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Pagamos a educação, e não a recebemos – Raquel Varela

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Pagamos a educação, e não a recebemos.

Nunca fui a favor de rankings, uma criação neoliberal. Não acredito que a base do avanço científico esteja na competição, mas na cooperação. Sou a favor de um ensino de qualidade, universal, público. E penso que ele pode ser massificado e excelente. Mas afirmar que os rankings não dão uma noção do país no campo da educação é desconhecer o país. Eles demonstram a realidade: a maioria do ensino privado é em média inferior ao ensino público; há um número de escolas, quase todas privadas, onde existe de facto aquisição de conhecimentos; a maioria das escolas públicas não passas de níveis médios medíocres, a coisa vai de médias de 12 a médias de 1,7 – em 20.

O lugar de onde saem estas crianças, no fim da escola, é o mesmo de onde partiram. Ou pior, na verdade, porque com a proletarização das classes médias e a massificação da tecnologia, e a desqualificação das profissões em geral, filho de médico pode ser cada vez menos médico, filho de operário será filho de operário, o próprio médico é proletarizado. Ou seja a escola não tem qualquer peso na mobilidade social. E atenção – estes rankings dão um panorama desolador – mas a realidade é ainda pior. Porque os critérios de exigência foram caindo com o tempo. Se compararmos hoje um 16 com um 16 há 20 anos, seria porventura um 12, talvez. Em termos de aquisição de conhecimentos de facto, concluiremos rapidamente que a maioria dos alunos em Portugal está negativo. Em suma, estamos pior.

Não se esperaria outra coisa de um cenário educativo em que não há carreiras, progressão nas carreiras, liberdade de ensinar, boa formação. Para que não pensem que acuso este ou aquele sector da educação, um dos problemas mais graves está na Universidade. Até ao início dos anos 90 os cursos tinham 4 a 5 anos, e um semestre era um semestre. Depois, Cavaco Silva inventou a via educacional e a via cientifica – esperando que quem ia ensinar devia saber menos. Veio o Processo de Bolonha, que foi a machadada final – cursos de 3 anos, em que um semestre é de facto um trimestre. É impossível garantir ensino de fundo nestes termos. Falamos em excelência, como meta, mas cada vez estamos mais longe dos mínimos.

Este é apenas um de vários problemas. Nos quais os docentes têm sido as vítimas mais massacradas e os Ministérios os responsáveis. Só há uma coisa que não se perdoa aos professores, e eu também sou professora. Não resistirem. Depois da derrota de 2008/2010, com Lurdes Rodrigues, os professores ficaram desmoralizados. Muitos aliás dizem-me aqui que tenho razão mas que a culpa é das “ordens das direcções”. Desculpem, a culpa é nossa que aceitamos, sem contestação, sem apresentar alternativas, as ordens. A culpa não é certamente das crianças e jovens – eles sim, são as maiores vítimas de todo este processo – e, no entanto, hoje quantos de nós não escutamos os professores dizer que a culpa é do “miúdo que não estuda”, que “não gosta da escola”, que é indisciplinado, e despachado para um curso menor ou o ensino (dito) profissional, que lhes garante uma via certa para os baixos salários.

A responsabilidade é à cabeça dos Governos. E é de quem não resiste a estes. E nunca dos alunos – sobretudo dos mais pequenos, que nada podem fazer contra uma escola que não os estimula. Por favor, não me venham dizer que o problema é falta de iPads e computadores, porque isso têm eles em casa e em todo o lado, estão horas enfiados nessa caixinha delirante. Salvam-se cada vez menos, como se viu nos rankings, os que em escolas excelentes têm poucos alunos, muito bons professores que trabalham em boas condições, e os que ainda podem pagar um professor privado (eufemisticamente conhecido como explicador). De lembrar que tudo isto acontece num país onde quem trabalha, operário ou professor, paga impostos como um condenado para ter educação de qualidade. E não a tem.

Fonte: Raquel Varela

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