Início Sociedade O espírito do tempo – Paulo Fafe

O espírito do tempo – Paulo Fafe

205
0

…Batem nos professores, espancam médicos e enfermeiros, desobedecem aos pais…


Cada estado de espírito pode ser influenciado pelo tempo que faz, desde a alegria do dia soalheiro até à depressão dos dias chuvosos e pequenos. E todo o ser humano é o dia que faz, a rua onde mora, as amizades que suporta e o amor que recebe e dedica. Somos um caldo feito de muitos ingredientes, a muitos dos quais não nos podemos subtrair. Escolhemos a hortaliça mas não escolhemos a água onde ela ferve. Esta inevitabilidade traz às sociedades um conflito permanente. O choque de gerações não é senão uma luta de perpetuação do passado contra o presente. O passado vivenciado pelas gerações mais velhas tem em si a convicção de que pode preservar os seus jovens dos insucessos que eles vivenciaram. Chamam a isto experiência de vida. Não cuidam, no entanto, nesta sua boa e nobre intenção de defender os mais novos dos insucessos por eles vivenciados, que os tempos mudam e nessa mudança se ganham novos conceitos sociais. Esta mutação traz aos mais velhos o desconforto da perda e aos mais novos o aliciante da descoberta. Aqueles travam, estes aceleram. O mundo social é um caldeiro sempre em evolução e nunca será a água tranquila dum lago romântico. A sociedade do meu tempo educava para a obediência e a recente educa para o personalismo. Julgo que estamos a assistir a uma geração que não respeita os pais, os professores, os médicos. Agridem uns e outros com um à-vontade que espanta. Serão frutos duma educação exacerbada do livre-arbítrio? Estes são valores que o espírito do tempo não pode mudar. Um dia destes dizia-me uma professora do ensino profissional: “ele (aluno) levou uma torradeira para a sala de aula; quando questionado pela professora respondeu: vou fazer torradas, ou o que julga que faz uma torradeira?”. A educação obediente criou uma geração onde os valores de respeito aos pais, aos mais velhos, aos professores, aos juízes, aos médicos, era mais que uma obrigação, era um dever moral. Mas a educação do personalismo/relativismo vai levar-nos ao extremo da imposição do querer pessoal, sem quaisquer barreiras que se lhe oponham, é uma cavalgada sem freio. Dizem-me que nesta educação a pessoa afirma a sua personalidade, que o indivíduo emerge do caos do todo e se afirma com um eu consciente. Ele emerge, na verdade, mas faz imergir os outros, aqueles que ele não respeita, não estima e não ama, principalmente quando o contrariam na sua personalidade egocêntrica. Quem educa sem regras está a criar uma sociedade de indivíduos, em vez de uma sociedade de pessoas. Ser pessoa é crescer para lá do indivíduo. Batem nos professores, espancam médicos e enfermeiros, desobedecem aos pais, amanhã vão invetivar os juízes e nada falta para bater no ombro do presidente da república e dizer-lhe, estás porreiro, pá. Eu sei que alguns destes se põem a jeito para serem os pá deles, mas não concordo que paguemos todos o preço da dívida de alguns. Se estas são o espírito destes tempos, então estes tempos estão mais que gripados, estão sifilíticos. Ainda teremos tempo de a curar? É arrepiante pensar que uma mudança de direção educacional dos nossos jovens, poderá representar a perda duma sociedade que nos tornou verdadeiramente humanos!

Destaque

Quem educa sem regras está a criar uma sociedade de indivíduos, em vez de uma sociedade de pessoas. Ser pessoa é crescer para lá do indivíduo.

Fonte: Diário do Minho

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.