seis distritos analisados, as restantes estão parcialmente abertas, a funcionar à distância ou indecisas.

site Fatherly reuniu também algumas escolas onde tinham sido reportados casos, ainda que não haja forma de provar se a transmissão se deu dentro dos estabelecimentos escolares ou em contexto exterior. A maior parte dos exemplos reporta um ou poucos casos, exceto as escolas públicas do condado de Gwinnett, na Geórgia, que tinha 260 casos positivos ou suspeitos entre os professores. Na Geórgia, dos 13 distritos analisados, apenas 23% das escolas tinham aberto totalmente, estando ainda 69% a funcionar à distância.

África do Sul: primeiro abre, depois fecha e volta a abrir

Apesar dos protestos, a África do Sul avançou com a reabertura faseada das escolas depois de cerca de três meses encerradas. Primeiro, em junho, foram os alunos do sétimo e décimo segundo ano. Em julho, os alunos do sexto e décimo primeiro. Mas, depois, o governo teve de adiar os planos de reabrir para os restantes níveis de ensino devido ao aumento do número de casos no país, incluindo nas escolas. No espaço de um mês, após a primeira fase de reabertura, 2.400 professores e 1.260 alunos testaram positivo e 968 escolas tiveram de fechar.

No início de agosto um novo plano foi divulgado: os alunos do décimo segundo voltavam à escola na primeira semana de agosto, o sétimo ano na segunda semana, os restantes anos a 24 de agosto e apenas o quinto e oitavo ano a 31 de agosto.

Tanzânia: presidente anunciou que Deus livrou o povo da pandemia

As universidade e escolas secundárias da Tanzânia abriram no dia 1 de junho. O ministro da Saúde recomendou que alunos, professores e funcionários usassem máscara e respeitassem o distanciamento físico e que os estabelecimentos de ensino garantissem que havia sabão e pontos com água para a lavagem das mãos. Se há casos de infeção nas escolas (ou fora delas) não se sabe porque o Presidente John Magufuli proibiu que os números fossem divulgados e no início de junho anunciou que, depois de a população ter rezado e feito jejum, Deus os tinha livrado da pandemia.

Espanha e os campos de férias em Barcelona

Com as escolas fechadas desde março, o hospital pediátrico Sant Joan de Déu, em Barcelona, resolveu estudar as crianças que frequentam campos de férias de verão, onde a proximidade entre os participantes é equiparável à dos estabelecimentos de ensino, apesar de duas grandes diferenças: todas as atividades decorrem ao ar livre e com um máximo de 10 crianças.

Durante cinco semanas, os investigadores seguiram as mais de 1.900 pessoas (crianças e monitores) que participaram nas escolas de verão da área metropolitana de Barcelona, noticiou o El País. Neste período, detetaram 39 casos, dos quais 30 crianças. Estas crianças originaram 253 contactos dos quais 12 também testaram positivo. Com estes dados, a equipa concluiu que a capacidade de as crianças transmitirem o vírus foi seis vezes menor do que a da população em geral daquela região.

Os resultados ainda são preliminares, mas os autores quiseram apresentá-los antes do regresso às aulas, a 4 de setembro. Adicionalmente, verificaram que a capacidade de transmissão das crianças com menos de 12 anos é equivalente à das que têm entre 13 e 17; que o facto de estarem em grupos fixos facilitava a identificação dos casos secundários; e que os grupos que lavavam mais vezes as mãos — pelo menos cinco vezes por dia — tiveram taxas de infeção nulas ou quase nulas.

Austrália: o baixo risco de transmissão nas escolas

A maior parte das escolas na Austrália não encerrou durante a primeira vaga da pandemia, que durou até finais de junho e teve um máximo diário de 537 novos casos, a 22 de março (segundo o site Worldometer). Só depois desta data é que foi implementado o ensino à distância e recomendado que a presença física dos alunos fosse limitada, com exceção dos infantários e creches que continuaram abertos.

Dos 7.700 estabelecimentos educativos do estado de Nova Gales do Sul, o mais populoso do país, apenas 25 (15 escolas e 10 infantários ou creches) reportaram casos primários de infeção por SARS-CoV-2, entre 25 de janeiro a 10 de abril. Os 27 casos incluíam 12 crianças e 15 adultos — um número elevado para professores e funcionários que, naquela altura, representavam apenas 10% da população escolar.

Relacionados com estes casos foram monitorizados 1.411 contactos, dos quais 633 realizaram testes para detetar a infeção, mas apenas 18 resultaram positivos. Cinco destes casos secundários estavam relacionados com três das 15 escolas. Os outros 13 estavam todos ligados a um único infantário/creche e representaram 35% dos contactos que foram testados, reportaram os investigadores num artigo publicado na revista científica The Lancet – Child & Adolescent Health.

Foi recomendado às crianças e adultos que apresentaram sintomas ou testaram positivo que ficassem em quarentena durante 14 dias, mas frequentaram os estabelecimentos antes de a infeção ser detetada. Mesmo assim, e comparando com os vários surtos detetados em lares, casamentos ou serviços religiosos na mesma altura, a equipa do Hospital Pediátrico de Westmead defende que manter as escolas abertas “não parece ter contribuído significativamente para a transmissão do SARS-CoV-2”.

O aparecimento de casos também leva ao encerramento de escolas, como conta uma mãe ao New York Times. “Depois de meses de ensino à distância, os alunos do 11.º e 12.º ano em Melbourne voltaram às salas de aulas a 14 de julho. Para o meu filho, que está no 11.º ano, estas aulas presenciais duraram menos de uma semana.” A escola deste aluno foi encerrada no dia 20 de julho para limpeza e para rastreamento dos contactos, depois de um aluno ter testado positivo, mas a 31 de julho a escola ainda não tinha reaberto, porque ainda não se tinham identificado todos os contactos. Numa situação equivalente estavam outras 100 escolas do estado de Vitória.

Mas se a maior parte das escolas foram encerrando devido a um ou poucos casos identificados, outras apresentaram surtos maiores, como uma escola de Melbourne, o Al-Taqwa College, que chegou aos 113 casos de infeção em poucos dias, ou os 19 casos ligados à escola feminina da Opus Dei, em Sydney. Este surto na escola católica, já no terceiro período escolar, foi o primeiro no estado de Nova Gales do Sul. Tanto no primeiro período (referido em cima) como no segundo as autoridades não encontraram transmissão secundária entre os alunos.

“Acho que a situação que estamos a ver no terceiro período é indicativa de que há alguma transmissão na comunidade, em Nova Gales do Sul, que não foi detetada”, diz Kristine Macartney, diretora do Centro Nacional de Investigação e Vigilância de Imunização. “As escolas serão, provavelmente, a ponta do iceberg.” A investigadora considera que a transmissão está na comunidade e que é preciso identificar até que ponto está disseminada, para as crianças poderem regressar à escola de forma segura.

Divisão dos alunos em “bolhas” no Reino Unido e em Espanha

Muitas escolas na Europa só vão reabrir agora em setembro, umas no início do mês, outras a meio. Alguns países não chegaram a abrir depois de encerrarem em março, outros só reabriram as escolas pontualmente ou para as crianças mais pequenas.

França teve o primeiro ensaio entre meados de maio e o início de julho com medidas tão flexíveis que não exigiam sequer o distanciamento de um metro entre alunos, mas com o aumento do número de casos diários desde o início de agosto, os alunos do secundário vão ter de usar máscara, por exemplo. No entanto, nem os ajuntamentos na escola estão proibidos nem a distância de um metro é obrigatória, segundo o jornal The Guardian.

Cada um dos países do Reino Unido vai poder adotar as medidas de reabertura das escolas, incluindo se vão obrigar ao uso de máscaras na aulas, só nos corredores ou em nenhum dos dois. As principais recomendações do governo recaem na higiene (das mãos e limpeza dos espaços) e na divisão dos alunos em “bolhas protetoras”, noticia a BBC. Estas “bolhas” têm como objetivo fazer com que os alunos só tenham contacto com um número limitado de colegas, em todos os ambientes escolares, incluindo nos transportes, para minimizar o número de contactos e ser mais fácil isolar os grupos no caso de aparecer alguém infetado.

Em Itália, que foi o primeiro país a ser gravemente atingido pela pandemia na Europa, está planeada a contratação de 40 mil professores temporários e a compra de mais secretárias — medidas que não devem estar prontas antes de outubro —, noticia a Associated Press. Pais e professores, contudo, permanecem sem saber que outras medidas serão implementadas nas escolas que devem reabrir a 14 de setembro.

Apesar de estar a braços com um aumento do número de novos casos desde julho, Espanha também planeia reabrir as escolas no início de setembro — isto se as manifestações prometidas pelos professores não o impedirem. Entre as medidas planeadas pelas autoridades espanholas incluem-se a contratação de 11 mil professores, a construição de salas de aulas adicionais nos pátios das escolas e a promoção da criação das “bolhas” de contactos. Além disso, vão ser implementadas as já conhecidas medidas de higiene e limpeza, arejamento das salas, distanciamento de um metro e meio e uso de máscara obrigatório a partir dos seis anos, na escola e nos transportes escolares, noticiou o jornal El País.

Observador

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.