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Quem deve leccionar Português? Um contributo – António Carlos Cortez

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Segundo o que se lê na imprensa escrita, professores de línguas estrangeiras poderão leccionar a disciplina de Português no ensino secundário, “desde que tenham ‘estágio pedagógico habilitante’ ou ‘adequada formação científica’ nestas áreas”. É esta a resolução da Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE), entidade que igualmente propõe para a disciplina de Geografia a sua lecionação por professores de História. Tal realidade aplicar-se-á às turmas que tenham falta de professores dessas disciplinas. Não discuto a boa intenção desta proposta, mas confesso que, a implementar-se semelhante política, não se ganhará absolutamente nada no que à qualidade do ensino do Português importa.

Sendo o Portugal educativo o país que se sabe – reformas feitas a reboque das modas e modismos pedagógicos de importação e sem a devida análise do custo-benefício para os alunos e professores –, receio que a porta que se abre não mais se volte a fechar. Pode suceder mesmo que, com o acriticismo geral da classe docente (e em especial dos professores de Português), esta disciplina que, há anos, se vê desprezada pelos seus próprios docentes, veja, gradualmente, a responsabilidade do seu ensino transitar para colegas vindos de outras áreas.

Experimentalismos vários confirmam, ao longo das últimas duas décadas, o raciocínio daqueles que consideram que a disciplina de Português pode, no limite, não necessitar de professores de Português. Dois exemplos magnos: ter-se sujeitado milhares de alunos, entre 2002 e 2014 (ano em que a Literatura veio a ser reconduzida ao seu lugar central na lógica de ensino do Português, de que é a essência), à aprendizagem dos então chamados “textos transaccionais” (actas, currículos, regulamentos, ofícios, cartas comerciais…) e, espelhando bem o projecto oculto de muitos decisores educativos, considerar que o ensino da Língua Portuguesa pode dispensar o estudo do texto literário.

O argumento é sempre o mesmo: ir ao encontro dos interesses dos mais jovens de maneira a que possam estar motivados para a leitura. Não se concebe que um aluno, justamente por ignorar o seu património literário, se sente fascinado face à poesia de Camões, ou dos trovadores; se sente desafiado perante o mundo relatado por Fernão Lopes, ou até mais apto a compreender o nosso tempo se souber – ao nível do texto – inferir quanto Cesário ou Pessoa antecipam esta nossa época, também ela entregue aos tubarões do progressismo.

Se, em virtude do pouco tempo disponível e da quase absoluta ausência de leitura de crítica e ensaio, muitos são os que, leccionando Português, continuam a seguir uma explicação dos textos próxima das sempre equívocas leituras biografistas – imagine-se o obstáculo que será o soneto “Cá nesta Babilónia”, ou (o mais escolar) “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, para um colega que, desde a licenciatura (ou desde o seu secundário!), não lê a poesia de Camões. E quem diz de Camões, pode dizer da poesia de quase todos os outros autores insertos no programa do 10.º ao 12.º anos. Falo de poesia, mas e o teatro? Ou o romance? Que abordagem há, nas línguas estrangeiras, ao texto literário? Por acaso, entre o 7.º e o 9.º anos, há conteúdos literários em inglês e francês? É de uma total incoerência esta decisão.

Além de, muito provavelmente, os colegas das línguas estrangeiras, na sua boa vontade, poderem vir a cair no experimentalismo pelo experimentalismo, substituindo os textos literários portugueses por outros textos que, apesar de escritos em português, estão mais de acordo com o modus operandi das disciplinas para que foram formados (lá iremos cair em testes sobre temas, consolidar-se-á a tendência para respostas curtas ou testes com cruzinhas, numa infantilização soez de alguns instrumentos de aferição de competências: veja-se a charada dos testes orais…), coloca-se uma questão de rigor científico. Noções de periodologia literária, de conceitos operatórios para compreender a génese e a evolução de dada obra (Os Maias, por exemplo, não podem ler-se sem o estudo aprofundado das noções de ‘biópsia’, segundo Cleonice Berardinelli, e sem o entendimento do que foi o ‘anti-britanismo’ para a Geração de 70, e mesmo para Cesário…), terão os colegas de línguas estrangeiras a “adequada formação científica”?

Por tudo isto é que me parece que, no horizonte, o que se pretende é transformar o Português numa disciplina onde vale tudo, sobretudo se esse tudo for feito por todos em nome de um imenso nada… Não sei como reagirão aqueles que, mais críticos e atentos, perceberem que o hábito pedagógico nas disciplinas estrangeiras não passa pela análise e comentário de texto… Pode suceder que um colega de francês ou de inglês pergunte “como dar” a crónica de Fernão Lopes, ou como motivar para o Frei Luís de Sousa… Se for culto pode lembrar-se de estabelecer alguns paralelos entre essas obras portuguesas e outras daquelas latitudes literárias (Garrett refere Shakespeare a propósito do seu drama…), mas é em termos de cultura literária que tudo periga…

Enfim, as contradições são tantas, mas já tão banalizadas, que não será de estranhar se daqui a poucos anos os professores de Português puderem (com a devida formação científica) leccionar Física e Química, ou Geometria Descritiva. Absurdo por absurdo…

Fonte: Público

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