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Porque não estão preparados os professores?

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Corria o mês de abril quando uma simples aula de Inglês, transmitida na Telescola, se tornou viral no YouTube e nas redes sociais, dentro e fora do país. Largos milhares de visualizações, outros tantos comentários e partilhas tornaram famoso aquele que ficou conhecido como o ‘Rap dos Meses do Ano’, surpreendendo as duas professoras responsáveis pela aula. Felicitadas por alguns, criticadas por outros, as docentes quiseram ser cria­tivas e captar a atenção dos alunos num formato de ensino à distância para o qual tiveram poucas semanas para se preparar, quanto mais para improvisar.

PARAR PARA PENSAR Ao longo das próximas semanas, o Expresso e a Deco Proteste juntam-se para “Parar para Pensar”. Dos desafios do país aos novos hábitos, são oito temas e oito conversas que pode acompanhar através do Facebook do Expresso.

Este é apenas um entre muitos exemplos da capacidade de adaptação a um modelo de ensino de ‘emergência’ provocado pela pandemia da covid-19. “Os professores, empreendedores natos, conseguiram manter a funcionar, mas também elevar, dentro dos muitos constrangimentos, o ensino público”, acredita Filinto Lima, professor, diretor e presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). Uma opinião partilhada por Rita Coelho do Vale, professora de Marketing na Católica Lisbon, que afirma que “esta crise originou um empenho conjunto que permitiu que a educação continuasse a acontecer”.

O VERSO DA MEDALHA

No entanto, a pandemia veio também revelar ineficiências do sistema educativo que são antigas e estruturais. Por um lado, a falta de formação contínua dos docentes, a par com o (ainda) baixo nível de literacia digital e, por outro, a existência de equipamentos informáticos e de acesso à internet obsoletos, na grande maioria das escolas. “O pouco investimento na formação de professores para se adaptarem ao ensino à distância, a incapacidade de responder às necessidades dos alunos e das famílias no acesso a recursos digitais e a obsolescência das infraestruturas e equipamentos são algumas das insuficiências agora reveladas”, aponta David Justino, professor na FCSH e ex-ministro da Educação.

Rita Coelho do Vale acrescenta: “Deparamo-nos com docentes sem acesso à internet em casa e que foram dar aulas para locais inimagináveis, outros sem computadores que se reinventaram com telemóveis”, uma situação que, acredita a professora, é imperativo repensar ao nível das escolas e do Governo. “É preciso refletir sobre que meios devem ser oferecidos ao corpo docente, de modo a garantir que aproveitamos esta crise para desenvolver novas competências digitais.” Adotar políticas de médio prazo de forma a aproveitar melhor os recursos existentes no sistema é a sugestão de David Justino. Mas alerta: “Para concretizar essas políticas é necessária uma estratégia de qualificação e coragem política para a aplicar.”

Apesar de considerar que, por imperativos do trabalho à distância, os professores adquiriram e ampliaram as suas competências digitais, Filinto Lima defende que “exige-se agora que a escola acompanhe estes progressos com recursos tecnológicos atualizados, capazes de responder à proficiência alcançada em tão curto espaço de tempo, tão úteis para a melhoria do processo ensino-aprendizagem”. O presidente da ANDAEP refere ainda que é necessário reforçar a formação dos professores, também na área das novas tecnologias, e que “o Governo deverá abraçar o entusiasmo geral, dotando as escolas públicas do material informático (e rede wi-fi fiável) há muito tempo reclamado”.

Mas será que o ensino à distância veio para ficar? A resposta de professores e especialistas na área da educação é unânime e negativa. “A tecnologia é um meio e não substitui a escola”, afirma Rita Coelho do Vale. “O contacto presencial é imprescindível, assim como a socialização que se estabelece no espaço escolar, que potencializa o vínculo entre pares e o fortalecimento do espírito de grupo”, completa Filinto Lima, que conclui: “O futuro não passará pelo ensino à distância.”

VALORIZAR SABEDORIA E EXPERIÊNCIA É ESSENCIAL

O envelhecimento do corpo docente nacional — que, segundo dados do Ministério da Educação, conta com cerca de 40% de professores à beira da reforma — levanta um conjunto de desafios para a profissão e é também um espelho da sociedade portuguesa. Demograficamente envelhecida e com graves lacunas estruturais, nomeadamente no que se refere à falta de suporte financeiro para quem abandona a vida ativa, a sociedade não está a saber adaptar-se e ainda peca por ser “demasiado paternalista, retirando autonomia aos mais velhos”, aponta Constança Paúl, do Instituto Abel Salazar. Do ponto de vista so­cial e económico, “isto não é positivo, mas insistimos e ninguém discute, tornando a sociedade disfuncional”, completa Maria João Rosa, professora na FCSH.

Ambas acreditam, contudo, que a aposta no envelhecimento ativo deve ser um desígnio nacional, através da criação de condições financeiras dignas — melhores pensões e complementos de reforma construídos ao longo da vida profissional —, que depende da vontade de governos, empresários e sociedade civil, que, em conjunto, poderão orquestrar uma resposta que permita garantir a qualidade de vida de quem é mais velho. “Muito do nosso desenvolvimento será medido pela forma como tratamos os idosos”, acrescenta Luís Jerónimo, da Fundação Calouste Gulbenkian, lembrando que há, em Portugal, meio milhão deles que vivem sozinhos, sem apoio familiar e com baixos rendimentos. Aliás, segundo um estudo recente da OCDE, o nosso país está entre os três piores, em 28 analisados, também no que se refere ao número de cuidadores formais. Em média, revela a mesma fonte, há cinco cuidadores para cem pessoas. Por cá, este número desce para um em cada cem.

A mudança de mentalidades será, na opinião dos especialistas contactados pelo Expresso, fundamental para que toda a sociedade encare o envelhecimento com outros olhos. “Os mais velhos só são inativos porque os empurramos para isso”, defende Maria João Quintela, presidente da Associação Portuguesa de Psicogerontologia. “É preciso ter em conta que a maioria não está institucionalizada, não está doente, mas não é valorizada.” E isso tem de mudar, “reduzindo estereótipos”, conclui Constança Paúl.

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