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Os professores querem ou não trabalhar?

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Quem circula pelas redes sociais, como eu, só como mirone confesso, podia ter a tentação de responder que não, não querem!

Os comentários são mais que muitos contra tudo o que a tutela apresenta, circulam minutas de exclusão de responsabilidades, questionam-se formas de não ter de ir, pergunta-se afinal quais os grupos de risco. Por outro lado, temos os colunistas a requerer que os professores cumpram o seu dever cívico, que se apresentem nas escolas e sigam o exemplo de todos os outros profissionais…

Só que, se quisermos ser honestos, os professores serão porventura dos profissionais que maiores riscos correrão ao exercerem a sua profissão a partir de setembro.

Repare-se no seguinte. Todos os profissionais, de todas as áreas estão neste momento a cumprir as regras apertadas da DGS para evitar o contágio. Da restauração aos cabeleireiros, das grandes superfícies comerciais aos comerciantes de bairro, todos sem exceção terão de as cumprir, se quiserem ter o negócio aberto. As regras da DGS são três muito simples: Limite de lotação; máscara obrigarória e distanciamento de 2 metros. Até na praia, ao ar livre, pede-se que as pessoas cumpram, chapéus de Sol a 3 metros de distância, toalhas a 1,5m, circulação em passeio com máscara.

O problema está nas regras que a mesma DGS, em conluio com a DGEsTE, decidiu para escolas em setembro.

Que os sucessivos governos encarem a educação apenas como  fonte de despesa, não conseguindo prever o alcance de uma educação com qualidade, estamos habituados!

Que tratem mal os professores, também. Agora, o que ninguém estava à espera era que se alterassem as regras, mundiais, de combate à pandemia apenas porque se quer poupar uns cêntimos!

O que antes era obrigatório, 2 metros de distanciamento, deu lugar a 1 metro distanciamento aquando das primeiras orientações para 2020/21) e posteriormente ao “sempre que possível” e ao “preferencialmente”, até à ridícula afirmação do ministro:

“Os alunos vão caber todos na mesma sala. Não haverá desdobramento de turmas. A única obrigatoriedade é a máscara a partir do 2.º ciclo. O distanciamento não.””

As perguntas que deixo para os críticos dos professores são:

Quantos de vós encararíeis, tranquilamente, o vosso local de trabalho com cerca de, no mínimo, 250 pessoas, 180 das quais alunos sem máscara, num espaço fechado?

Quantos de vós encararíeis, tranquilamente, o vosso local de trabalho sabendo que o iriam partilhar durante 5 horas com mais 26 alunos sem máscara, ou mesmo com máscaras, uma vez que podem bem já nem cumprirem a sua função?

Quantos de vós encararíeis, tranquilamente, o vosso local de trabalho sabendo que passam anos inteiros sem sabonete líquido, sem toalhetes de mãos e onde o simples papel higiénico é racionalizado, quando há? Para não falar da falta de produtos de limpeza.

Quantos de vós exigistes à vossa entidade patronal todos os equipamentos de proteção pessoal e o distanciamento físico para regressarem ao trabalho?

Portanto os professores não são diferentes, tem todo o direito de exigir os que os demais profissionais exigem, como tem o direito de só se apresentarem ao serviço caso as regras de segurança sanitária estejam garantidas.

Perante isto, arrisco a garantir que os professores querem trabalhar, querem o ensino presencial, quer estar na escola em setembro com os seus alunos. Mas querem-no fazer com a máxima responsabilidade por eles e pelos alunos, com o rigoroso cumprimento das regras. Não admitem que simplesmente os mandem para as escolas e que seja o salve-se quem puder, como com certeza nenhum dos que está a ler quer que lhe aconteça o mesmo!

 

João Barbosa

 

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