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Psicólogos contra novas regras nas escolas. Dizem que poderá haver nova pandemia na saúde mental

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As escolas não terão todas as mesmas regras. As orientações do Ministério da Educação e da Direção-Geral da Saúde (DGS) servem de guia para as escolas definirem as suas normas. O uso de máscara será obrigatório para todos os alunos, mas apenas a partir do 5.º ano (exceção feita à Madeira que determina a obrigatoriedade a partir dos seis anos). Também todos os professores e funcionários terão de usar máscara na totalidade do espaço escolar. Mas a medição da temperatura à entrada da escola não é obrigatória. Com mais ou menos ajustes, as aulas arrancam entre segunda e quinta-feira da próxima semana.

Como irão reagir os alunos – e sobretudo as crianças – a este regresso, depois de uma parte substancial do último ano letivo já ter sido atípico, com aulas por videoconferência que acentuaram ainda mais a desigualdade social? “A escola é fundamental para o desenvolvimento harmonioso (psicológico, emocional e de aquisição de competências sociais) da criança não só pelo seu papel educativo mais formal, mas por toda a experiência que é ir à escola”, diz ao Expresso o pediatra Hugo Faria. “Esse papel fundamental da escola ficou muito prejudicado nos últimos meses pelas circunstâncias que todos conhecemos”, acrescenta.

“Fomos obrigados a tomar medidas para o controlo de uma emergência de saúde pública mas isto é algo que, sendo prolongado no tempo, poderá ter consequências muito graves para o desenvolvimento da criança”, refere. São consequências “que não conhecemos na totalidade”: “por mais que as tentemos antecipar, é sempre difícil a longo prazo percebermos a magnitude real dos malefícios deste período sem escola”. A manutenção das crianças fora da escola foi uma medida “sobretudo de proteção da população mais vulnerável, nomeadamente a mais idosa e os doentes crónicos”. “Na verdade, temos sacrificado uma geração para proteger o resto da população”, atalha o pediatra.

MINISTÉRIO E DGS “NÃO SE QUEREM COMPROMETER, COMO É COSTUME”

Como deve, então, fazer-se este regresso? “A experiência escolar tem de ser o mais normal possível. Sabemos que temos de assumir uma série de preocupações e de cumprir as normas, mas os professores e os agentes escolares, no global, têm de tentar ao máximo transmitir otimismo, bem-estar, interação social e alguma normalidade”, recomenda. Mas Hugo Faria concede: “É óbvio que é muito difícil pedir normalidade quando a situação é muito diferente do que era antes.” E antes as carências já eram muitas. As escolas queixam-se que o reforço de 800 profissionais especializados (psicólogos, educadores, mediadores e outros técnicos) e os 700 assistentes operacionais e técnicos contratados não chegarão para as suprir.

Aloísio Almeida, professor do primeiro ciclo há 20 anos, classifica como “dúbias” as orientações da tutela e da DGS. “Têm uma amplitude abrangente, que dá para dizer tudo e nada, porque eles não se querem comprometer, como é costume”, critica, em declarações ao Expresso. “É sempre no condicional: se for possível, as escolas devem ter isto e aquilo, quando eles próprios sabem que, na prática, isso não pode acontecer. Não há estrutura física ou não há professores suficientes ou não há salas suficientes. Eles fazem recomendações porque tinham de dizer qualquer coisa. Escrevem tudo sem dizer nada, sem se comprometerem”, acentua.

O professor não está sozinho nas críticas: um grupo de psicólogos e profissionais de saúde infantil e juvenil assinou um manifesto contra as novas regras nas escolas. À pandemia da covid-19 poderá somar-se uma pandemia de saúde mental, alertam. O distanciamento físico entre as crianças na sala de aula, o uso prolongado de máscara, a redução dos tempos de intervalo ao ar livre e a proibição da entrada dos pais na escola são as quatro medidas que mais contestam. De facto, só em situações excecionais e quando a sua presença se revelar imprescindível é que os encarregados de educação poderão entra na escola – de máscara.“OS PROFESSORES PODEM SENTIR INSEGURANÇA E PASSÁ-LA ÀS CRIANÇAS”

Aloísio Almeida aponta duas situações distintas: uma em que as crianças já conhecem os professores e os colegas, tratando-se então de um reencontro, e outra em que não os conhecem. No primeiro cenário e no caso de alunos do primeiro ciclo, “sempre mais afetuosos”, as crianças vão querer “abraçar, cumprimentar, dizer que tiveram saudades”. “Se nós estamos lá, elas vão achar que é minimamente seguro” mas depois, adverte, pode gerar-se “um contrassenso”. As crianças vão pensar: ‘então é seguro e o professor está de máscara e nós não?’, equaciona o professor, o que o leva a questionar por que motivo “só a partir do segundo ciclo” é obrigatório o uso de máscara.

Desde cedo nesta pandemia se percebeu que as crianças não pertencem a um grupo de risco e, no entanto, podem ser transmissoras do vírus. “Um fio de cobre pode não ter o choque acumulado em si, mas é um condutor que pode provocar choque numa pessoa”, compara. “Percebo que é complexo as crianças usarem máscara. Até mesmo para nós, adultos, é difícil”, reconhece, sinalizando que os problemas não terminam neste ponto. “Não há forma de conseguir o distanciamento necessário dentro de uma sala de aula porque o número de turmas não foi reduzido, logo é fisicamente impossível”, sentencia.

No segundo cenário, aquele em que não conhecem os professores ou a turma, “as crianças vão ficar apavoradas” e aí será necessário que “o adulto lhes transmita segurança e não faça de conta que não há um elefante na sala”, aconselha o professor. É igualmente importante que “a conversa advenha delas e não de nós para respondermos ao que elas têm necessidade e não ao que julgamos que elas têm necessidade”. Novo problema: “muitos professores não vão saber gerir isto porque ficam na dúvida se as crianças serão transmissoras”, aponta. “Os professores podem sentir mais insegurança do que os alunos e o meu receio é que passem essa insegurança às crianças”, diz ainda.

O QUE FAZER SE UM ALUNO APRESENTAR SINTOMAS?

E se o aluno manifestar vontade de falar sobre o vírus enquanto o professor está a dar a matéria? “Não vale a pena colar com cuspo conhecimentos de 2+2 quando a cabeça não está ali. Primeiro faz sentido o bem-estar, depois vem o conhecimento dos livros que se adquire em qualquer altura”, sintetiza Aloísio Almeida. E se houver suspeita de um caso de infeção ou se um aluno apresentar sintomas? O Ministério da Educação e a DGS referem que o aluno deve permanecer numa sala de isolamento, obrigatória em todas as escolas, enquanto se contacta o SNS 24 e se avisam as autoridades de saúde locais e o encarregado de educação.

Mas essa é uma recomendação técnica. E o resto? “Na parte técnica, racional, do papel não haverá grandes falhas porque também não é uma ciência nuclear. Isso estará salvaguardo nas escolas em que é possível salvaguardar. A parte emocional, não”, rebate o professor. “O medo apoderou-se das pessoas. Alguém espirra e todos vão querer sair da sala. Receio que uma criança que manifeste algum tipo de sintomas seja logo arrumada para canto, até pelo próprio adulto, e isto passe o chamado efeito de histeria às outras crianças”, assinala.

O reforço ao nível da comunidade escolar não convence Aloísio Almeida. “Já nem estou a falar de nós, que não somos profissionais da mente. O rácio que existe nem sequer é suficiente para dar resposta, numa situação normal, ao número de alunos e familiares existente”, alguns já referenciados, outros que poderão vir a sê-lo, refere o professor. E dá o exemplo de uma escola que prefere não identificar: “Uma psicóloga, que não estava a tempo inteiro, para atender mais de 500 crianças, fora o número de professores. Se cada um tivesse direito a um minuto, ela não teria minutos semanais ou mensais para dar esse tipo de resposta. É uma aritmética simples.”

O pediatra ouvido pelo Expresso lembra que as orientações terão de ser “revistas”. “Isto é um fenómeno novo e dinâmico e temos de, aos poucos, ir adequando as medidas à evolução da pandemia e à forma como a sociedade está ou não a conseguir adaptar-se às medidas”, explica Hugo Faria. Por isso, não ficará surpreendido se nos próximos meses houver “alguns acertos, alguns ajustes”. O próximo ano letivo será “muito instável”, podendo haver “turmas que terão de ficar em quarentena e uma escola ou outra que terá de fechar pontualmente” – enfim, “poderá até haver a necessidade de aplicar restrições mais alargadas”, antecipa.

Expresso

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