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Professores apoiam as escolas fechadas e não querem planos extraordinários de recuperação -Luís Aguiar Conraria

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Um colega meu que tem os filhos numa escola de Braga que cumpre o horário completo de aulas à distância descobriu que a sobrinha, com sete anos, apenas tinha duas horas de aulas por semana numa escola em São João da Madeira. Mandou um e-mail à Direção-Geral da Educação a pedir esclarecimentos, perguntando se isto era legal. Não me parece que vá gostar da resposta.

O filho de um antigo aluno meu, que vive em Esposende, tem cinco horas por semana. Mas ele tem sorte. Noutro agrupamento de Esposende estiveram sem aulas online até há cerca de 15 dias. Por pressão dos pais, algumas turmas têm agora uma hora por semana. Uma conhecida que vive em Ponta Delgada contou-me que, no caso da filha, simplesmente não há aulas à distância. Como havia alunos sem acesso às tecnologias, a escola decidiu que não havia aulas para ninguém. A professora manda um plano semanal de trabalho e depois envia as correções para os pais verificarem o trabalho dos alunos. Num município que não identifico para não denunciar a professora, há um agrupamento que não permite aos professores estarem mais do que uma hora por semana. Há uma professora que está mais tempo, mas pediu aos pais para não dizerem nada, porque podia ter problemas com isso. Em Oeiras, há uma escola que tem 30 minutos à terça e à sexta-feira. Já um amigo que vive em Lisboa (Agrupamento de Escolas Professor Lindley Cintra) tem a miú­da com apenas 30 minutos de aulas por semana. Na mesma escola, há outra turma com zero minutos.

A minha filha, de oito anos, tem duas horas de aulas por dia, com um intervalo, pelo meio, de uma hora, para trabalho autónomo. Tem ainda duas aulas de Inglês por semana. O trabalho que está a ser feito na escola dela, o Colégio Leonardo da Vinci, é notável. Mas não se fique com a ideia de que os bons exemplos são apenas de escolas privadas. Um amigo de Esposende e outro do Porto, ambos com os filhos no ensino público, relatam-me ótimas experiências — em tudo semelhantes à da minha filha.

Tudo o que descrevi acima, com uma ou outra imprecisão, são casos reais. Mas não fique com a ideia de que são casos isolados. O Centro de Economia da Educação da Universidade Nova de Lisboa tem recolhido informação sistemática sobre este assunto. A variabilidade é enorme. Para se ter uma ideia, 15% dos alunos não têm acesso em casa a computador com internet.

Compreendo o desejo de muitos que pedem para que as escolas reabram já. Até porque as escolas do primeiro ciclo já reabriram na maioria dos países. Mas essa exigência é errada. Tal como a telescola que foi anunciada a 9 de abril serviu de desculpa para não se enfrentar a sério o problema das desigualdades que se iam criar, abrir agora as escolas por mais duas ou três semanas não servirá para nada.

O que se está a fazer com muitas crianças é um crime. Falamos de crianças do primeiro ciclo do ensino básico, que estão a aprender a ler, a escrever e a contar. Crianças de seis e sete anos que têm o cérebro em formação. Um atraso na aquisição destas competências pode afetá-las para a vida toda. Muitas já partem em desvantagem, dado o ambiente familiar de onde vêm. Não atuar agora de forma decisiva é condená-las.

Em Inglaterra e noutros países, há cada vez mais pressões para que as escolas abram no verão, para apoiarem os alunos que ficaram para trás. Em Portugal, a UNICEF pede o mesmo. Há escolas privadas que o vão fazer. O Colégio Mundos de Vida, escola bilingue em Famalicão, propõe uma escola de verão, integralmente em inglês, durante todo o mês de julho, aos seus alunos. Setembro funcionará como um quarto período letivo, onde apenas se consolidarão os conhecimentos do terceiro período. Apesar de as aulas funcionarem “normalmente” à distância, consideram necessário o esforço extra.

A 30 de março, assustado com a solução que se desenhava, escrevi que a forma como se ia lidar com as desigualdades criadas com o fim das aulas presenciais seria “o grande teste à governação socialista”. Para já, estão a falhar miseravelmente. E fazem-no com a conivência da FENPROF, sindicato de que me vou desvincular. Quando um Governo socialista e um sindicato comunista se marimbam para os danos causados nas crianças mais pobres, faz algum sentido dizer-se que a esquerda é pela igualdade? Não culpo só o Governo e o sindicato, afinal, se aceitam esta solução, é também porque não querem enfrentar nem a opinião pública nem os professores, que continuam a apoiar as escolas fechadas e não querem ouvir falar de planos extraordinários de recuperação.

Como me dizia um amigo, João Pires da Cruz, às vezes parecemos uma anedota: “Pega-se em qualquer questão, por exemplo a reação à epidemia, e percebe-se que a única coisa bem-sucedida foi aquilo em que era preciso não trabalhar. Em tudo aquilo em que seria preciso trabalhar falhou-se.”

Professor de Economia da Univ. do Minho

4 COMENTÁRIOS

  1. O problema não existe apenas no ensino obrigatório. Muitos professores universitários abandonaram completamente os seus alunos e não deram aulas online. Conheço um caso concreto da Faculdade de Letras de Lisboa, estando os alunos a pagar as propinas como se tivessem aulas presenciais e apenas lhes marcaram exames e a realização de trabalhos que implicavam a leitura de várias obras, estando o acesso à biblioteca da Faculdade fechado. Nem todos os alunos tinham a possibilidade económica de comprar os livros recomendados. Sei que isso aconteceu com alguns alunos, no entanto, outros professores, na mesma Faculdade foram dando aulas online. Cada professor agiu consoante entendeu. Portanto, quando se fala de professores e naquilo que foi feito durante o estado de quarentena, não se esqueçam de incluir os docentes do Ensino Superior.

  2. Que anormalidade de texto!
    Que condições deu o Governo/Estado aos professores para “darem” aulas online? Que meios lhes forneceu? Computadores? Tablets? Pagou-lhes a conta do telefone e da Internet? Sabe o autor do texto que uma grande parte das turmas do 1.º Ciclo são turmas mistas e que uma grande maioria dos professores está a trabalhar mais de 40/45 horas por semana, incluindo sábados e domingos? O que acho incrível é que ainda haja quem ache que tem direito a exigir mais… e mais… e mais!…

    • Concordo com a sua resposta.
      Pensam que o prof do 1ciclo entra 9h tem uma hora de almoço e às 15h sai
      Pergunto o Prof da Universidade faz o mapa do leite e dos Almoços???
      O prof universidade quantas horas tem de dar apoio a sua Universidade para além das horas letivas.
      Quem verifica a classificação do aluno?
      Nós temos de verificar a morada e depois ver onde tem vaga no agrupamento….
      Ou seja trabalho de secretaria. Por isso pensarem que estamos de férias, mas estamos a fazer todo este trabalho

      2metros por criança na sala.. não dá para as diretrizes

  3. Escrevem sobre o ensino obrigatório, e no pré escolar???? O que aconteceu??? Privado e publico fechado., mas as crianças não ficaram ao abadano, com propostas de trabalhos, sugestões de atividades quer pelo computador, quer pelo o whatsApp as crianças puderem ouvir histórias, aprender a dar laços nos sapatos, desenhar e até fazer o presente do dia da MÃE. Estiveram sempre ocupados mas aprender.

    Agora já vão ao Jardim Infância, só que ninguém se preocupa com as dimensões da sala. LEI 2metros quadrados por criança de parede a parede e depois os móveis onde estão jogos, outros móveis da área casa , móvel da construção móvel da biblioteca…e 25 CRIANÇAS.
    As diretrizes da DGS são incompatíveis com a Lei em vigor do M.EDUC.
    Os prof têm que RECEBER ORDENS diretrizes do M.EDUC . Ou assinadas pelos dois ministérios.

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