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O Ministério geriu bem o ano letivo? – Duelo David Justino Vs Porfírio Silva

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SIM

Com menos de 100 casos conhecidos de infeção por covid-19, contra o parecer dos sábios, o Governo decidiu interromper as atividades escolares presenciais. De um dia para o outro, em coesão com as escolas, mobilizou modalidades alternativas de aprendizagem; forneceu orientações e recursos para a sua concretização, mais decisivos para os mais vulneráveis; pôs a funcionar a rede de escolas de acolhimento de filhos de trabalhadores essenciais e a rede de fornecimento de refeições escolares; repatriou centenas de docentes. Garantiu processos indispensáveis à continuidade da operação recorrendo ao digital: inscrição online nos exames, concurso de professores online, portal de matrículas online, ferramenta eletrónica E72 garantindo a resposta da administração até 72 horas.

O regresso parcial à escola presencial requereu a higie­nização de espaços, o fornecimento e distribuição de quantidades astronómicas de materiais e equipamentos de proteção, a montagem de novas rotinas escolares com garantia de segurança. Sem deixar cair o acesso ao ensino superior. Apenas exemplos da resistência ao canto de sereias várias para abortar o ano letivo: como isso teria sido trágico para os mais frágeis!

A extraordinária resposta da escola pública foi o resultado de uma parceria

A extraordinária resposta da escola pública foi o resultado de uma parceria entre os profissionais da educação, as escolas e o Governo, em partilha de sobrecarga com as famílias. Mas não se resolvem défices de décadas em semanas, nem no meio de uma pandemia. A imensa tarefa de responder ao agravamento das desigualdades, devolvendo crianças e jovens ao espaço de crescimento que a escola é, exige o uso de ferramentas construídas nos últimos anos, precisamente reforçando essa parceria multinível com mais autonomia das escolas e dos professores: perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, valorizando todas as dimensões educativas; aprendizagens essenciais, para pôr as aprendizagens à frente do cumprimento de programas irrealistas; autonomia e flexibilidade curricular, permitindo construir respostas à medida de cada contexto e alunos concretos; tutorias, para dar resposta a necessidades educativas diferenciadas, em proximidade com pequenos grupos de alunos.

Há tentativas de esquecer tudo isto. Vêm, por vezes, dos mesmos que se têm oposto à devolução aos professores das ferramentas para concretizarem, em cada escola, o direito constitucional à igualdade de acesso e de sucesso educativo.

Deputado do PS, vice-presidente do Grupo Parlamentar para a Educação

NÃO

Ninguém estava preparado para lidar com esta crise epidémica. Não havia soluções preconcebidas nem manual de instruções. Só nos restava um pouco de bom senso, informação de base científica que sustentasse a decisão, coragem e determinação. Tudo menos o refúgio no gabinete à espera que a crise passasse.

Qualquer balanço da ação governativa no domínio da educação e das escolas não poderá ignorar este particular contexto de incerteza.

Ponto de partida: uma semana de atraso — pelo menos! — no encerramento das escolas, quando algumas delas o haviam feito de forma voluntária e muitos pais já haviam retirado os filhos. Vários estabelecimentos de ensino superior tomaram a iniciativa de suspender as aulas presenciais logo na semana de 9 de março. Felizmente, o Governo ignorou o parecer do Conselho Nacional de Saúde Pública e acordou perante o facto consumado. Nesta primeira fase, o encerramento das escolas estava garantido até às férias da Páscoa.

Saibamos nós aprender com a experiência destes três meses, parcialmente perdidos

Ganhava-se tempo para poder encarar o inevitável: o 3º período estava perdido. O Governo deu prioridade a salvar o ensino secundário e os respetivos exames, de forma a garantir as condições mínimas de equidade no acesso ao ensino superior. Determinou a reabertura de aulas presenciais (condicionadas) para os anos de exame, reduziu e recalendarizou as provas. Fê-lo bem!

O pré-escolar e o ensino básico — a que deveremos juntar os alunos do 10º ano — ficaram “confinados” até ao presente. Três meses com alunos e professores em casa, tendo como alternativa os ecrãs da televisão e do computador. Enalteceu-se o regresso da “saudosa telescola” com bastante folclore mediático de permeio e as videoaulas tornaram-se o novo “chique” tecnológico. Contudo, o diabo está sempre nos detalhes.

Nem a maioria dos professores estava preparada para tão inovador desafio do ensino à distância nem um número significativo de alunos tinha acesso à rede de internet ou dispunha de computador. A nova “telescola” não conseguiu chegar ao nível de organização e de qualidade pedagógica que a sua antecessora, nos seus melhores tempos, lograra atingir.

Calculo que a preocupação de “ocupar” os alunos terá sido meritória e o esforço louvável, mas também reconheço que o balanço — a fazer mais tarde ou mais cedo — arrisca-se a não ter saldo positivo. Saibamos nós aprender com a experiência destes três meses, parcialmente perdidos.

Vice-presidente do PSD, ex-ministro da Educação

Fonte: Expresso

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